domingo, 17 de abril de 2016

Vida que segue ....


“Acho que vou deixar o mistério rolar”

Em sua segunda temporada, The Leftover muda de abertura, estrutura e cidade  para nos apresentar uma trama ainda baseada nos mesmos problemas, sentimentos e dores. A primeira vista, o que se percebe é que estamos vendo um outro seriado, mas não demora muito e aquela antiga trilha ganha forma e vemos que nada mudou, o luto ainda está ali, firme e forte.  

Na primeira cena da temporada, vemos uma mulher em dores de parto, estamos num período pré-histórico. Devido a ela sentir que está perto de dar à luz, sai de perto dos seus, uma caverna. Por conta deste ato, ela se afasta de todos, quando um terremoto acontece causando um desmoronamento da caverna soterrando a todos, somente ela sobrevive. Em meio ao pânico e a dor, ela dá a luz. Em meio a morte, brota a vida. Após isso vemos o caminhar desta mulher para cuidar desta criança quando um novo acaso acontece. O acaso guia os homens, em seus passos, seus feitos e suas ações.

Anos se passam e nesta região nasce a cidade de Jardem. Uma cidade onde o calor impera, a natureza mostra sua beleza, mas algo ainda está ligado a este local. Quando acontece a partida repentina onde 2% da população simplesmente desaparece, Jardem é poupada.

Nesta cidade conhecemos a família do policial John Murphy (Kevin Carroll). Ele é um homem sério, que não acredita em milagres e tenta manter a paz e ordem em toda cidade. Para que esta ordem seja mantida, ele usa métodos um tanto violentos e não tem pudor para realizá-los. Sua esposa Erika (Regina King), é mais compreensível e tenta entender a postura do marido. Ela tem dois filhos Michael (Jovan Adepo) e Evie (Jasmin Savoy Brown). São gêmeos, entretanto nasceram em tempos diferentes. O próprio nascimento deles foi dado como um milagre.




Diante deste fato, todos acham que sobre esta cidade há algo de poderoso, de sobrenatural. Todos então resolvem migrar para esta cidade em busca de proteção e segurança.

Devido ao grande número de pessoas que desejam entrar na cidade, Milagre torna-se numa verdadeira muralha. Todos que habitam na cidade, usam pulseiras que o identificam. Há toques de recolher e todo um aparato de segurança. Tudo para proteger os cidadãos que foram poupados.

Nesta cidade tudo remete a milagres, toda uma simbologia foi construída para todos que cheguem a esta cidade tenham certeza que nesta cidade há algo de poderoso e esta ideia dá certo. Milhares de pessoas passam a acampar na entrada da cidade e portões são construídos para manter a segurança ao local. Entretanto, não há milagres em Milagre.

Chegam à cidade Kevin, sua filha Jill (Margaret Qualley) e sua nova esposa Nora (Carrie Coon) com a pequena filha recém adotada que ela havia encontrado no fim da primeira temporada. Eles conseguem comprar uma casa e tentam restabelecer suas vidas novamente. Mas algo de estranho acontece assim que eles chegam. Um novo terremoto acontece, o lago da cidade é todo esvaziado e Evie, a filha de John, desaparece. Seria um nova partida?

A partir deste fato começam-se as buscas e todo um alvoroço toma conta da cidade. O que aconteceu a estas garotas? Estaria Milagre também protegida?



O seriado, estruturado em dez episódios, segue a mesma linha do primeiro ano. Porém, para esta segunda temporada houve mudanças. Sai de cena o tom melancólico da primeira temporada com seu ar de mistério e ganha força o drama que envolve seus personagens.

Na primeira temporada havia toda uma estrutura moldada pela melancolia, seja pela abertura se utilizando de um instrumental de música sacra ou pelos episódios em que não se percebia um semblante de felicidade. Não havia paz para estes homens e mulheres. A dor da perda era tanta, que não havia tempo para nada, nem para amor, prazeres, rizadas, olhares bobos ou perceber o sol. Neste segundo ano a abertura já nos mostra pessoas sorridentes, olhares descompromissados, crianças brincando. Sim, há ainda o vazio deixado pela pessoa amada, mas ainda sim, há a vida que segue.

No primeiro episódio conhecemos a família Murphy. Ele policial, ela médica, os filhos sempre sorridentes. A impressão que temos é que estes vivem numa redoma de vidro e que estamos vendo a outro seriado. No meio do episódio, a família de Kevin chega, com seu passado, com seus traumas. Ao final algo de estranho acontece, Evie desaparece com suas amigas. Este desaparecimento desperta antigos receios. Nesta primeira trama, a trilha é soberba, alegre, mas não demora para que aquela velha batida retorne mostrando que sim, ainda a dor permanece, o luto permanece.

