domingo, 20 de março de 2011

Sossego

Nas paredes escuras brotam um silêncio. Um silêncio que traz paz, mansidão. Nas águas da chuva que caem sobre o solo negro, calmo e tranqüilo traz um som terno, cúmplice, suave e doce.
Nos lugares há um vazio. Um vazio que preenche. Soa irônico, contraditório. Mas fecho os olhos e me sinto vivo, cheio, completo. Meus pensamentos trafegam por entre outros inúmeros pensamentos. Trabalhar, estudar. Tantas outras coisas a mais para fazer. Planejar, planejar e planejar. Seguir sem percurso.
De repente, toda a sensação de paz dá lugar a um som perturbador, errado. Errado por quebrar esse sossego e destoar os pensamentos. O som do rádio passa a ecoar eu o noto novamente. Se antes ouvia apenas o som por traz do silêncio, agora volto os meus ouvidos a esse aparelho. A melodia é tranqüila. A letra, bom, eu não compreendo, pois está em outra língua. Mas é algo gostoso, mexe com as emoções. Talvez uma canção de auto-ajuda, talvez não.
O som irritante vem novamente. Há inúmeras sensações, pensamentos, sentimentos que pode-se simplesmente perceber ou sentir. A luz fraca, o jogo de sombras fortes detalham e expressam uma madrugada calma, sossegada, chuvosa e penetrante. Sem vozes, sem palavras. 

Minta para mim

Minta para mim, que as coisas ficarão bem ao fim de tudo, que todas as lágrimas serão compensadas. Que todas as dores vividas serão gotas num oceano de felicidades, que a morte não é melhor que a vida.

Minta para mim, que em meio a tanta raiva há algum sentimento por pouco que seja de compaixão e confiança. Que a solidariedade é vivida e praticada por todos. Que todos somos iguais e vivemos o pleno direito dessa igualdade e da vida. Que não há injustiça nesse mundo, que não há preconceito e que todos podem viver em liberdade. Que não há desgraça nessa Terra ou atos que nos mostram como somo monstros e selvagens. Que nos comovemos com que esta ao nosso lado.

Minta para mim, que ser forte é saber reconhecer o erro e que estes não pisam ou eliminam os mais fracos, que as madrugadas não dormidas devido ao trabalho não serão cobradas mais adiante. Que o passado encontra-se bem no fundo de nossas histórias e que jamais essas lembranças serão retiradas de lá. Minta para mim, que a dor nos fortalece, nos ensina e nos torna mais sábios e maduros.

Como um barco em meio a uma tempestade com um céu cinzento e fortes águas batendo sobre este, mas mesmo diante disso, ele não será derrubado. Que passarei pelo vale da sombra da morte e sairei intocável e mais forte do que nunca. Que a felicidade é alcançável e não apenas uma palavra. Que a morte é apenas um fim e que não devemos temê-la.

Minta para mim, que é melhor a verdade do que a ilusão, a razão do que a mentira e a certeza do que a dúvida, pois a verdade é dolorosa, é nua e crua. Mal qual é a diferença? Isso já não tem importância. Para que a viver sob o prisma da verdade se a ilusão é melhor e nos conforta. 

Buscando novos sons

Não sou muito ligado a música, sou mais imagens, entretanto, desde quando produzi meu tcc lançando grande destaque para a trilha sonora, resolvi perceber esse detalhe nos filmes e buscar alguns abuns somente com faixas em Score, produzidas especialmente para algum longa ou série, feitas para acompanhar as imagens, cenas e afins.

Nessa busca descobri ótimos trabalhos, segue uma lista abaixo:

Em busca da terra do nunca, com várias faixas, alguma delas são bem chatas, mas não há como negar que três delas ou até quatro são praticamente perfeitas, sendo que esse álbum levou o Oscar de melhor trilha sonora. Esse álbum merece, a música que abre o cd é incrível, a ouvindo, somos convidados a saborear de uma melodia que muda seus ares constantemente, ora é alegre, ora triste, se bem que ela me faz recordar o longa Edward, mãos de tesoura, isso no meio da melodia. Outra faixa também muito bem trabalha, com uma melodia e ritmo lento, terno que toca em nossos sentidos é a "This is Neverland", próxima do final, essa canção contrabalança uma das cenas mais tocantes do filme, talvez por isso, eu a ache a mais bonita de todas.

