sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

O Cinema e a Realidade



 


“O cinema é talvez realidade, mas também outra coisa, geradora de emoções e sonhos” (MORIN, 1997, p.36).

O homem necessita da ilusão para viver, pois esta é uma das formas para superar seus medos, inquietações e dores ou mesmo alcançar a tão sonhada e desejada felicidade e a imagem lhe causa esse prazer. 

O prazer segundo Freud (1997) é o que nos move em nossas atitudes, falhas e acertos. Homens guiados por sentimentos resguardados em sociedades, mas que encontram no poder das imagens através do cinema uma fuga, uma ilusão verdadeira, um reduto de desejos. Assim é o cinema para o homem. Ele representa a realidade, a ilusão, o desejo e uma saída. O cinema está para a realidade, assim como realidade está para o cinema.

Nesse sentido, por mais ilusão que seja o cinema, a sua essência encontra-se na veracidade da vida. É a realidade que as mantém.

O cinema é um meio técnico que consegue exprimir a idéia de um mundo ou de uma sociedade. “O cinema foi a primeira forma de arte em decorrência de uma invenção tecnológica” (TARKOVSKI, 1998, p. 95) e nesse sentido ela consegue revelar e compreender ao fundo todas as questões emblemáticas que percorrem o homem. 

Segundo Tarkovski “o cinema deve ser um meio de explorar os problemas mais complexos do nosso tempo” (1998, p. 94). Trazer para as telas do cinema e levar até as pessoas uma arte que tem a capacidade de iludir, nas palavras de Tarkovski, “uma ilusão verdadeira” (1998, p. 99), mesmo a pessoa sabendo que aquilo que está diante dela não é a realidade em si, mas apenas a sua representatividade, é a função primordial do cinema. Morin afirma que “se a sua realidade é ilusão, é evidente que essa ilusão é, apesar de tudo, a sua realidade” (1997, p. 31). Ele é um interlocutor entre o imaginário e a vida real, se não se apega a realidade, produz uma representatividade dela.




O cinema em comparação com outras artes, como a pintura e a fotografia, leva uma grande vantagem pelo fato de ter o poder de dar movimento ao instante fotografado e capturado, fornecendo-lhe mais sensação de veracidade.  “Entre todas as artes ou todos os modos de representação, o cinema aparece como um dos mais realistas, pois tem a capacidade de reproduzir o movimento, a duração e restituir o ambiente sonoro de uma ação ou de um lugar” (AUMONT, 2007, p. 134), para Morin “o cinematógrafo aumenta duplamente a impressão de realidade da fotografia, na medida em que, por um lado, restitui aos seres e às coisas o seu movimento natural” (1997, p. 31).
 
Ainda segundo a noção de ilusão e verdades, o cinema comporta traços da vida, pois segundo o autor, em sua essência há a realidade, reproduzida em uma forma de linguagem utilizando-se da fotografia. “A fotografia não cria [...] ela embalsama o tempo, [...], a imagem pode ser nebulosa, descolorida, sem valor documental, mas ela provém por sua gênese da ontologia do modelo; ela é o modelo” (BAZIN, 1991, p. 24). Mas, um dos pontos que mais chamam a atenção de Bazin para essa compreensão, do cinema como espelho da realidade, é que ele pode reproduzir o tempo.  “A imagem das coisas é também a imagem da duração delas” (1991, p. 25). 

O ritmo e o tempo é um dos elementos, segundo Tarkovski (1998), mais importantes do cinema. Ele confere sensibilidade e mais veracidade ao filme. Segundo o autor, que foi um dos que mais estudou esse elemento, o ritmo “expressa o fluxo de tempo no interior do fotograma [...] É impossível conceber uma obra cinematográfica sem a sensação do tempo fluindo através das tomadas” (1998, p. 134). Segundo o autor, para que o filme tenha ritmo, isso vai depender de uma variação de fatores como comportamento dos personagens, tratamento visual e trilha sonora. 