No segundo episódio a trama é centrada sobre a família de Kevin e vemos o que aconteceu a eles desde quando os incidentes da primeira temporada terminaram até o momento em que chegam a Milagre. Neste instante vemos como eles formam uma nova família, como Nora adota a pequena que é encontrada em frente a casa de Kevin e como este encontra-se numa situação delicada. Kevin passa a ser assombrado pelo fantasma de Patti. Este arco, envolvendo este policial e o espírito de Patti é o que rege toda temporada principalmente. O interessante é que durante todo começo da temporada, os autores do seriado jogam com a ideia: estaria este policial louco ou falando a verdade?

No terceiro episódio, a trama se volta para o desaparecimento de Evie e todas as ações tomam seus caminhos. A partir deste fato, cria-se inúmeros conceitos sobre o desaparecimento das pessoas, mas a cada nova teoria que nasce, percebemos que todos estão perdidos em suas teorias. Na verdade, ninguém ainda sabe o que aconteceu e está incerteza que paira sobre todos é o que de fato os amedronta.




A partir do quarto episódio, o seriado a cada trama se centra num grupo de personagens. Neste primeiro momento temos a história focada em Laure (Amy Brenneman)  e Tom (Chris Zylka), e suas tentativas de recomeçarem em suas vidas, tentando esquecer o passado da seita dos Remanescentes Culpados e tentando libertar as pessoas dos pensamentos desta seita. 

Após isso em Matt (Christopher Eccleston), nos mostrando como este pastor ainda continua com seus percalços, tentando manter sua fé, mesmo diante de todos os problemas. No sexto episódio, a trama é focada em Nora e Erika, mostrando os lados opostos destas duas mulheres e revelando algo muito mais profundo desta cidade. Até o nome do episódio, “Lente” faz uma referência não apenas a uma nova teoria lançada sobre os que desapareceram, mas sobre a própria cidade de Jardem.

É perceptível ver neste momento como o seriado alcançou seu ápice. A primeira temporada se revelou como ambígua, alguns a amaram, outros a odiaram na mesma proporção. Mas em seu segundo ano, o seriado refez suas linhas, seus arcos, reconstruiu os elementos que cercam seus personagens, mudou praticamente toda estrutura do seriado. 

Estas mudanças deram certo, pois diminuíram a melancolia do seriado, o deixando mais ameno e mais suave.  Neste sentindo, a ideia que se estabelece sobre este segundo ano é deixe as águas rolarem. Deixe o mistério acontecer. Por meio de uma melodia gostosa, singela, imagens em cores vivas, o seriado nos remete a ideia de que apesar de toda drama, a vida continua.




A partir destes personagens que nos são mostrados, a trama volta sua atenção para Kevin e a busca de sua cura. E esta cura é marcada pela morte e vida, busca e redenção revelando todo o poder sobrenatural que The Leftover nos revela. Os episódios sete e oito, centrados em sua busca implacável para se dar um fim ao seu drama, nos dá uma resposta ainda colocada pelos autores no começo da temporada. Estaria Kevin sofrendo de alguma doença ou enlouquecendo? Para The Leftover, não.

No penúltimo drama, revemos uma personagem há muito tempo afastada, mas ainda assim sempre presente. Meg (Livi Tyler) e a simbologia dos Renascentes Culpados. Vemos o seu passado, aquele passado antes da Partida Repentina e compreendemos um pouco melhor quem é esta mulher tão amargurada. Ela deixa de lado a inocência e fraqueza que sua personagem representava na primeira temporada e retorna com uma força e uma frieza imensurável.  Nesta trama muitas das questões lançadas são respondidas e então temos o fim da temporada.

The Leftover em sua segunda temporada, tem um total de apenas dez episódios. Seu episódio final poderia ser muito bem colocado como final de encerramento do seriado, caso ele tivesse sido cancelado. Esta trama consegue dar conta de finalizar inúmeros dramas e núcleos de personagens e ainda sim, deixar no ar um tom de mistério e incerteza que perdura sobre todo drama, como deve perdurar.

O canal HBO renovou este seriado para uma terceira e última temporada. A trama não tem objetivo de dar uma resposta ao que aconteceu aos que partiram, mas dar uma razão de viver para os que ficaram. E isso de fato aconteceu. Se a primeira temporada foi moldada pelo luto, a segunda foi mediada pela esperança.



 Mais uma vez, em sua segunda temporada tivemos personagens intensos e fortes e carismáticos. Roteiros bem elaborados moldados por uma trilha perspicaz e condizente. Entretanto, alguns elementos tiveram destaque, outros foram colocados com menos intensidade.

A trilha, sempre presente na primeira temporada, neste segundo ano está mais singela, mas ela ainda está lá, se fazendo presente e se mostrando presente, guiando, manipulando, dialogando, simbolizando a dor, a vida, a morte, o luto. 

As metáforas sobre a vida e a morte e o acaso que nos cerca também.  A cidade perfeita, numa redoma de vidro, intensa, com um sol belo e noite fria, que guarda seus segredos e seus traumas a longe de todos, mas que quando vistos, revelam fraquezas, imperfeições e pecados.

