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segunda-feira, 14 de novembro de 2011

O Som no Cinema: O ruído Expressa


“Todos os ruídos têm um sentido, todos são ritmados [...]. Tão mais inebriantes quanto são os sentimentos da solidão” (WEILL apud MORAES, 1983, p. 34).
Os ruídos expressam idéias, pensamentos, circunstâncias, interferências, condições da vida e tantas outras situações que se pode ou deseja ter conforme o objetivo daquele que pretende repassar algo. Pode-se colocar como ruído todo e qualquer tipo de som que está ligado a paisagem sonora (SHAFER, 1991) . Desde sons que movem a cidade ou o campo, dos mais característicos aos mais imperceptíveis. Devido ao homem receber grandes quantidades de informações sonoras atualmente, é de extrema complexidade conseguir distinguir ou decifrar todos os ruídos que lhe cercam, somente quando estes lhe causam algum mal ou irritação é que se pode percebê-los.
Após a Segunda Guerra é que começou de fato os estudos sobre os ruídos na construção da música. Se antes era visto como algo que poderia prejudicar a harmonia, com o avanço dos estudos, compositores passaram a utilizá-lo.
No filme Dogville, do diretor Lars Von Trier, o ruído é trabalhado de forma interessante. Ele desempenha a função de complementar o cenário construído pelo diretor. Toda a cidade elaborada por Trier fica instalada num palco. Todas as casas, ruas, jardins são representados por desenhos no chão, ou partes de estruturas que dão a idéia de um cenário. Nesse universo, o que complementa a veracidade desta cidade são os ruídos que representam as ações e movimentos convencionais da realidade. É o som da porta ao ser aberta, a maçaneta girando, o cão latindo ou o som do vento. Os sons produzidos imitam os do ambiente, tão presente no cotidiano da sociedade, mas nunca percebido. O peso da mensagem se intensifica com o uso dessas características próprias do meio que são colocadas a se perceber. Esses ruídos podem ser encontrados abundantemente no meio, porém devidos a vários fatores não são percebidos, mas ao se escutá-los, o espectador consegue notar e compreender a mensagem do diretor, mesmo quando essa se passa de forma indireta e subliminar.
Outra produção cinematográfica interessante invocar é o filme brasileiro Mutum da diretora Sandra Kogut. O longa retrata a história de Thiago, um garoto que vive num local isolado em Minas Gerais. Nesse filme, em comparação com Dogville, a trilha sonora é usada de forma semelhante e distinta ao mesmo tempo. Semelhante, pois a diretora utiliza o som ambiente para ilustrar as cenas, dando mais veracidade a história, distinta, pois em Mutum não há trilha sonora instrumental, como usado na produção de Trier, mas apenas os ruídos e o som ambiente. O que se ouve são os sons que rodeiam a vida desse personagem. As risadas das crianças, as brigas dos adultos, os animais correndo, o som do riacho, todos os tipos de sons presentes nesse cotidiano tão simples e que estão na película ressaltando de forma indireta as características desse local, que é humilde em seu contexto.
Apesar dos avanços, poucos foram os estudos produzidos nessa área. Segundo Shafer (1972), um dos grandes teóricos da música, o “ruído é o som indesejável [...] qualquer som que interfere [...] quanto mais selecionamos os sons para ouvir, mais somos progressivamente perturbados pelos sinais sonoros que interferem [...] o mundo está repleto de ruídos” (1972, p. 23). Seu trabalho foi direcionado na transformação da paisagem sonora do meio ambiente proveniente das mudanças econômicas e industriais do novo século.