Outro aspecto que será de extrema importância para o cinema e sua representatividade com o real é a questão da identificação do espectador com essa arte. Nesse sentido, quando uma pessoa entra numa sala escura, senta na poltrona, a junção desses elementos mais o som e os olhos fixos na tela, fazem com que o público crie laços em que a história por mais ilusória que seja se passará ao espectador com uma noção de real. Por cerca de duas a três horas o público acreditará que aquilo que vêm, ouvem e sentem tenha alguma realidade. Segundo Morin esse fator se dá por meio da projeção e identificação.

A projeção é um processo universal [...]. As nossas necessidades, aspirações, desejos, obsessões, receios, projetam-se, não só no vácuo em sonhos e imaginação, mas também sobre todas as coisas e todos os seres [...]. Na identificação, o sujeito, em vez de se projetar no mundo, absorve-o. A identificação incorpora o meio ambiente no próprio eu e integra-o afetivamente. (MORIN, 1997, p. 108).

“Da simples ilusão de movimento a toda uma gama complexa de emoções, passando por fenômenos psicológicos, como a atenção ou a memória, o cinema é feito para dirigir-se ao espírito humano” (AUMONT, 2007, p. 225). Ele, o espectador, deseja ver o irreal, mas também, o que está próximo dele, como praças, campos, lugares pelos quais tenha passado ou desejado estar. “O que atraiu as primeiras multidões não foi a saída duma fábrica, ou um comboio numa estação [...] mas uma imagem do comboio, uma imagem da saída da fábrica. Não era pelo real, mas pela imagem do real” (MORIN, 1997, p. 33). Segundo o autor, a imagem fixada no cinema é apenas uma transposição da vida delas. A idéia de ilusão permanece, pois ela é uma imagem, mas é justamente por ser uma imagem de algo verdadeiro que impressiona e cativa atenção e admiração do público diante do cinema. 

Além dessa ilusão, há a idéia da realidade posta ao espectador, nesse sentido, o público passa a ter uma segunda visão sobre a vida, sendo que esta consegue trazer a tona detalhes e nuances que não seriam possíveis na visão comum. Essa segunda visão, a do cinema, traz consigo também a magia e a poesia das imagens. “Segundo a expressão de Moussinac, a imagem cinematográfica mantém o contato com o real e transfigura-o até à magia (MOUSSINAC apud MORIN, 1997, p. 35).

O cinema é feito por sonhos, verdades, mentiras, ideias, medos, desejos e sensações das mais diversas às mais complexas, assim como o homem. Ele é um espelho de um homem imaginário. 

AUMONT, Jaques. A imagem. Tradução Estela dos Santos Abreu; Claudio Cesar Santoro. Campinas: Editora Papirus. 2007.  

BAZIN, André. O cinema. Ensaios. São Paulo: Editora Brasiliense. 1991.


FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Tradução de José Octavio Aguiar Abreu. Rio de Janeiro: Imago. 1997. 


MORIN, Edgar. O cinema ou o homem imaginário. Tradução António-Pedro Vasconcelos. Lisboa: Editora Relógio D’Água. 1997. 


TARKOVSKI, Andrei. Esculpir o tempo. Tradução Jeferson Luiz Camargo. São Paulo: Editora Martins Fontes. 1998





quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Ferrugem e Osso


O que é o amor, se não uma força avassaladora que jamais compreenderemos.

No drama francês Ferrugem e Osso temos duas vidas marcadas pelas circunstâncias de suas escolhas. Sujeitos confrontados pela dor, pela vida e pelo sofrimento em seu mais extremo limite e que terão na cumplicidade de sua relação, uma força motriz capaz de vencer qualquer obstáculo.

Stéphanie (Marion Cotillard) é jovem e atraente e tem essa consciência. É treinadora de orcas e adora o que faz. Mesmo tendo um namorado, sai pelas noites em busca de ser desejada e cobiçada. Seu prazer está em saber que todos a desejam.

Alain (Matthias Schoenaerts) é um ex-lutador, possui um filho de cinco anos e está recomeçando. Esse homem com olhar sério e áspero, às vezes exala inocência, as vezes irresponsabilidade, na maioria do tempo se mostra egoísta. Possuí vários bicos e dessa forma vai levando. Seu filho é tão inocente e carinhoso, sempre deseja atenção e é sempre esquecido. Apesar de ter apanhado na vida, Alain ainda é muito imaturo.

