domingo, 7 de abril de 2013

360º: a vida em ciclo perfeito


Vidas que se cruzam, caminhos que se entrelaçam. Pessoas que se encontram e se reencontram numa grande ciranda de personagens, personanges estes em busca de uma redenção ou de um novo começo. Assim é 360º, novo longa do diretor brasileiro Fernando Meirelles.

Mirkha (Lucia Siposová) é uma prostituta que deseja entrar no mercado de garotas de programa de luxo. Seu primeiro cliente é um executivo inglês, Michael (Jude Law), que veio à Viena para fechar um negócio. Ele é casado com Rose (Rachel Weisz), que mora em Londres com a pequena filha. Ela mantém um caso com o fotógrafo brasileiro Rui (Juliano Cazarré) que por sua vez mora com a namorada, Laura (Maria Flor).

Laura ao saber da traição do namorado, parte de volta para o Brasil, mas no meio do caminho encontra duas pessoas, um senhor (Anthony Hopinks) que está a procura da filha desaparecida e Tyler (Ben Foster), um ex-presidiário preso por crimes sexuais.

Ainda percorrendo estas tramas, temos Sergei (Vladimir Vdovichenkov), um russo que trabalha como guarda-costa para um mafioso, que por sua vez, pede para que ele contrate os serviços de uma garota de programa, que no caso será Mirkha. Ele por acidente irá conhecer Anna (Gabriela Marcinkova) a irmã desta garota de programa.

Assim é 360º, uma trama em que personagens se cruzam, se ligam e se chocam. Pessoas que se conhecem e estão interligadas a outras, que por sua vez estão conectadas a outros personagens, fechando assim um ciclo. Uma escolha que fazemos pode mudar a rotina não apenas nossa, mas a de inúmeras outras pessoas que nos cercam ou não.

Composto por um grande quebra-cabeças, "360º" se num começo causa dificuldades em compreender sua ideia principal, conforme os minutos vão passando, percebemos suas ligações e compreedemos seus personagens. Dor, redenção, traição, culpa e receios cercam essas vidas. Homens e mulheres movidos pelo desejo, pela ambição, pelo amor e pela vontade de recomeçar.

É o ato de trair que fere, que faz com que a pessoa que está traindo se sinta culpada. Não é objetivo entender como se deu tal ato, mas sentir e tentar entender as consequências destas escolhas. Se tal fato não tivesse acontecido, tal pessoa não iria cruzar o caminho de outra, que não faria com que ela percebesse tal verdade, que não seria dito a outra personagem e que não faria por sua vez outra escolha. Complicado, assim também é a vida, ou seja, uma escolha está ligada a outras que promovem um efeito dominó imcompreensível. 

"360º" começa de forma fria, talvez aí que resida seu pecado, pois quando o longa começa a dar sinais de vida, de calor humano entre as histórias, já estamos chegando ao seu fim. Alguns arcos não dão muito certo, outros se destacam e outros nos roubam a atenção. A trama envolvendo os personagens de Jude Law e Raquel Weisz, ao meu ver é a mais fraca. Tudo é muito falso e frio, não nos apegamos às dúvidas ou dores destes, tudo fica meio perdido, sem motivo. 

Já com Laura, a situação muda de lado. Maria Flor imprimi suavidade e delicadeza à sua personagem. Movida pela dor, ela parte e nessa fuga contracena um dos melhores momentos do filme. Sua relação com o personagem de Anthony Hopinks é cativante e terna. Assim como com Ben Foster, há toda uma tensão que se percebe nos olhares, nas falas e nos gestos. Foster, apesar de ter um pequeno papel, ainda sim se destaca. Seu personagem é forte e intenso, movido pelo desejo e pelo medo assim como a pequena participação, mas vigorante de Anthony Hopinks. Outro arco que se destaca e move toda força do filme em seus minutos finais é a que envolve Mirkha, Anna e Sergei. 