O Silêncio Fala
“O silêncio não existe. Sempre está alguma coisa acontecendo que produz som” (CAGE apud VALENTE, 1999, p. 89).
Assim como os estudos sobre o ruído, as pesquisas sobre o silêncio começaram após a Segunda Guerra. Nesse momento, ele deixou de ser usado como um recurso expressivo para ser observado como elemento de grande relevância.
Um experimento de John Cage realizado na década de 1950 sobre a questão do silêncio é de extrema importância citar para poder compreender como esse elemento encontra-se no meio sonoro. Cage se trancou numa câmara anecóica, uma sala blindada em que as paredes, chão e teto são cobertos por um material absorvente que impede e elimina qualquer onda mecânica como o som. Após ter feito isso, o único ruído que pôde ouvir era o da corrente sanguínea e do seu sistema nervoso.
A conclusão que ele chegou é que ao eliminar qualquer sonoridade ou fonte sonora, ainda sobrará algo como o som do corpo. “A rigor, fisicamente e em termos absolutos, ele (o silêncio) não existe na biosfera. [...] O que chamamos costumeiramente de silêncio corresponde a uma infra-audição do ruído” (Neves apud Valente, pg. 89). Não há ausência completa do som, pois mesmo quando todos os ruídos são extirpados, ainda resta a sonoridade do corpo, o ritmo da vida, ou seja, “o silêncio essencial é a morte” (SHAFER, apud VALENTE, 1999, pg. 77).
Assim é o silêncio: introspectivo e profundo. Ele age “atuando como recurso expressivo, causando tensão, em conseqüência de expectativa” (VALENTE, 1999, p. 89). Sua presença quase não é nítida. Ele está ali, mas ao mesmo tempo não, quando todos os sons adormecem e todas as vozes e cantos morrem, resta o silêncio que sempre esteve naquele local, sendo usado para todos os fins possíveis, desde os metafóricos a explicativos ou contemplativo. Segundo Shafer (1991, p. 71) “(o) silêncio é negro [...] é um recipiente dentro do qual é colocado um evento musical [...] é uma caixa de possibilidades. Tudo pode acontecer para quebrá-lo [...] o silêncio soa”.
A questão e importância do silêncio evoluíram com o tempo. Até os estudos de Cage, trabalhava-se o silêncio como marcação para as partituras ou uma pausa entre os ritmos, uma forma de o ouvinte perceber a divisão dos ritmos proposto pelo instrumentista, mas com o desenvolvimento dos estudos de Cage, o silêncio começou a ser percebido como algo a mais, algo que vai além da ausência de som para ganhar novos contornos. Esses novos dizeres podem ser na esfera musical, artística, filosófica ou psicológica. “A ausência de som pode funcionar como ruído de código” adverte Valente (1999, p. 46) nos seus estudos sobre o ruído e o silêncio na contemporaneidade.
Em se tratando de cinema, o silêncio tanto pode ser utilizado na composição instrumental da trilha sonora, quanto como elemento metafórico no enredo da história. Nesse caso, há um silêncio para denotar algo, transmitir uma mensagem, fazendo toda uma referência aos personagens. “O silêncio é fundamental para a composição do filme, pois é nesse intervalo que os sentidos se comunicam. É no silêncio que as sensações se traduzem” (COSTA, 2001 apud COSTA, 2006, p. 110). O silêncio também pode ser colocado com outros intuitos, em certas cenas para denotar que há uma barreira, uma parede ou uma mordaça que impedem os personagens de falarem ou dizerem algo.

COSTA, Fernando Morais. O som no cinema brasileiro: revisão de uma importância indeferida. 2006. 268 f. Tese (Doutorado em Comunicação Social) – Universidade Federal Fluminense. Rio de Janeiro. 2006.
MORAES, J. J. .Música da modernidade: origens da música do nosso tempo. São Paulo: Editora Brasiliense. 1983
SHAFER, Murray. O ouvido pensante. São Paulo: Editora UNESP. 1991
VALENTE, Heloisa de Araújo Duarte. Os cantos da voz: entre o ruído e o silêncio. São Paulo: Annablume. 1999. 

segunda-feira, 18 de julho de 2011

O som do cinema: Trilha sonora


“A música surge [...] como um elemento-chave, ou seja, como uma necessidade do cinema” (MORIN, 1997, p. 101). 
Aprofundar a percepção, perceber olhares, dramatizar cenas. Um assassinato, uma morte trágica, um silêncio prolongado, uma cena marcante, nada disso seria plenamente possível se não fosse a trilha sonora. Ela dá peso ao filme, consistência ao drama, suaviza uma tragédia, aprofunda e oferece ao espectador a sensação de agonia e eternidade a uma simples sequência de segundos. Ela traz beleza à história. Quem não se lembra da cena clássica de Psicose, de Hitchcock, em que a personagem Marionde (Janet Leigh) é assassinada no banheiro de um motel. A sequência que teve uma duração de 45 segundos ficou eternizada pela montagem inovadora da época e pela música que simplesmente marcou o filme.
Assim é a trilha sonora, é capaz de fazer o espectador se lembrar de uma cena ou longa somente pela sua melodia. Ela marca tanto um filme e se torna tão necessária que se a película existisse sem essa trilha em especial, não teria o mesmo sentido ou impacto. Mas para compreendê-la é preciso primeiramente perceber o som, é necessário buscar suas raízes, ir um pouco mais profundo nas bases de sua essência.
Como se percebe o som? Como captar suas mensagens? Como ele interfere em nossas lembranças? Como escutá-lo? “Para ouvir, basta-nos que os ouvidos sejam capazes, fisiologicamente, de captar o som; para escutar, é necessário que haja intenção deliberada, por parte de quem ouve, em desejar captar o som” (VALENTE, 1999, p. 35). Nesse sentido, ouvir e escutar, apesar de serem sinônimos, nestes estudos terão conotações distintas. 