Ensaio sobre cegueira, composta todas pelo grupo brasileiro Uakti, esse álbum é umas das surpreas que tive ao escutá-lo. "Drama 3" e "Minimal 8", que abrem o Cd são soberbas, elas começam de forma lenta e ganham peso, agressividade, chegando a um apice com grande presença. elas também ilustram as cenas mais fortes deste filme e nesse caso, essas músicas tem um peso a mais, pois elas tinham que amenizar algumas imagens/cenas do filme que eram bem fortes, pesadas, porém, as ouvindo a parte, essas melodias por si só já prendem nossa atenção. Um trabalho genial e inspirador desse grupo. Se bem que uma dessas faixas lembra outro trabalho de trilha sonora da qual eu gosto muito e tenho como o meu preferido que é As horas.

As horas, com todas as faixas compostas por Philip Glass é um trabalho impecável. "The Poet Acts", "Morning Passages" e "Escape" são as melhores do CD. O ritmo, o tempo, os instrumentos, não sei, mexe bastante com as sensações e mostra como as músicas podem nos envolver, nos comover e no influenciar em todos os nosso sentidos, até os mais profundos. O toque do teclado que muda cosntantemente o tom durante a execução, é algo belo, trágico, causa anciedade e agonia, é como se algo estivesse para acontencer, mais depois, ele ameniza, com leves sons e acelera o peso do ritmo novamente, incrível.

Por fim, cito Angel, o caça vampiros. O Cd é bem interessante, a primeria faixa tem a música de abertura, que ao meu ver é a melhor. "Home" é ótima também, bem curta, porém muito profunda. "Darla's Sacrifice" tem um tempo acima de toda do CD, mas convenhamos, ela precisa e merece esse tempo. Dor, alegria, tristeza, são os sentimentos provocados e "Princess Cordelia" é outra que leva o destaque.

Um blog que contém um material bem bacana com vários albuns é o http://trilhadomedo.blogspot.com/

quarta-feira, 16 de março de 2011

Conte comigo


Com belas atuações, longa retrata de forma convincente a vida em suas interrogações, os elos que ligam uma família e como é difícil tomarmos a decisão correta em nossas ações.
Bom, a primeira vez que assisti a esse filme, foi numa madrugada no SBT. Acordei, numa daquelas noites em que o sono nunca bate a porta, então liguei a televisão. Fico impressionado em ver quantos filmes bons passam nesse horário. Já cheguei a assistir até Kensey – vamos falar de sexo e As horas, mas isso não vem ao caso. Voltando ao filme, como já estava quase no fim, apenas ficou gravado o nome do longa, o elenco e o belo desfecho da história. No outro dia, comecei a buscar informações desse filme, até que consegui encontrá-lo em uma locadora do centro da minha cidade que vendeu o DVD, a locadora no caso, ia fechar. Filmes independentes são bons, porém são difíceis de conseguir, até mesmo na net.


Dirigido por Kenneth Lonergan com Laura Linney, Marck Ruffalo e Matthew Broderick no elenco, Conte Comigo conta a história de dois irmãos Sammy (Linney) e Terry (Ruffalo) que quando crianças perdem seus pais em um fatal acidente de carro, após crescerem cada um segue caminhos diferentes. Enquanto Terry resolve sair da cidade e construir a vida em qualquer outro lugar, até mesmo no Alaska, Sammy permanece em sua casa, em sua cidade. Ela engravida, cria seu filho sem ajuda do pai e leva uma vida tranqüila, trabalha em um banco, tem um relacionamento sério com Bob (Jon Tenney), mas tudo muda até receber o recado do irmão que por motivos que não quer revelar resolve voltar para casa.


O longa mostra essa história de forma muito gostosa. A trilha é envolvente, não é marcante, mas também não decepciona, entra no momento certo e sai na hora exata. A direção é boa, mas o que mais chama a atenção para esse filme são seus personagens. Terry é um cara que já errou muito na vida e continua errando, imaturo, rebelde, age sem pensar e apenas pelos sentimentos, até o filho de Sammy é mais responsável que ele. Leva o garoto para jogar sinuca no bar sem o consentimento de Sammy, que é a mãe, esquece de pegá-lo no colégio num dia de forte chuva, o incentiva a conhece seu pai. Essas ações fazem com que esses dois irmãos se desentendam.
Já Sammy é mais razão, por ser tão responsável, acaba em muitos momentos se sentido sufocada. Mas algumas coisas mudam com a chegada de um novo gerente no banco em que trabalha, pois o que começa com inúmeras brigas, torna-se num caso apenas envolvendo sexo, que a deixa ainda mais perdida em sua vida. Zelando pela proteção do seu filho, vendo seu irmão causar um inferno em sua vida e na do garoto e por fim tendo um caso com o chefe, faz com que ela simplesmente se desmorone, não conseguindo achar a solução para todos esses problemas. O que resolver primeiro, como, mas porque não continuar assim? Pensa ela. Mas apesar de todos esses problemas, ela se sente bem ao lado do seu irmão e o mesmo sente ele. 