O que se percebe é que há sim muitos personagens e isso faz com que o diretor se perca no peso que cada trama terá no decorrer da história. Cada arco funciona unicamente. Há ligações entre eles. Mas buscar essas conecções só fará com que se perceba as falhas no filme, agora se ver cada trama por si só, se perceberá dramas e dramas. Alguns dão certo, outros nem tanto. 

O longa tem um clima moderno, frio e gélido. O inverno está sempre presente, as cores quentes quase não aparecem, a trilha é suave e nada pesada. O roteiro é bom, se num começo ele demora pra decolar, com os momentos finais, toma folêgo. Talvez o único problema tenha sido ter dado mais destaque a personagens que nao tiveram grandes empatias, como é o caso de Law e Raquel. Apesar de serem eles os atores com mais peso no filme, as melhores cenas ficaram com o restante do elenco. 

360º é um grande mosaico de vidas que se completam. Todos estamos ligados de uma forma e nossas escolhas nos mostram isso. Um ato, uma fala, pode desencadear acontecimentos que jamais teremos total compreensão em sua totalidade. Assim é a vida, assim é esse drama.  

Finais Felizes

 


Num drama envolvendo três tramas paralelas que ora se encontram, orla se distâciam, comédia dramática trabalha com questões morais, sobre o que é certo e errado, num tom agridoce e simpático. 

Mamie (Lisa Kudrow) quando adolescente, engravidou do seu meio-irmao Charlie (Steve Coogan). Os pais queriam que ela abortasse, mas ela continuou e ao dar a luz, entregou a criança para a adoção. Passado vinte anos, Nicky (Jesse Bradford), um rapaz que diz saber sobre onde está essa criança tenta convencê-la a reencontrar esse filho, mas com uma condição: filmar esse episódio. 

Nick deseja entrar para uma faculdade de cinema, mas precisa de um  bom material pra conseguir isso e ele nao é bom nessa área e muito menos criativo. Mamie nao concorda, mas propôe que ele faça um outro documentário envolvendo Javier (Bobby Canavale), seu namorado atual. A idéida dela é que Nick grave o namorado, Javier, realizando um "serviço completo" de massagem. Javier, querendo ajudar Mamie, concorda. 

Numa outra linha temos Charlie, agora gay assumido, convivendo com seu namorado Gil (David Sutcliffe). Os dois tem uma união estável, mas Charlie está desconfiado que seu namorado seja o pai do filho de um casal de amigas suas. Pra isso, ele então comeca a criar situações irreais para saber essa verdade. Porém, vai acabar se ferindo nessa busca. 

E finalizando esse mosaico de personagens, temos ainda Otis Mckee (Jason Ritter). Ele é rico, tem uma banda e é gay, mas seu pai, Frank (Tom Arnold), não sabe ainda disso e ele pensa que ninguem desconfia de sua orientação sexual. Se aproveitando disso, Jude (Maggie Gyllenhaal), a nova vocalista da banda, dá em cima dele e depois no pai do rapaz. Chantageando Otis sobre sua sexualidade, vai tentar se dar bem na vida. 

É nessa mistura de personagens que estas três tramas serão construídas e desenvolvidas. Mamie é a personagem que guiará todo o elenco. Comédia e drama caminham lado a lado para dar o tom certo a esse filme. As vezes dá certo, as vezes não, mas em todo o momento, uma linha se sobressai a outra, promovendo uma maior torcida e desejo por continuar a história e saber como seus personagens irão continuar na trama.

Em Mamie, o tom cômico prevalece. Ela ajudando Nick na edição do documentário é a melhor parte. Nick é um jovem que não sabe o que quer da vida, mas que vê em Mamie um porto seguro. E ela quer apenas conhecer essa criança que deixou no passado. Na sinopse, a primeria impressão que se tem é que ela é uma mulher manipulativa, mas não, pelo contrário, é mais fácil ela ser manipulada. 