O tema de mistério sede espaço para o drama, para as dores, para os traumas. Diante de tantos segredos que cercam, diante de mistérios que nos guiam, o seriado faz sua escolha, prefere deixar o mistério rolar, acontecer, existir. Não importa o que acontecerá com nós após a morte ou como viemos a este mundo, o acaso acontece e isso que importa.







terça-feira, 15 de março de 2016

The Lobster


Um filme interessante, um filme diferente


Em “The Lobster” temos uma história marcada pelo surreal, pelo estranho. Numa sociedade em que os homens são obrigados a viverem em casal, os solteiros são obrigados a acharem uma pessoa com quem possam viver juntos. Caso contrário serão punidos.

Nesta sociedade, todos os solteiros são enviados para um hotel e lá podem ficar por um certo período de 45 dias. Caso encontrem alguém que possam ter uma relação, voltam para a cidade e para seus afazeres. Caso contrário, ao final do prazo, serão transformados num animal de sua escolha e viverão livres e solitários na natureza selvagem.

A cena inicial do longa nos mostra uma mulher meio perturbada dirigindo numa paisagem de campo. Ela sai do carro, vai até um pastoreio e com uma arma atira num boi. O animal morre, os outros vão até ele e a mulher retorna para seu carro. Então a imagem fecha e temos David (Colin Farrell) um homem desiludido, deprimido e desleixado para com a aparência. O motivo, foi abandonado pela esposa depois de anos de casado. Além de dar conta do motivo de ter sido deixado, tem que se preocupar com sua estadia neste hotel e com a possível ideia de ser punido, tornando-se num animal.

Ao chegar ao hotel, ele é apresentado as regras do local e percebe uma prisão quase sem muros nesta nova vida. Neste hotel tudo é ensinado para que os homens compreendam como é importante viver em companhia com alguém.

Nesta sua nova moradia temporária, ele se depara com dois homens. Homem Balbuciando (John C. Reilly), é um sujeito mais calado. Está perto da sua estadia final e ainda não achou nenhuma parceira e o Homem Mancando (Ben Whishaw), chegou juntamente com David. O Homem Mancando para conseguir conquistar sua parceira, cria estruturas particulares que não possui para tentar conquistar a pretende, já que ela possui este mesmo problema. No universo de The Lobster, os parceiros buscam se relacionar com pessoas semelhantes que tenham dificuldades ou problemas semelhantes.

David diante do receio de se tornar num animal, acaba por se envolver com a Mulher Cruel (Angeliki Papoulia) uma mulher fria, sem sentimentos. Para tal, ele tenta se passar por um, um homem apático e sem sentimentos. Entretanto tal ideia não dá certo e lhe causa mais problemas do que soluções.

Após isso, partimos para a segunda parte do longa e temos um outro olhar sobre a vida dos homens. Se na primeira parte predominava a vida em casal e os solteiros eram vistos como fracos. Na segunda parte os solitários se revelam, com seus códigos, suas leis, com suas normas e regras tão mais violentas quanto a dos casados.





O que se percebe neste drama é como o longa aborda um tema um tanto audacioso e presente. A busca pelo outro, a forma como nos anulamos em ter tal pessoa e como as regras estabelecidas em sociedade podem ser violentas caso não a sigamos.

Em toda obra, viver sozinho é algo que não se pode. Quando se deve ter alguém não se fala, mas todo homem deve ter um companheiro ou companheira. Numa das cenas é perguntado a Colin se ele se considera homo ou heterossexual. A possibilidade “Bissexual” não existe. Ou seja, ele tem que saber. As identidades, os prazeres, a forma como ele recebe a vida e as perguntas que possa ter ao longo da vida não importam. O que prevalece é ele responder a uma pergunta e ela é respondida, com frieza, sem pensar, como se pudesse escolher uma cor ou um prato num restaurante.

Esta frieza se molda pelas atitudes também dos homens para com os seus companheiros. Não há afeto, apenas uma convivência calcada em tudo, menos amizade, companheirismo, afeto, paixão ou amor. Tudo é muito desumanizado, mecanizado, superficial. Nesta sociedade há uma falta de sentimentos, O que prevalece é um instinto de sobrevivência.

Após isso, sua saída do hotel, David se depara com os solitários. Nesta nova trama, vemos estes solteiros que também se aplicam regras e normas. Não pode haver contato sexual, nem olhares ou nada que transpareça que há sentimentos e (ou) relação entre as pessoas. Todos devem viver sozinhos, consigo mesmos. Viver em seus mundos, afastados de todos, escondidos, nas florestas, tentando ao máximo se manterem vivos. Se na floresta há a liberdade completa para se viver sozinho, nas cidades há toda uma fiscalização para que os solteiros não existam.


Neste universo de leis, violência e imposições, este drama toca em temas complexos, nos traz para o nosso campo de visão uma trama diferente, ora estranha, ora acessível, ora cheia de metáforas. Não há como entender de fato o que move a estes personagens, ou estes grupos que se estabelecem.