Um filme que fala sobre família, não de forma dramatizada, mas leve. O que é bacana no longa e que o diretor deixa bem claro são os seus personagens e a forma como estes encaram os problemas que aparecem na vida. Nada é resolvido facilmente, nenhum drama surge do nada, tudo é gradual e vai se tornando numa bola de neve aos poucos. Um drama que não tem pretensões, mas que em sua simplicidade acaba sendo favorecido.
Foi indicado ao Oscar de melhor roteiro original e melhor atriz para Laura Linney. Duas indicações merecidas, pois o roteiro é inteligente e a atuação dela é simplesmente encantadora. Sem nenhum Oscar no currículo, mas com várias indicações, Linney mostra que é uma atriz competente, sem precisar se lançar em grandes produções. Seus trabalhos se focam em produções independentes, seus personagens são como este: fortes, complexos e intrigantes. Um filme simples, porém belo.  

As horas


Poucos foram os filmes que souberam trabalhar tão bem com a dor e o silêncio quanto esse “As horas”. Poucos foram os filmes que souberam retratar de forma tão bela e marcante sentimentos tão abstratos como esse longa de direção de Stephen Daldry, baseado na obra de Michael Cunningham.
Em três períodos diferentes vivem três mulheres ligadas ao livro "Mrs. Dalloway". Em 1923 vive Virginia Woolf (Nicole Kidman), autora do livro, que enfrenta uma crise de depressão e idéias de suicídio. Em 1949 vive Laura Brown (Julianne Moore), uma dona de casa grávida que mora em Los Angeles, planeja uma festa de aniversário para o marido e não consegue parar de ler a obra. Nos dias atuais vive Clarissa Vaughn (Meryl Streep), uma editora de livros que vive em Nova York e está prestes a dar uma festa para Richard (Ed Harris), escritor que fora seu amante no passado e hoje está com AIDS e morrendo.


O que guia essas mulheres é a dor. A dor de viver, de sentir, de ser. Separadas pelo tempo, unidas por uma obra que consegue transmitir toda a angústia existente em suas vidas. Com uma bela trilha sonora, inspiradora, densa e suave somos transportados ao universo destas três mulheres: uma escritora, uma dona de casa e uma editora.
As ligações que existem entre elas não estão apenas no livro, mas em algo mais que somente será revelado ao final do longa. Mas de inicio elas não compartilham apenas a obra, mas também as nuances de suas vidas. Todas vivem de máscaras, se escondem em seus cotidianos e tentam superar a dor que as consome. Cada uma, de alguma forma, tentará lutar contra esse mal, seja desistindo da vida, fugindo ou a enfrentando. Todas farão uma escolha, pois a cada minuto que passa, o tempo que as consome vão jogando sobre elas um julgo cada vez mais insuportável.


Virginia vive sob o medo de decair mais uma vez numa crise depressiva sem fim. As vozes que escuta ficam mais fortes e claras. A razão que tem sobre a vida fica a cada dia mais limitada. Sua postura, seu olhar e suas expressões denotam uma vida perdida num vasto horizonte. Mas a chegada da sua irmã trará um pouco de clareza seguido por grandes sombras. 
Laura tenta organizar uma festa para o seu marido. Grávida novamente e com um filho pequeno super ligado a ela, esconde um remorso em seus olhos. Seu marido, sua vida, família e casa lhe causam repulsa. Em sua face há raiva por não conseguir se livrar daquela situação. Uma das cenas mais marcantes com essa personagem é ela numa cama e as águas lhe submergem tomando-lhe a vida. Algo precisa ser feito.


Clarissa é uma editora moderna e respeitada, possui uma filha que aos seus olhos é muito independente e uma companheira. Tenta preparar um jantar para um antigo amigo, Richard que ainda nutri fortes sentimentos por ela. A chegada de um amigo do passado mais a preparação desse jantar fará com que ela sinta um vulcão de sentimentos e dúvidas a respeito de tudo em sua vida. Como ela descreve em certa cena do filme, como uma sensação em que você perde o controle de tudo e é lançado sobre a parede pelas circunstâncias da vida. Todas essas relações serão finalizadas e mescladas num fim trágico e belo.  