Em Charlie, a busca dele compreender a verdade sobre o filho de suas amigas é guiado pelo lado engraçado, mas ao final, quando um segredo é revelado, o drama ganha espaço e temos um melhor aproveitamento de deus personagens. Nesse núcleo temos uma Laura Dern quase imperceptível, mas muito comovente. Sua expressão de ternura e de uma mulher meiga sede espaço a um olhar mais duro e forte num piscar de olhos. 

Com Otis, o destaque é Maggie, ela sinceramente é uma excelente atriz. Sua rizada irônica, seu olhar de deboche, sua expressão de arrependimento e medo por não saber direito o que está fazendo são incríveis. Dentro de todo o elenco, ela se destaca, além de ter uma voz linda. Outro destaque para esse filme é a trilha sonora, muito bem produzida. 

Um lado engraçado da trama são as explicações que surgem ao lado da tela, no começo e fim do longa. Esses textos nos dizem sobre os personagens, seus receios, sobre fatos que aconteceram e sobre o que vai acontecer. É um bom recurso, mas que se deve tomar cuidado, pois se não bem utilizado, pode apenas confundir a quem vê o longa e é isso o que acontece aqui. Em alguns momentos dá certo, só que em outros, não sei, faz com que perdamos o encanto pelo personagem. Antes mesmo do vínculo entre personagens começar, já sabemos como irá acabar, isso perde a mágia e o desejo de querer acompanhar a trama. 

Mentiras, é sobre mentiras que todos os personagens dessa história vão se sustentar. Mentiras grandes e pequenas, inocentes ou sérias. Escondemos o que sentimentos, o que fazemos ou o que somos. Mentimos sobre nós e sobre o nosso passado, seja por medo, por receio ou apenas com o desejo de querer recomeçar em nossas vidas. É um filho que foi deixado para tráz, uma traição, um fato do presente, sobre o que realmente desejamos em nossas vidas. Porque mentimos? É algo complicado. 

"Finais felizes" chega ao fim com essa proposta, mas nem todos terminam assim de fato. Jogando com questões sobre o que é certo e errado, o diretor nos mostra que enganar e mentir, tendo essa consciência, é errado e que que mais cedo ou mais tarde, teremos sobre os nossos ombros, o peso dessas escolhas. Basicamente, o mundo dá voltas e ao final, nada do que realmente aparenta ser, permanece para sempre.
Um filme bem simples, bem independente, que trabalha com casais que parecem ser felizes, mas que na verdade, escondem muita infelicidade ou traições. Na busca dessa felicidade, erramos, falhamos e mentimos, mas ainda sim, tentamos acertar. 

  

domingo, 3 de março de 2013

O Lado Bom da Vida

 

Bradley Cooper e Jennifer Lawrence brilham e se destacam nessa comédia sobre a vida, o amor e sobre como a loucura pode ser tão normal quanto pensávamos.
 
Cooper é Pat, ele perdeu o emprego, a casa, a esposa, a imagem e sua sanidade. Enfim, tudo o que tinha se foi. Em total estado de depressão e desconsolo, fica internato num sanatório por oito meses. Ao sair, com a permissão da justiça que sua mãe conseguiu, sem o consentimento do seu marido, pai de Pat, ele retorna ao lar.

Mas nada está normal em sua vida, ele deseja a todo custo voltar para a esposa, mesmo que ela tenha o traído com um professor do colégio. Esse passado nunca fica muito claro a nós, a única certeza que temos é que ele sofreu muito com essa traição, porém, ele a ama tanto que é capaz de perdoá-la.
 
Em sua vida, surge inesperadamente Tiffany (Jennifer Lawrence). Ela também não é nada normal. Após perder o esposo num trágico acidente, ela se lançou em numa séries de confusões que nem sua família consegue suportá-la mais. Ela é estourada, espontânea, divertida, engraçada e não poupa palavras.

Os dois se combinam, sejam em seus sofrimentos, ou em suas loucuras. E é nessa relação baseada na loucura que ambos tentarão se restabelecer novamente nessa vida. Seja ele, revendo seus medos e desejos, seja ela, redescobrindo uma paixão mais pura pela vida.