Durante todo drama a há uma crítica pela busca de se ter um “outro” na vida do sujeito. Vivemos numa sociedade em que o sujeito, para se alcançar a felicidade que tanto deseja, precisa necessariamente ter um “outro” em sua vida. 

Não há felicidade plena se estiver só. Dois vivem melhor que um e para que tal “cara metade” seja encontrada, o homem se molda aos gostos padrões, aos valores padrões, os paradigmas padrões. Perde-se as particularidades de cada um e se adota uma homogeneização nos tratos, paladares, nos corpos e vestimentas. No hotel deste filme, todos usam a mesma roupa, todos se comportam da mesma forma, fazendo talvez uma referência a falta de diferenças que moldam os homens em sua vida em sociedade.

Mas se no hotel há esta busca constante pelo outro, na floresta, se encontra o oposto da cidade, há uma busca constante em se manter só. Ora, os extremos moldam os personagens deste filme, mas ao mesmo tempo em que estes desejam viver solteiros, vivem em grupo, em comunidade. Ora, não vivem completamente sozinhos, solitários.



Este drama traz em seu roteiro vastas referências interessantes sobre o viver em sociedade. Sobre as relações humanas, sobre a perda de identidade. Sobre como nos moldamos aos olhos dos outros. Sobre as regras em sociedade, regras simples de convivência, mas que revelam toda arbitrariedade em suas relações. 

Para além de todas estas percepções do drama, a falta de um nome para estes personagens é algo evidente. Todos são descaracterizados de seus nomes, de suas possíveis identidades. O que marcam ou os classificam são suas situações. Os personagens deste drama perderam não apenas sua liberdade, mas sua essência, seu nome e sua razão. Apenas David permanece em meio a esta essência, mas até quando?

No elenco temos Colin Farrell, num papel que não o vemos com frequência, em que a beleza não se faz muito presente e o corpo nos mostra um sujeito inerte na vida, fora dos padrões convencionais. O interessante de se notar neste drama é que Colin em diversas entrevistas sobre o filme, afirma que mesmo depois de ter gravado o longa e ter visto, ainda ficou sem entender muito bem as motivações de seu personagem.


Rachel Weisz também se destaca como a Mulher Míope, mas a meu ver, quem se sobressai é Lea Seydoux como a Líder Solitária. Ela dá a vida ao outro lado deste extremo, onde os solitários vivem suas vidas e as regras também se fazem presente. Ou seja, não importa quais os lados da moeda, sempre haverá homens desejando impor regras, conceitos e padrões.


terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Selma: Um grito pela liberdade


Um grito de liberdade, um clamor de esperança

A busca pelos direitos dos negros é marcada por perdas e conquistas. Por pessoas que fizeram história e marcaram vidas. Na vasta história que envolve os negros, tanto no Brasil, quanto nos Estados Unidos, tivemos a vida de homens e mulheres que ao seu modo, lutaram, bradaram e resistiram.

Este drama “Selma” vem contar uma história muito já conhecida. Mas não muito bem explicada. Martin Luther King (David Oyelowo) foi um dos grandes líderes negros que os Estados Unidos já conheceu. Sempre pregava a paz, a não violência e por meio dos seus discursos, conquistou a milhares de pessoas, brancos e negros.

Neste novo drama, muito bem recebido pela crítica, voltamos ao tempo para a cidade de Selma para acompanhar as manifestações de King em torno ao direito dos votos para os negros.

Estados Unidos, 1963, aos negros era concedido o direto a votar, mas para isso, precisavam de uma autorização de repartições especificas e quem liberava tais pedidos eram brancos, em muitos casos, contra o direito aos negros para votarem. É neste clima de forte racismo, violência e segregação que King chega à Selma para tentar levar esta proposta adiante.

O drama apenas faz um recorte da vida deste líder, recontando esta história da vida dele, do momento em que ele chega a Selma ao momento em que consegue, depois de muito custo, alcançar esta conquista.




“Selma” faz uma leitura básica e simples da vida deste homem. Na trama o que se sobressai é o poder da história da vida do personagem. Indicado ao Oscar de Melhor filme, o filme foi o achado do cinema independente do ano de 2014.

Mas é pela sua simplicidade que este longa nos conquista. Há pontos falhos neste drama, como uma manipulação nos sentimentos para que possamos comprar as ideias de King e uma falta de compreensão para com os racistas. 

Neste filme, vemos o lado dos negros, e como tais são desenhados como grande vítimas da história e os brancos, como grandes vilões. Mas entre o branco e o negro, há muitas tonalidades. Compreender de onde vem tanta violência ou como a questão do diferente nos causa tanta estranheza, seria um caminho mais complexo, entretanto interessante de se trabalhar.