Essência
Com o decorrer da história do cinema, poucos foram os estudos dados a essa área. Devido a sétima arte ser constituída em sua base por imagens, um estudo ligado exclusivamente ao ouvir torna-se difícil e quase impossível encontrar ou conhecer. Para se compreender o som no cinema, é preciso num primeiro momento, focar os estudos sobre o campo da música, pois afinal, a trilha sonora é feita ruídos, sons, ou todo e qualquer tipo de sonoridade e o que é música? Segundo Dantas (2010) a “música é a sucessão de sons e silêncio organizada ao longo do tempo”, ela pode ser divida em melodia, harmonia e ritmo. Melodia “é a organização simples de uma série de sons musicais, constituindo-se o elemento principal da música. É a sequência de sons que você vai cantar ou tocar” (DANTAS, 2010), ritmo é o tempo de cada parte da melodia, ela age em função da duração do som, ela dá o movimento sonoro na música e harmonia “é a combinação dos sons ouvidos simultaneamente, é o agrupamento agradável de sons” (DANTAS, 2010).
A música assim como o cinema sofreu diversas transformações com o passar dos anos. Amplamente estudada, o conceito sobre essa sucessão de sons tornou-se polêmico com o avanço dos estudos, ou seja, a junção de qualquer som é por obrigação uma música? Nesse caso, não entraremos nos detalhes e méritos dessa questão, mas é preciso perceber que qualquer sonoridade, pode-se receber o conceito de música e sabendo usá-la, poderá perfeitamente obter uma melodia agradável e rica em complexidade e estudos. Duas dessas sonoridades que os teóricos da música perceberam com o tempo são o barulho e o silêncio .


Com a revolução industrial, novos sons como interferências e ruídos foram incorporados ao ritmo da sociedade, nesse sentido, o homem teve que aprender a acompanhar essa nova melodia. Segundo Valente (1999, p. 33): “As conseqüências da ploriferação do ruído – o barulho – foram indubitavelmente determinantes no que diz respeito aos modos de ouvir, pois promoveram uma mudança perceptiva [...] cuja origem se encontra na transformação da paisagem sonora”.
Nesse caso, entende-se por paisagem sonora os estudos sobre qualquer ambiente, seja real ou abstrato, natural ou industrial, qualquer esfera sonora, desde uma partitura musical, um programa de rádio, o som de um trânsito ou aos sons naturais de uma fazenda (SHAFER, 1991) e compreende-se como barulho ou ruído todos os tipos de melodias ou arranjos que interferem no som comum das harmonias, trazendo uma dificuldade ao que está ouvindo em tentar decifrá-la. Esse ruído pode ser desde a buzina de um carro a uma produção industrial, construção, um trem em movimento ou da água escorrendo por uma calha, em relação ao ruído, iremos abordar mais a frente.
Numa sociedade marcada pelas imagens, se ater ao som não é uma tarefa fácil, entretanto não é impossível, já que o “nosso século é marcado, desde os primeiros anos, pela invasão deste barulho“ (VALENTE, 1999. p. 30), ou seja, perceber o som é um exercício de ouvir, pois ele está abundantemente ao nosso derredor, “foi somente o crescimento abrupto do barulho que permitiu ao ruído ser percebido, delineado, questionado” (VALENTE, 1999. p. 43). Ruídos, murmúrios, gritos, silêncios, todos esses detalhes fazem parte dessa melodia.
Segundo os estudos de Pierre Schaeffer (1966|), o ato de escutar passa por quatro fases, quatro níveis: ouvir, escutar, entender e captar, mas em relação a essa característica do som, outros teóricos também desenvolveram teses e trabalhos que tentam classificar a captação do ouvir. Conforme os estudos de Santaella (1986) e J.J. Moraes (1985) pode-se separar o ouvir em três níveis: de forma emotiva, com o corpo e intelectualmente. “Ouvir emotivamente (qualidade de sentir incerto e vago, comoção, emoção), ouvir com o corpo (característico da dança ritual, dança coreografada e música e corpo encontram-se em contigüidade), ouvir intelectualmente (apreensão hipotética, apreensão dos elementos estruturais, apreensão da música como forma de pensamento)” (SANTAELLA, 1986 apud VALENTE, 1999, p. 35).