O trabalho técnico exercido sobre esse filme é extremamente ótimo. A trilha sonora é densa e segue cada passo dos personagens, ela é assinada pelo compositor, muito famoso no meio, Philip Glass. As cores que predominam nas roupas das personagens, a fotografia, os gestos e expressões são de uma riqueza e metáforas incríveis. A atuação das três protagonistas é bárbara. Um Oscar merecido para Nicole Kidman, uma indicação que sem a menor sombra de dúvidas merecia levar o premio para melhor atriz coadjuvante para Julianne Moore e um elenco de apoio de estrelas como Claire Danes, Toni Collete, Ed Harris e Jeff Daniels tornam esse filme uma jóia do cinema norte-americano. 
Um filme para ser percebido e sentido. Suas riquezas estão nos detalhes, nas nuances que só são compreendidas ao ver esse drama novamente. A dor está presente em nossas vidas de diversas formas, até mesmo nas decisões que tomamos, das que fugimos ou na que devemos encarar.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Paris. te amo


Em cada esquina, uma história de amor para contar. Porém, nem muitas possuem finais felizes, um certo sentimento trágico de dor e amargura estão nelas. Entretanto, ainda são sensíveis, ternas e românticas e todas estão interligadas por ruas, avenidas, praças e uma cidade que é marcada historicamente por seus belos romances à sombra da cidade luz, também chamada de Paris. Essa é a ideia por traz desse filme.

Paris, te amo, é um longa que faz parte de um projeto desenvolvido  que tem como interesse juntar um números de renomados diretores para que eles possam expressar seus sentimentos, por meio das imagens e de suas histórias, a uma certa e especifica cidade. No caso, a ideia é trabalhar com as quatro maiores cidades do mundo: Paris, New Yorck, Rio de Janeiro e Tokio. Nessas histórias, sejam românticas ou não, o interesse é mostrar como esses diretores veem essas cidades e como elas são materializadas por eles. Nesse primeira empreitada temos Paris, a terra dos amores. Com várias pequenas histórias, somos apresentados a diversos personagens que vivem por essa cidade. São pessoas comuns, interessantes, vagas, cheias de vida ou marcadas pela dor, porém que vivem seus sentimentos.



Na direção, nomes fortes como Isabel Coixet, os irmãos Coen, Gus Van Sant, Walter Salles, Alfonso Cuarón e outros. No elenco, mais nomes de peso como Natalie Portman, Juliette Binoche, Eliijah Wood, Maggie Gyllenhaal, dentre tantos outros nomes, conhecidos ou não. Nas histórias, as mais diversas.

Um longa que possui em sua estrutura pequenos curtas pode ser um faca de dois gumes, da mesma forma que ele pode conter belas histórias, também pode ter péssimos argumentos e é isso o que acontece a esse filme. Outro detalhe que trava o longa é que são muitas pequenas histórias e com pouco tempo de duração, isso faz com que algumas sejam trabalhadas adequadamente, outras nem tanto e outros ainda, graça a Deus por terem terminado, por serem insuportáveis. Mas no geral, um belo trabalho.



Não há como detalhar uma sinopse de fato. Há o homem que no seu carro percebe que é um pouco solitário e não entende por qual motivo, ainda é novo, tem um bom emprego e um bom carro. Olhando pela janela do carro, ele vê as pessoas passarem, sempre todas juntas, com seus amores e amigos, mas uma mulher que passa por ele tem um leve mal estar, ele a socorre, coloca em seu carro e conversa com ela. Há outra em que três jovens estão tentando dar em cima das mais diversas garotas, um jovem observa um garota tropeçar e cair, ele a ajuda, ela segue a religião do islamismo. Os dois conversam e se despedem, ele fica intrigado por ela e vai atrás dela. E assim segue o filme.

Algumas são realmente muita belas, outras engraçadas, outras ainda são ternas, profundas e tocantes, mas o mais bacana é que em todas podemos perceber detalhes do diretor, é como se cada história carregasse junto de si a marca do diretor, por exemplo, em Walter há a questão social, em Gus van Sant a reladão de dois jovens beirando o homossexualismo, as do irmão Coen um certo tom violento e sinistro, de Isabel Coixot profunda e amarga.



As que merecem atenção é as da Gus Van Sant em que percebe uma dificuldade na comunicação, devido a questão da língua, a da Isabel por ser uma bela história sobre um homem que vai abandonar sua esposa, porém descobre que ela está com câncer em fase terminal, por esse motivo, passa os últimos dias com ela, a que abre o filme e por fim a que encerra o longa, em que conhecemos uma mulher por volta dos seus 40 anos e está visitando Paris. Ela é meio solitária, só tem a presença em sua vida dos seus dois cães, e por meio de uma descrição de sua viagem pela cidade, vamos conhecendo sua vida e seus anseios. Esse curta é o mais belo, tocante profundo e sem sombra de dúvidas, o que mais consegue exprimir o que é essa cidade.