Em “Selma” a cultura negra está impressa em cada tonalidade, cada veste, cada penteado, cada fala, cada prato culinário. É como se estivemos observando um outro Estados Unidos. Não há cores vivas, suco de laranja ou sucrilhos. O que vemos são negros, com seus louvores, com suas cores fortes e intensas, com sua fala cantada, seu estilo musical marcada pelo blues e soul.



Um ponto se notar no filme é que toda trama é guiada por informações confidenciais da FBI, revelando como que o governo esteve envolvido com a vida este homem. Neste sentindo, a diretora nos dá a ideia que o próprio King era também investigado pelo FBI.

Mas se o filme talvez possa pecar pela forma como guia a história, manipulando nossos sentimentos, traz para o centro da trama um olhar intenso sobre a conquista dos direitos dos negros e como estes tiveram dificuldade em conquistá-los. O que torna-se interessante analisar neste filme é tentar compreender o motivo de tanta indiferença ou ódio envolvendo a cor de uma pele e como direitos tão básicos foram negados a esta população.

Vemos estes homens e mulheres negros tendo que buscar uma forma de luta. Diante desta luta, há dois caminhos, uma direção marcado pela violência, materializado na figura de Malcon X, que mostra sua presença na história. 

Por outro lado, há uma direção mais tolerante, mais pacifica, na figura de King. Estes dois caminhos e duas formas de pensar, guardam consigo muitas rivalidades e dores. É com beleza e maestria que a diretora foca nesta relação.

Outro ponto interessante é com relação a presença da mulher negra nesta história. Elas não são deixadas de lado ou colocadas apenas como um rosto bonito. Elas tem voz e presença, influenciam e têm presença. Não chegam a ter o papel principal, mas não são meras figuras de elenco de apoio. Elas tem tanta importância dentro deste drama, que a cena inicial do longa começa com uma negra tentando tirar o direito ao voto. Não um homem, ou um jovem, mas uma mulher negra.


São detalhes como estes que conferem peso e força a este filme.  



terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Amorteamo


Há amores que nem a morte pode separar

Arlinda (Leticia Sabatella) é casada com Aragão (Jackson Antunes), porém tem um caso com Chico (Daniel de Oliveira). O drama começa com ela e seu amante na cama em pleno ato sexual, quando são flagrados pelo esposo traído, ele não pensa duas vezes e mata Chico.

Arlinda após a morte do seu amante, se vê perdida, sem chão, sem base, porém ao se perceber grávida, sente a vida novamente correndo pelas suas veias. Aragão permite com que ela tenha o filho, entretanto, jamais ninguém saberá que ele não seja o pai.

Anos se passam e Gabriel (Johnny Massaro), o filho de Arlinda, cresce. Leva uma vida despreocupada, sempre próximo de Lena (Arianne Botello), a filha da empregada da casa. Os dois tem uma relação muito próxima, até que o sentimento entre eles torna-se mais intensa e afetiva e então, resolvem vivenciar este amor, mas são separados por um segredo que os une.

Quando Arlinda fica gravemente doente, Aragão precisa de recursos, então faz um negócio com Isaac (Isio Ghelman), o banqueiro da cidade. Caso Gabriel case com Malvina (Marina Rui Barbosa), filha do banqueiro, Aragão obteria os recursos que precisa para salvar a vida de Arlinda.

Todos aceitam o acordo, o casamento entra em preparo. Malvina se apaixona perdidamente por Gabriel, mas ele ainda está preso a sentimentos por Lenna. Tudo segue, tudo caminha até que o pior acontece.

Ele a abandona no altar para ficar com sua amada e Malvina, a noiva abandonada, se joga da ponte se matando. Tudo terminaria neste momento, toda história se encerraria neste ponto se algo de sobrenatural não acontecesse.

Gabriel arrependido, vai até o túmulo de Malvina pedindo para que ele a perdoe e ela volte. Num momento de dor, ele declama, brada e suas palavras são ouvidas. A morte não a prende e ela retorna a vida, para ficar então com Gabriel. Ele ao ver o que aconteceu, fica sem reação e sem palavras. Ela diante do fato de estar morta, é tomada por uma raiva e fúria. Mas se ela voltar a vida já é algo problemático, tudo piora quando a morte resolve trazer à vida todos os mortos com suas pendências, deixando a pequena cidade num problema sobrenatural.



“Amorteamo”, nova série da Globo Produções, aposta e acerta belamente numa trama sobre amor, desejos e traições. Envolvendo em sua trama dois núcleos de personagens, estes personagens são movidos por sentimentos dos mais simples aos mais complexos.

Neste drama, nada separa o amor que os move, nem mesmo a morte. Porém, não é somente o amor que os guia ou move a estes personagens, há outros sentimentos também. Amor, ódio, fúria, desejo e raiva tomam a estes personagens e os moldam.

Bebendo declaradamente da fonte de outra trama conhecida pelo cinema, esta série se faz referência de “Noiva Cadaver”, grande sucesso de Tim Burton. Se naquele desenho a noiva era uma moça marcada pela traição e morte, aqui a personagem de Malvina é movida pela raiva e seus atos revelam isso.