“O lado bom da vida” é uma comédia divertida, hilária, simplesmente sensacional. Com direção de David O. Russel, diretor experiente dos bons e intensos filmes como “O vencedor” e “Três Reis”, a comédia aposta num bom roteiro, num elenco formidável e numa direção mais do que segura, consistente e instigante para conquistar o público e nos contar uma história sobre a vida, sobre como amar pode nos ferir e nos roubar todos os alicerces da vida, mas como o amor pode nos curar e nos fazer perceber como a vida pode ser deliciosa, apesar de todos os seus “poréns”. 
 
Um ponto interessante no longa é como a normalidade é tratada. Todos tem algo que os deixam fora do convencional, seja a paixão louca de Ted pelos esportes e como ele acha que os sinais podem mudar o rumo dos jogos do seu time, ou Marck, o melhor amigo de Pat que não consegue se impor em seu casamento.
 
Na verdade, o que é ser normal? O que é a normalidade? Pat e Tiffany são apenas pessoas que sofreram com a vida e buscaram uma forma de se defenderem diante de tanto sofrimento, é nessa busca dos dois de se estabelecerem novamente que está o lado cativante desse longa. A química entre os atores é deliciosa, o ritmo do longa é agradável, tudo é natural e nada forçado. 

Comédia e drama caminham lado a lado, num filme que mostra o melhor do cinema independente norte-americano. Sendo indicado aos principais prêmios da Academia, o filme fez bonito no cinema. Um longa simples, nada grande, mas que sabe contar muito bem uma história. Inteligente, profundo e hilário. 

 

A delicadeza do amor


“A delicadeza do amor” é leve, suave e singelo. É um drama, um romance, uma comédia. Um filme que não pesa a mão no seu lado dramático e consegue ter leveza quando se enquadra no gênero comédia. 

Nathalie (Audrey Tautou) é jovem, conseguiu um bom emprego e acaba de ser pedida em casamento. Ela está feliz e se sente realizada. Nesse primeiro momento, conhecemos apenas ela. O longa começa como se ela acabasse de conhecer François (Pio Marmaï), seu namorado. Eles estão juntos já faz um bom tempo. Se amam, se sentem bem juntos e se completam. Apesar do filme focar nela com outro homem, essa relação dela com seu primeiro namorado é mostrada para que possamos compreender sua dor, sua insegurança e suas atitudes. O diretor quer que nos apeguemos a ela, tentar entender sua angústia, seu sorriso e sua busca. 

Na vida, nada dura para sempre e esse romance termina mesmo antes de começar de verdade. François falece e Nathalie cai num profundo período de dor e luto. Anos se passam e ainda sim ela não se interessa por mais nada, seus olhos demonstram um intenso vazio. 



Num certo dia, Markus (François Damiens), funcionário da empresa, entra na sala de Nathalie para pedir explicações sobre um projeto dela. Por um impulso, ela o beija. Esse beijo que do nada acontece, desperta nele uma série de dúvidas, pensamentos e sentimentos. A partir desse momento, conhecemos melhor um pouco sobre esse personagem. 

Marckus não é lindo, não é elegante, não é daqueles que inspira desejos ou desperta a atenção de todos numa noite. Um cara bem normal, reservado e que ninguém percebe. Ele é doce, engraçado e possui um sorriso sincero. Apesar destas qualidades, ele não se sente o melhor homem do mundo ou atraente. Sente e sabe que todos o olham com desprezo, mas se cala diante desse fato. 

Após o beijo, ele fica meio perdido, não sabendo o que sente ou que fazer. Ao vê-la de novo, é ele quem toma a iniciativa e a beija inesperadamente e ela quem fica constrangida. Então surge um convite para jantar, para um teatro, para conversar e almoçar juntos e aos poucos, vai nascendo entre eles um sentimento verdadeiro de respeito, ternura e amor. 