Porém, nem tudo é beleza nesse filme, há alguns curtas que são realmente muito chatos, o mais absurdo é que envolve a alta madrugada de Paris e uma vampira que se apaixona perdidamente por um jovem. Não sei da onde tiraram essa história, mas tudo bem, valeu pelo clima gótico e sombrio de uma Paris durante a madrugada e o que envolve umas garotas orientais, sem comentários.






O segundo filme desse projeto consegue retirar os problemas destes, como obter uma maior junção entre as histórias, menos curtas, porém mais longos. Apesar dessas falhas, esse Paris consegue cumprir a missão, retratar de forma poética, sensível e terna essa cidade tão intrigante e isso das formas mais diversas possíveis, vários olhares sobre uma mesma paisagem. 

Onde Vivem os Monstros


Sensível, profundo, simplesmente belo
“Onde vivem os monstros”, novo longa do diretor Spike Jonze é uma bela obra da sétima arte. Sem se apegar a uma história ou roteiro que tenha uma ação constante, detonando de forma clara um enredo sem o começo, meio e fim e sem a presença de um vilão, longa apenas mostra as aventuras de um garoto fechado e solitário num mundo criado em sua imaginação. Um deserto, uma floresta, monstros, cachorros, seres grandes de aspecto feio, porém sensíveis, dotados dos mais puros sentimentos. Esse é o seu mundo.
Max possui uma família não muito perfeita. Sua irmã não liga para ele. Não tem um exemplo de pai perto dele e sua mãe (Catherine Keener) para manter a casa trabalha constantemente. Ele não tem amigos, sendo assim os cria. Seu quarto é o seu refúgio, é lá que ele cria sua muralha, seu esconderijo. Um garoto comum com uma imaginação fértil. Após ver a mãe com outro homem, possivelmente o namorado (Mark Ruffalo), Max tem uma briga com ela e acaba fugindo, partindo para uma floresta que dá acesso a um grande e vasto mar e ao fim deste se depara com um mundo desconhecido com diversos monstros. Nesse mundo, Max consegue convencer essas criaturas de que ele é um rei e devem coroá-lo. Após isso o que vemos é um garoto tendo as mais loucas aventuras envolta do desejo de criar um grande refúgio.  



Nesse mundo todos os monstros são dotados de um único sentimento em particular, uma característica que compõe a personalidade de Max, sendo assim, a junção de todos é ele. Carol (James Gandolfini) o mais impulsivo de todos é que o mais se assemelha a ele e é a esse que Max mais se apega. Judith (Catherine O'Hara) é a mais estressada, Alexander (Paul Dano) é o mais fechado e medroso e assim por diante.
Com uma trilha sonora bem produzida e gostosa, agradável e envolvente, somos levados a esse mundo e experimentar todos os sentimentos de Max, tanto nos momentos leves como nos mais tensos. A fotografia é bela, com excelentes paisagens desde um vasto deserto até uma floresta bem iluminada. Fazendo uso de pessoas que vestiram literalmente uma fantasia e sendo assim utilizando pouca tecnologia nestes, o longa ficou muito mais real e próximo de nós. A escolha do elenco para dublar os monstros foi muito bem colocada, caindo como luva cada ator em seu personagem. A direção é segura e livre. Ao começo do filme a câmera é solta e os cortes são muito bem utilizados. A interação entre os atores é muito boa.



Enfim, uma história simples, porém muito bem trabalhada. Nos identificamos com Max, pois afinal quem já não imaginou quando criança um mundo mágico e que nós fossemos o rei ou os mais fortes e poderosos. Seu mundo é o seu refúgio, mas também um lugar de aprendizado, pois cada escolha feita por Max terá sérias complicações. A escolha por um monstro, a aceitação de outro, ciúmes, inveja, raiva são sentimentos que percorreram cada instante da vida de Max nesse mundo e isso será uma lição que irá aprender sobre sentimentos. Compreender, aceitar, conviver. Ser criança não é fácil, porém mais difícil ainda é crescer. Deixar esse mundo encantado e voltar para casa, para a realidade e enfrentá-la com todas as suas imperfeições.


Algumas curiosidades sobre o filme, Catherine Keener além de atuar participou no filme também como preparadora de elenco. As filmagens do filme começaram em 2005. O filme que teve um orçamento de 80 milhões de dólares não se pagou, tendo uma bilheteria fraca também no Brasil. A história é baseada na obra de Maurice Sendak, o livro no caso tem pouco texto e é recheado de ilustrações e como o filme teve uma recepção fria na época de seu lançamento.
Onde vivem os monstros é um belo filme cheio de imaginação e poesia. Um filme para ser sentido e não apenas compreendido.