“Amorteamo” possui uma trilha sonora exuberante, onde o instrumental se faz presente moldando cenas, personagens e sentimentos, mas a música também ganha força, na voz dos personagens que declamam suas dores, alegrias e situações, numa melodia gostosa e bela.



A fotografia investe nas cores quentes, ousadas e fortes, lembrando mais uma vez o velho trabalho de Burton. As cores chama a atenção, demarcam os limites dos sentimentos e revelam o que os personagens sentem.

Outra característica forte do seriado é com relação aos cenários construídos. Ora eles representam a realidade que os cerca, mostrando praças, cidades e casas, ora há um tom de fábula, surreal e não verdadeiro. Uma forma de nos mostrar que esta história é ficção, nada é real, mas ainda sim, está calcada da representação da realidade.  Estas construções envolvendo o cenário, lembram muito outras produções da Globo como “Hoje é dia de Maria”, Alto da Compadecida” ou “Afinal, o que desejam as mulheres”.

Mas se “Amorteamo” bebe de outras produções e isso fica claro em sua execução, o seriado possui suas particularidades e seu roteiro tem elementos de força e peso. 

Na trama vemos dois grupos de personagens sendo guiados pela morte. Em cada grupo há sentimentos de amor, desejo, traição e renegação. Se Malvina volta a vida para buscar Gabriel e não aceita ser abandonada novamente, Chico retorna para buscar seu amor, e cobrar a morte que teve nas mãos de Aragão. 

Mas não apenas isso, é na morte, que estes personagens construídos primeiramente pelo prisma do amor, são mostrados de forma mais realista. Neste sentido, nem toda perfeição é perfeita, nem todo amor, está moldado pelo amor.


A vida é um eterno retorno, vidas vem e vão, se mesclam, se moldam, se fragmentam, se chocam. Estruturadas em cinco episódios, toda trama é cuidadosamente elabora e construída. No elenco, os personagens revelam toda sua complexidade e ternura. Personagens marcados por um olhar mais negativo, são humanizado, porém positivamente. Personagens mais tonalizados pela ternura e amor, são também humanizados, só que negativamente.

Neste meio termo, outros personagens trafegam pelo seriado, dando comicidade, leveza e ternura ao drama que move esta trama. Fato este que ajuda, já que o drama em certos momentos, chega a ser intenso e forte.

“Amorteamo” é um excelente acerto, seja pela sua história, pelo seus quesitos técnicos ou pelo seu primoroso elenco. Há possibilidade para uma segunda temporada, nada certeza, mas não consigo ver uma continuação para esta história, se houver, bom, teria que ser algo muito bem estruturado e produzido.




quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

The Good Wife - Sexta Temporada

Pelo direito de recomeçar, pelo direito de viver

         

Em sua sexta temporada, The Good Wife tenta se manter. Se manter no ar, manter sua história, suas tramas e seus personagens, mas o que se percebe é que o fim está para chegar e um desfecho precisa ser dados às suas tramas. Entretanto, ainda sim, a série se mantém no que é o seu melhor, as reviravoltas.

O ano já começa em alta. Cayos é preso pelo FBI. O motivo ainda não sabe, mas seu nome está ligado a uma possível investigação envolvendo Lemond. No caso, ele teria ajudado Lemond a permitir um grande tráfico de drogas. Alicia entra em sua defesa e pede a ajuda de Daiane.

Neste momento, as relações de Daiane e Alicia tornam-se mais forte e próximas e a antiga chefe entra como associada na nova firma de advogacia. Nell convence a boa dona de casa, Alicia, a concorrer a uma vaga para a promotoria. Ela resolve aceitar para tentar a ajudar Cayros na investigação. Neste primeiro momento da temporada, temos então estas duas tramas envolvendo o seriado, a prisão de Cayros e a busca por votos de Alicia.



Estas tramas deram um impulso a série e provocaram fortes mudanças. Alicia como sempre esteve a frente do seriado com peso, ternura, frieza e serenidade. O interessante com este arco a envolvendo, foi que ela pode perceber como se dá os meandros da política. Todas as suas ações, gestos e falas passaram a serem controlados, pois eles seriam usados contra ela. Alicia então pode perceber o outro lado, o lado do seu esposo.

Já com Cayros, ele teve seu melhor momento e seu destaque no seriado. Lançado contra a parede, sentiu o medo da certeza de ser preso e ter sua carreira destruída. Se antes sempre se manteve sério e calculista, revelou sua fraqueza e sua humanidade. Esta revelação da humanidade torna-se interessante neste seriado, pois a série trabalha muito com personagens que calculam todos os seus movimentos. As vezes faltam a eles calor humano e mais fúria diante dos fatos.