Conforme todos vão tendo conhecimento sobre os dois, rumores envolvendo preconceito e desprezo sobre eles vão ganhando força. Ele passa a ser notado. Nesse momento, o filme coloca em debate a questão da beleza e como ela é dita regras em nossa sociedade e como não ser “belo” pode fazer com que alguns sejam invisíveis.  


É com calma e muita tranqüilidade e naturalidade que estes dois vão se envolvendo, se apaixonando um pelo outro. “A delicadeza do amor” trabalha constantemente nesse ritmo. Se num começo nos apegamos a Nathalie e François, com a morte deste, também sentimos a dor da perda dela e compartilhamos do seu vazio. Da mesma forma também, quando Nathalie se sente cúmplice de Marckus, sentimos o mesmo e ficamos naquele desejo de saber como os dois terminaram juntos essa trama. 

Guiando um filme que não chega a ser intenso, porém respeitando o tema da morte, como ele deve ser respeitado, “A delicadeza do amor” flerta com a dor, suavizando-a e não negando seu espaço dentro dessa história. 

Um ponto interessante a invocar são as referencias à Bergman, grande autor que teve como tema em seus filmes a questão da morte, ora a revelando diretamente, ora indiretamente. Em "A delicadeza do amor", seja pelo quadro da parede mostrando o pôster do filme “Gritos e Sussurros” ou prela presença forte da cor vermelha sobre o longa, o diretor, nesse drama, tenta dessa forma nos mostrar como a morte está presente e não presente na vida de Nathalie. 

O fim está ali, perto de nós, perto dos seus personagens, porém tem que se percebê-lo, notá-lo. A dor dessa personagem nunca deixará de existir, esse vazio deixado pelo François estará sempre lá. Por mais que não venhamos comentar sobre a morte, ela se faz presente em nossas vidas e assim ela se faz presente na vida de Nathalie. Assim é a morte também em nossas vidas. Mesmo diante dos momentos leves, hilários, esse fim está presente, nos tocando indiretamente. 

Algumas coisas apenas se sentem, assim é a morte, assim é á vida. Assim é o amor. 


quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

As Vantagens de ser Invisível



"Nós somos o infinito"


Sensível e terno, esse drama adolescente trabalha com delicadeza, graciosidade e ternura essa fase tão intensa de nossas vidas. Um trabalho impecável, uma trilha soberba, um elenco compente, enfim, um belo filme. 

Charlie (Logan Lerman) é um jovem tímido e reservado. Calouro no colégio, não possui amigos, o único que tinha se matou. Possui certos problemas que aos poucos vão nos sendo revelado, problemas esses envolvendo seu passado e sua tia Hellen. Seus pais tentam ajudá-lo, percebem que ele sofreu muito com a perda dela e fazem o máximo que podem, mas nem Charile compreende o que sente.

No novo colégio tudo é difícil, por ser calouro e por ser tímido. Numa atitude espontânea passa a conversar com Patrick (Ezra Miller), um veterano da sala dele. A partir dele, ele conhece também sua meia-irmã, Sam (Emma Watoson). Patrick é mais solto, desinibido e hilário. Sempre provocado por todos do colégio, tenta não levar nada a sério. Sam, sua irmã, também já sofreu um bocado e está sempre errando. Nesse círculo de amizades ainda há mais tres adoslescentes que ora estão presentes, ora estão apenas lá. Começa aí uma pura e verdadeira amizade que terá que enfrentar com o passar dos dias todas as dificuldades que são comuns da idade dele, a descoberta da dor, da desilusão, das frustações e tudo mais que nos cerca. 


"As vantagens de ser invisível" aborda com leveza temas sérios e fortes. O final é a prova disso, um tema espinhoso, complexo e emblemático. Somente nos minutos finais que conseguimos compreender toda dor de Charlie. Além dele enfrentar esse passado que surge na vida dele de forma contínua em seu presente, há os problemas convencionais. 