Referencias
DANTAS, Tiago. Música. 2010.
Disponível em < http://www.brasilescola.com/artes/musica.htm>.
MORIN, Edgar. O cinema ou o homem imaginário. Tradução António-Pedro Vasconcelos. Lisboa: Editora Relógio D’Água. 1997.
SANTAELLA. Lucia; NOTH. Winfried. Imagem: cognição, semiótica, mídia. São Paulo: Editora Iluminuras, 2008
SHAFER, Murray. O ouvido pensante. São Paulo: Editora UNESP. 1991
VALENTE, Heloisa de Araújo Duarte. Os cantos da voz: entre o ruído e o silêncio. São Paulo: Annablume. 1999.

domingo, 20 de março de 2011

Buscando novos sons

Não sou muito ligado a música, sou mais imagens, entretanto, desde quando produzi meu tcc lançando grande destaque para a trilha sonora, resolvi perceber esse detalhe nos filmes e buscar alguns abuns somente com faixas em Score, produzidas especialmente para algum longa ou série, feitas para acompanhar as imagens, cenas e afins.

Nessa busca descobri ótimos trabalhos, segue uma lista abaixo:

Em busca da terra do nunca, com várias faixas, alguma delas são bem chatas, mas não há como negar que três delas ou até quatro são praticamente perfeitas, sendo que esse álbum levou o Oscar de melhor trilha sonora. Esse álbum merece, a música que abre o cd é incrível, a ouvindo, somos convidados a saborear de uma melodia que muda seus ares constantemente, ora é alegre, ora triste, se bem que ela me faz recordar o longa Edward, mãos de tesoura, isso no meio da melodia. Outra faixa também muito bem trabalha, com uma melodia e ritmo lento, terno que toca em nossos sentidos é a "This is Neverland", próxima do final, essa canção contrabalança uma das cenas mais tocantes do filme, talvez por isso, eu a ache a mais bonita de todas.

Ensaio sobre cegueira, composta todas pelo grupo brasileiro Uakti, esse álbum é umas das surpreas que tive ao escutá-lo. "Drama 3" e "Minimal 8", que abrem o Cd são soberbas, elas começam de forma lenta e ganham peso, agressividade, chegando a um apice com grande presença. elas também ilustram as cenas mais fortes deste filme e nesse caso, essas músicas tem um peso a mais, pois elas tinham que amenizar algumas imagens/cenas do filme que eram bem fortes, pesadas, porém, as ouvindo a parte, essas melodias por si só já prendem nossa atenção. Um trabalho genial e inspirador desse grupo. Se bem que uma dessas faixas lembra outro trabalho de trilha sonora da qual eu gosto muito e tenho como o meu preferido que é As horas.

As horas, com todas as faixas compostas por Philip Glass é um trabalho impecável. "The Poet Acts", "Morning Passages" e "Escape" são as melhores do CD. O ritmo, o tempo, os instrumentos, não sei, mexe bastante com as sensações e mostra como as músicas podem nos envolver, nos comover e no influenciar em todos os nosso sentidos, até os mais profundos. O toque do teclado que muda cosntantemente o tom durante a execução, é algo belo, trágico, causa anciedade e agonia, é como se algo estivesse para acontencer, mais depois, ele ameniza, com leves sons e acelera o peso do ritmo novamente, incrível.

Por fim, cito Angel, o caça vampiros. O Cd é bem interessante, a primeria faixa tem a música de abertura, que ao meu ver é a melhor. "Home" é ótima também, bem curta, porém muito profunda. "Darla's Sacrifice" tem um tempo acima de toda do CD, mas convenhamos, ela precisa e merece esse tempo. Dor, alegria, tristeza, são os sentimentos provocados e "Princess Cordelia" é outra que leva o destaque.

Um blog que contém um material bem bacana com vários albuns é o http://trilhadomedo.blogspot.com/