Tanto a trama envolvendo Alicia quanto a envolvendo Cayros nos mostraram o quanto eles são humanos, fracos e carregados de medos. Quem brilhou também neste começo de série e que estava apagada há um bom tempo era a personagem Kalinda. Entrando numa abismo sem fim e se colocando em risco, ela ajudou Cayros a se libertar e pagou um alto preço por isso.

Após metade da temporada, estas tramas foram encerradas e novas surgiram. Alicia agora como Procuradora do Estado,  deixa a sociedade da firma de advogacia e se vê diante de negociações. Esta personagem sempre esteve a frente de suas ações e negociar nunca foi seu forte e nem será tão cedo. Neste sentindo, a impressão que se dá neste arco envolvendo a protagonista deste seriado é que criaram esta trama apenas para delongar o seriado. Um ponto interessante talvez tenha sido os debates dela com seu concorrente e ver sua postura frente aos lados obscuros da política.




Mas desde quando começou o seriado, a personagem de Alicia sempre esteve ligada aos tribunais, neste sentido, tornava-se estranho vê-la atuando dentro de um escritório. E isso não demora a acontecer e temos então uma nova virada na trama. O grande forte deste seriado são estas viradas e eles acontecem e não poupam seus personagens de situações constrangedoras ou trágicas. Alicia diante desta mudança drástica em sua vida, perde novamente o chão, a base e sua estrutura, o que fazer com sua vida?

Outra personagem que se destaca belamente é Kalinda. Por motivos desconhecidos, a atriz que a interpreta pediu sua saída do seriado, então para isso, os criadores desenvolveram toda a trama da sexta temporada para esta saída. 

As ações da personagem ainda no começo do sexto ano a colocaram numa situação delicada e para poder encerrar este arco deram a ela um desfecho que de certa forma, não foi brilhante, devido a capacidade que os roteiristas têm em construir histórias, mas ainda sim, foi condizente com o arco construído ao redor dela. 

The Good Wife termina seu sexto ano com menos personagens dentro de sua trama central, necessitando de novos rumos e colocando seus personagens em reviravoltas constantemente. Estes elementos num primeiro momento do seriado revela força, porém já passado seis anos, mostram um desgaste.



Em outros elementos o seriado ainda continua com grandes destaque. Os atores estao otimos, Juliane Marguile como Alicia ainda continua exuberante, intensa e forte. Cristina como Daiane ainda tem em sua atuação um misto de dramaticidade e comicidade. Sua postura é forte, sua presença marca, ao mesmo tempo que gera bons momentos engraçados para a série. Suas discussões com XX, um republicano revelam este lado engraçado dos Estados Unidos, duas posturas totalmente distintas sobre os mais diversos temas, mas que precisam conviver juntos e encontrar uma harmonia entre si.

A trilha sonora dita as regras, estabelece conexões e movimenta o seriado. As tramas que estão relacionadas com os casos isolados ainda são ótimas, talvez um ponto negativo é que elas foram deixados um pouco de lado para que as tramas principais do seriado pudessem prevalecer.

No mais, “The Good Wife” caminha para o seu sétimo ano em busca de novos dramas, novos arcos, novos motivos e novas situações, mas penso eu que o fim deve chegar. E este fim já torna-se necessário nesta que mostrou ser uma das grandes séries da atualidade.



       

domingo, 29 de novembro de 2015

A Lula e a Baleia: na busca por aceitação



O outro nos toca, nos move, nos transforma

Na busca por aceitação, na busca por reconhecimento, nos projetamos sobre outros, negamos o que somos, mas ao final, percebemos que todo este caminho de negação revela-se desnecessário. Quando isso acontece, o que fazer diante dessa verdade?

“A lula e a baleia”, drama independe, trafega por este caminho, entre o desejo de aceitação e a busca pelos seus próprios caminhos.

Joan Berkman (Laura Linney) e Bernard Berkman (Jeffe Daniels) são casados há anos, mas o casamento jã não está naquele clima. Ela sempre se manteve distante da literatura, apenas cuidando dos filhos, da casa, da família e trabalhando como professora. Ele atua como professor numa universidade. Há anos lançou uma obra que foi bem recebida pela crítica, após esse fato, não conseguiu emplacar mais nenhum livro.

Bernard é arrogante, acha que o mundo se separa entre filisteus e não-filisteus, ou seja, aqueles que na opinião dele, tem bom gosto por cinema, literatura e música e os que não têm. Já Joan é mais atenciosa, compreensiva, sentimental e silenciosa.

O casal tem dois filhos, Walt Berkman (Jesse Eisenberg), o mais velho, muito parecido com o pai, mais seguro de si, frio e indiferente. Recita livros que não leu, comenta de músicas que nunca ouviu, canta canções que nunca compôs. Tenta a todo custo e momento transparecer uma identidade que se assemelha a do seu pai. Frank (Owen Kline) é o caçula e mais ligado a mãe e como ela, frágil, sentimental, carente, que transparece ser mais fraco.