Seu professor, Mr. Anderson (Paul Rudd) tenta ajudá-lo o máximo que pode, mas na vida, infelizmente a dor está presente. Outro personagem de destaque na trama é Patrick devido a sua sexualidade. A dificil aceitação de quem realmente seja, as dificuldades de uma possível relação e saber que talvez não pode ter quem realmente queira por conta do medo, receio e não compreensão do que eles querem ou sentem de verdade, provocam nesse personagem uma mudança intensa. De um rapaz hilário e despreocupado para alguém que sente o peso da vida e de suas escolhas. 

"Nõs temos o amor que achamos que merecemos ter", essa frase resume essas vidas, esses jovens, enfim, nossa vida. Com um roteiro extremamente belo e uma  ótima trilha sonora, o longa nos conquista. A trilha ganha um peso a parte, cada um deles tem uma canção em especial e Heroes é que a marca uma das cena mais belas e também o desfecho do drama. 




Tendo como cenário a década de 90, o filme ganha ainda mais qualidade. Está lá a máquina de escrever, o fascínio em mandar cartas, as músicas, a inocência, e até um certa pureza. Essa pureza está materializada na vida de Charlie. Ele não consegue compreender o que é errado, ou a maldade em alguns atos, simplesmente, ele não entende. Essa inocência vai se perdendo a medida que ele percebe a dor, porém o desejo pela vida e a amizade em seu grupo de amigos também se intensificam


O elenco está incrível e Emma Watson se destaca em sua personagem, assim como Lerman. Rudd faz uma ponta, mas que emociona. A direção é ótima, competente e segura. Há momentos engraçados e divertidos, mas nada constrangedor, tipicos de comédia envolvendo esse público. O sexo está ali também, mas nada indelicado ou pervertido, tudo é tratado com respeito e ternura. 
 
"Nos somos infinitos", essa é sensação que estes três jovens tem com relação a vida, com relação ao laço que os mantém e que o filme consegue nos transmitir. A cena do carro num túnel poderia simbolizar a vida como um todo, uma grande e imensa estrada, em que corremos, loucamente, apressadamente, alguns conseguindo sentir o prazer de estar vivos, outros, apenas correndo em direção a alguma alvo em específico, mas todos em busca de algo que os motiva correr, andar e caminhar. 


sábado, 2 de fevereiro de 2013

As aventuras de Pi



As aventuras de Pi é mágico e irreal, meche com nossa imaginação e nos ousa a acreditar no que parece ser impossível. Duas vertentes caminham sempre lado a lado nesse drama: a fé e a razão. De um lado está a fé que nos move, nos faz acreditar no impossível, do outro a razão, que nos mantém, nos segura e nos faz mais serenos enquanto à vida.

Pi é um garoto de dúvidas, suas incerteza o guia por caminhos complexos. Foi dessa forma que conheceu a Deus de diversas formas e por várias correntes. Essa parte é interessante, pois percebemos como é a fé desse pequeno garoto. Seu desejo é conhecer a Deus, simplesmente a Deus e por conta disso se lança nos cristianismo, no islamismo, no budismo e por aí vai.

Seu pai não aprova a postura do filho, a considera fraca e frágil. Quando não se sabe o quer da vida, não consegue chegar a lugar algum. Mas Pi chega e sofre, chora e sente a dor da perda, da vida e é essa busca pela fé que o mantém vivo, que o move.

Quando seu pai afirma que toda família irá deixar a Índia para começar uma nova vida no Canadá, Pi não aceita, mas acata a decisão. Seu pai tem um zoológico e resolve levar consigo todos os animais, a idéia é vendê-los e começar de novo. Mas durante a viagem, o cargueiro em que estão entra numa forte tempestade e afunda. Pi é o único sobrevivente. Toda sua família se perde, e ele fica perdido nesse mundo num lugar desconhecido do Oceano Pacífico. Ele se descobre meio sozinho nesse mundo, já que junto dele estão apenas uma zebra, um orangotango, uma hiena e um tigre de bengala chamado Richard Parker.