Num dia de trabalho como todos os outros de Stéphanie, uma tragédia acontece e ela fica gravemente ferida. Como conseqüência do acidente, tem suas pernas amputadas. A partir desse fato, sente a dor da morte em vida, mas ela sabe que uma hora terá que se levantar. Mas ainda não se sente pronta para isso, então sofre calada e se prende em seu apartamento.


Ela havia conhecido Alain numa noite, ele deixou seu número com ela, então Stéphanie resolve ligar e pedir ajuda. É desse contato, desse encontro, dessa ligação que irá se construir entre eles uma amizade, um elo forte, uma ternura e um amor. Ora, o que é o amor?

Alain é forte, grande e agüenta todas as brigas que pode e não cai tão fácil. Suporta o sangue e a dor física, mas diante dos sentimentos ele se cala e foge. Sempre foi assim na vida e dessa forma age com relação aos sentimentos que não pode confrontar. Stéphanie por sua vez, é delicada, aparenta ser frágil e fraca, mas diante desse acidente ela se levanta e mostra uma força descomunal e continua vivendo. Possui uma força que impressiona, um desejo pela vida que faz conquistar a admiração de Alain. Sua postura, seu olhar, seu desejo de viver, fazem com que ela deixe a lamentação de lado e apenas prossiga.

Ele representa o corpo, a força física, ela os sentimentos, uma força interna invejável, ele será as pernas que ela precisará para andar, ela será os olhos que ele necessita para ver aonde quer chegar.




Ferrugem e Osso usa o atrito dos corpos e suas atrações para falar sobre o desejo, para falar sobre a força do amor, um sentimento que não se entende, mas que apenas se vive. Essa fala não se dá de forma melodramática, mas real e concisa, com silêncios e fortes cenas de sexo. Sexo, esse é outro tema forte nesse filme.

A relação sexual aqui nesse drama está ligada a carne, ao prazer, ao suor. É assim que Alain transa com as mulheres que lhe aparecem e posteriormente com Stéphanie, depois de lhe fazer uma proposta. Um sexo sem sentimentos, desapegado, sem compromisso, apenas pelo prazer da carne. Mas em meio a tantos prazeres movidos pelo desejo, onde está o amor? Alain e Stéphanie se relacionam, o sexo está ali entre eles, mas não está. Diante desse prazer carnal, o sentimento nasce dos lugares mais inesperados.

A câmera foca em Stéphanie, nos seus olhos, em sua nova condição de vida e a mostra, a revela. É isso que o diretor nos quer mostrar, a condição humana frente aos limites da vida. Dor, raiva e compaixão, há uma mistura de sentimentos nestas cenas e o diretor expõe sem medo.  Ela se arrasta pelo chão e a todo o momento seus olhos se perdem no horizonte para ela não se lembrar do que lhe faz falta. Mas conhecemos seu sofrimento e ouvimos seu grito calado. Ela ainda sente a dor, sente o peso, mas o que fazer diante disso? Nada, não se faz nada, apenas continua vivendo.



Nesse filme francês o calor é intenso, o sol brilha forte. Esqueça as fotografias frias, gélidas ou até aquele inverno sem vida. Nesse drama, tudo é mais intenso e vivo. O sangue que jorra é quente, o sexo é viril, os sentimentos mais fortes e a dor, sufocante. Um longa em que a trilha sonora norte-americana se faz presente, talvez por conta disso, tenha conseguido tanto espaço nesse mercado tão restrito e tenha obtido suas merecidas indicações aos principais prêmios da academia. 

Um filme em que o sexo é carnal, mas o amor nasce, brota e ganha força das relações mais tortas. Um drama em que palavras que expressam nosso sentimento não são ditas, mas são sentidas e percebidas. Um amor que nasce da necessidade da vida, do elo e da brutalidade. 

Uma atuação extraordinária de Marion Cotillard, um longa fenomenal sobre a dor, o amor e a vida. Um final fascinante em que o “eu te amo” é dito com tanta dificuldade, e tanta força. Enfim, viver é sentir, é se lançar, é temer, é perceber a vida em seus mais diversos momentos, seja no prazer ou em sua mais pura dor.