Quando Joan lança uma obra literária que é ovacionada pela crítica, a relação entre ela e seu marido chega a um ponto que não tem mais volta e então o divórcio entra como único caminho. Walt e Frank fazem suas escolhas, o mais velho deseja ficar com o pai e Frank com a mãe.

Neste meio tempo, Joan se envolve com um novo homem e tem seu passado conjugal escancarado pelo marido numa tentativa dele de denegrir a imagem dela. Bernard se envolve com uma estudante, mas sem nunca confirmar tal relacionamento. Esta separação provoca nestes dois jovens uma confusão de sentimentos e pensamentos. O que pensar, o que desejar, quem está certo ou quem está errado?




“A lula e a baleia” faz uma abordagem sobre relações, relações que dão certo, relações que dão errado. Relações marcadas por amor, marcadas pelo abandono. A impressão que temos é que o diretor nos coloca diante deste casal, sem saber o que de fato os uniu ou os separou e vemos suas relações, suas vidas, suas dores e dúvidas. E diante do que vemos, vamos oras nos apegando a certos personagens, ora nos distanciando.

Com o desenvolvimento do drama, percebemos a arrogância do esposo, a sensibilidade e as dúvidas de Joan, a raiva sendo moldada por Walt e a falta de estrutura no pequeno Frank. Entretanto, o longa também nos remete a algo mais delicado, algo mais emblemático. Todo o drama se argumenta sobre Walt e talvez por conta disso, haja sobre ele uma relação de abandono e admiração. 

É em sua relação com mãe que se estabelece e se molda a alegoria da lula e a baleia. Sempre ele fora o preferido dela, após o nascimento de Frank ele perde o seu posto e então, para tentar ter a atenção de sua mãe novamente, molda suas atitudes, seus gostos e seu modo de ser com o do seu pai. Porém quando vem a noticia da separação, ele percebe que toda inspiração que tomou para si não é válida e ele se perde nessa caminhada. Ora, o exemplo que sempre tivera para si mostrou-se ser frágil e errado, então, quem se tornar diante de toda essa verdade. Walt perde o chão, a estrutura e toda sua base.

É interessante de se perceber como o drama vai construindo esta relação. Num primeiro momento temos a relação de Joan e Bernard ao centro. Neste começo do drama, vemos as atitudes arrogantes dele, tentando a todo custo desvalorizar o trabalho de sua esposa. Neste ponto, vemos um homem preso a sua vida, a uma vida que não ama, que não deseja e que não lhe faz se sentir bem e que por conta disso, tem como único ponto de defesa, subjugar a todos para que assim e somente assim, consiga se sentir bem.




Já Joan revela-se o oposto, mais madura, consciente e compreensiva. Entretanto, nem ela está livre dos pecados, dos defeitos. Ela é também é imperfeita e aos poucos vemos uma mulher marcada pela tristeza que buscou nas traições um fuga para sua vida. Quem está certo? Quem está errado? Não há como saber, não há como julgar, só tentar compreender.

Após algum tempo, os filhos que ganham presença na história. Walt não aceita a separação e condena sua mãe, Frank para se rebelar contra o pai, aceita a mãe e toda sua imperfeição. Se num primeiro momento desta análise dos filhos, o diretor nos dá a entender que o objetivo do longa é abordar estes dois garotos, é  Walt quem guia a trama em seus minutos finais. Vemos um adolescente na busca por um referencial, por alguém que possa se espelhar. Sua mãe o “abandonara”, seu pai se mostrara falho em vários aspectos. Aos poucos, vemos que muito do caráter que nos foi mostrado durante todo filme sobre Walt é de fato falso e isso se materializa por meio da canção que ele canta num festival. A canção não lhe pertence, mas ele a canta como se fosse o verdadeiro compositor dela. Porque ele faz isso? Nem ele sabe responder.

A trama segue e prossegue. Não há um desfecho de fato, não uma saída para os seus personagens. A trama segue, a vida segue e tudo caminha. Um caminho marcado pela dor, marcado pelo abandono, marcado pelo passado e este filme vai fechando a janela que nos permite ver essa família, sem ao menos conseguir vislumbrarmos uma saída para estas vidas tão perdidas nesta vida.

Com um belo roteiro, moldado por personagens tão carismáticos e imperfeitos, nos apegamos a esta história, a estas vidas. Nada é perfeito neste drama e por ser tão imperfeito, torna-se tão comovente. A trilha guia os passos, os cantos, as cenas e os olhares. O roteiro trabalha com temas delicados como traições, perdão, amores, caráter sem nunca cair num moralismo, sem nunca se tornar chato.


Em seu primeiro trabalho para o cinema, Noah Baumbach mostra domínio na direção, beleza no roteiro e sensibilidade na construção de seus personagens. Um filme tocante que recebeu ótimas críticas pelos festivais em que passou, mostrando como um cinema pequeno, bem feito, sem ter uma grande história por traz pode nos arrebatar de forma única. Assim é o cinema, nos conquista, pois nos mostra a vida em sua mais bela simplicidade.