Ainda nos primeiros momentos, Pi presencia o pior, a hiena mata a zebra, que já está fraca e o orangotango. Isso o machuca e o fere, faz com que ele perceba a vida de uma forma mais violenta. Mas se isso o marca, a presença do tigre junto dele o ainda deixa mais preocupado e atento.

É sobre essa convivência nada natural que o drama vai explorar. Pi precisa ficar atento a cada instante, pois sabe que esse tigre, apesar de ter um nome e ter sido cuidado por ele, é uma fera e seus instintos falarão mais alto quando o momento pedir.

É com um drama intenso e cheio de belas imagens que Ang Lee realiza um belo trabalho mesclando realidade e ilusão, sonhos e verdades. Tudo caminha lado a lado e quanto a nós, espectadores, jamais percebemos essas diferenças. 

Pi é a representaçao da busca, da procura. A busca em compreender Deus, a vida e tudo mais que o cerca fará com que ele tenha um propósito maior nessa vida: se manter vivo. O tigre representa esse lado selvagem e incontrolável que está em todos nós. Se num começo ele tenta domar, com o passar dos dias percebe que é somente treinando esse animal que ele conquistará a sua confiança. 




As imagens são belas, Lee capta com toda intensidade e beleza esse mundo tão isolado e selvagem da vida. Esse drama é ousado, pois durante boa parte de sua hisória se fixa nesse barco salva-vidas e na relação de Pi com o animal, nos mais, temos um começo em que conhecemos toda a vida de Pi e as vezes somos quebrados pela história para voltarmos ao presente, em que ele já adulto, relata toda o drama vivido por ele quando adolescente ao escritor.

A trama toda é posta sob metáforas, imagens que são e muitas vezes não são. Nesse sentido, esse filme se aproxima um pouco de outra grande obra do cinema, "O labirinto do Fauno", em que duas formas de se ver uma trama caminham juntas e que cabe ao espectador a escolha em que acreditar. Ao final é nos dado uma outra versão para todos os acontecimentos, uma versão mais ácida e dolorosa sobre tudo, ela também faz sentido, mas fica a dúvida: e tudo que vimos então, não foi real? O que de fato aconteceu? Pi responde: depende do que você prefere acreditar. 

Um filme cativante, com uma bela trilha sonora e imagens que nos conquistam e nos prendem. Um drama sobre a dor e sobre crescer. Sobre a vida e como a vemos ou a sentimos.


sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

O Doce Amanhã




Fale suavemente, olhe para cima, e atire menos, com mais cuidado. 
Cante mais docemente e olhe um pouco mais e logo você vai estar lá. 
Aqui, tudo o que temos é o céu. Como o céu tão azul, como o azul, mais um colorido, mais um colorido.

Um advogado chega à uma pequena cidade no interior do Canadá. Sua intenção é convencer a todos a processarem a empresa responsável pelos ônibus escolares exigindo uma indenização. No caso, um acidente provocou a morte de mais de vinte crianças, todos os pequenos da cidade morreram e o luto se abateu sobre toda essa comunidade. Mitchell Stephens (Ian Holm),o advogado, também possui seus próprios traumas, ele perdeu sua filha para as drogas. 

"O doce Amanhã" é um filme calmo, lento, instrospectivo e singelo, um drama em que somente com o passar dos minutos, vamos compreendendo toda a dor de seus personagens. 

O longa aborda três histórias, sendo vividas em tempo distintos, mas isso só percebemos com o decorrer dos minutos. Há uma trama nos apresentando a cidade e seus moradores antes do acidente. Cores vivas, um sol quente, sorriso por todas os lados e crianças brincando, a felicidade está na simplicidade dos pequenos atos e os moradores da cidade se sentem assim. Nesse meio, conhecemos cada família que será de grande importância para a trama e também, com o denserolar dos acontecimentos, vamos conhecendo também as imperfeições desta cidade, aquele lado que todos queremos esconder, mas que ainda sim, existem em nós: nossos pecados. Temas como traição e incesto são abordados de forma muito leve e quase natural.


Vemos também um outro tempo, a cidade após o acidente de ônibus. Após esse trágico acontecimento, todos morrem em vida, todos parecem mortos, pálidos, frios, distantes e amargurados. O frio do inverno ganha presença, nem o calor da lareira consegue esquentar essas pessoas. Nesse momento é que entra a fígura de Stephens. Ele representa toda dor que quer ser expurgada, ser esquecida. Ele incita, provoca, manipula e direciona os sentimentos. Ele deseja com que todos da cidade tenham um responsável a quem culpar, a quem direcionar sua raiva, mas nessa vida, náo há culpados, nem responsáveis ou  vítimas, há simplesmente a vida. 

Uma terceira trama caminha juntamente com todos os acontecimentos da cidade.  Stephens também tem seus traumas. Sua filha se perdeu no mundo das drogas e ao seus olhos, ela já está morta. Ele não consegue mais encara-lá, busca-lá ou acreditar que esteja bem ou viva. A morte é a solução para ele. Assim como os moradores desta cidade, ele quer também encontrar um culpado. Quando sua filha era pequena, ela ficou entre a vida e a morte, mas ele a salvou, a tirou daquilo que poderia causar sua morte, mas agora não. Quem é o culpado por esse fato? Por esse destino? Nesse momento, vemos um homem com suas limitações e dores. 

Essas três tramas correm paralelamente e se intercalando constantemente. Metáforas, são com elas que o diretor irá trabalhar toda o longa. É o carro numa lava-rápidos que tem todo o seu exterior lavado por águas e seu interior ainda sim intocado. É o frio que congela a alma e que nenhum calor é capaz de fazer vencer esse inverno, a madeira envelhecida pela ação do tempo e a mais bela de toda as comparações. 

Um flautista deseja se vingar de uma cidade devido aos moradores desta terem agido  com desprezo para com ele, então ele resolve, com sua flauta mágica, levar embora todas as crianças da cidade para um outro mundo, um local onde jamais seus pais poderão vê-las. Um lugar de vida, encanto e cores fortes. E assim é feito, só que uma destas crianças não consegue ser levada. Ela tem um "defeito", um "pecado", é manca e por causa dessa "incapacidade", ela não consegue acompanhar as outras e fica presa a este mundo. Essa garota é representada por Nicole (Sarah Polley) e assim como a criança da história, ela também é marcada pelo pecado e pela impureza, no caso, sua inoncência lhe foi arrancada. 


"Um doce amanhã", drama do diretor Atom Egoyan, é um filme soberbo. Trabalhando com temas fortes como a morte, traições, incesto e a mais pura dor, ele não se rende às lágrimas fáceis e entrega uma película cheia de nuances, detalhes e metáforas e em que a dor e angústia estão presente em cada semblante, em cada gesto e olhar dos moradores desta cidade. Um filme em que a ferida é tocada da forma mais peversa possível. 

A todo momento, o drama nos dá a entender que algo irá acontecer, que toda dor será vivida ferozmente, mas não. Ao final, a angústia permanece, mas a vida continua. Dois personagens não se rendem aos argumentos de Stephens. Nessa vida não há culpados e também nesse acidente não teve. Quem poderia ser culpado por tal fato, a motorista, o prefeito da cidade ou o dono da empresa de ônibus? Com fortes conotações cristãs em seu interior, o filme aborda o pecado, o castigo e o perdão. 

A trilha sonora é excelente. O instrumental soberbo, a canção que inicia o longa cantada por Sarah Polley é doce e pura. A todo o momento, essa canção e esse instrumental tentam dar leveza a tanto peso, a tanta dor e tentam amenizar a algo que é pesado. 

A direção não deixa a nenhum momento o filme cair no melodrama e nem a provocar lágriamas desnecessárias. O roteiro, tratando de divertos temas, mas sem dar destaque a nenhum deles, deixa o longa ainda mais interessante. 

O único ponto a abordar aqui nessa trama é a dor, simplesmente a dor, a angústia de viver, de morrer e de continuar a se manter vivo.