sexta-feira, 15 de abril de 2011

Ensaio sobre Cegueira

Quem tem olhos veja e quem pode ver, que enxergue

Uma história forte, densa, cheia de detalhes, nunces, metáforas, mensagens e pensamentos. Um filme para ser sentido e percebido, onde vemos o pior do homem, mas também o seu melhor. Baseado na obra de José Saramago, esse filme obteve opiniões ao extremos, alguns os consideraram vulgar, violento e distante, outros viram nessa obra um grande filme, perturbador sim, mas nunca distante. Uma análise do homem em seus medos e devaneios.

O argumento em si é simples, um homem (Yusuke Iseya) fica cego enquanto dirige o carro, um homem (Don McKellar) o ajuda, o leva para casa, porém rouba o seu carro. A esposa (Yoshino Kimura) desse cego ao chegar em casa e ficar sabendo do fato, o leva para um especialista. No consultório estão uma jovem de óculos escuros (Alice Braga), um velho (Danny Glover) com uma fenda no olho e um garoto. O médico (Marck Ruffalo) atende primeiramente o cego, mas fica surpreso com o caso. Passa algumas orientações e o dispensa. O oftalmo ao chegar em casa, comenta o caso com a esposa (Julianne Moore), ao acordar percebe que também está cego. A partir desse fato, uma cegueira branca repentina ataca a todos, primeiro os que estavam com o primeiro cego: o médico, a jovem de óculos escuros, o ladrão, o garoto e o senhor, depois, todos os outros com quem eles tiveram contanto. Todos são levados em quarentena, mas a única a poder ver tudo o que está acontecendo é a mulher do médico. Nesse local, eles ficam e permanecem, porém a situação começa a se complicar quando mais pessoas são enviadas para o local. Com o passar dos dias, o que se vê é o homem em suas condições mais primitivas.



O longa apesar de ter um enredo curto, possui muita profundidade. A ideia do filme não é entender o que é essa cegueira, caracterizada como uma superfície leitosa, ou sua cura, mas como as pessoas, por meio dessa falta de visão, perdem toda a sua estrutura, toda sua base de civilização, se rendendo ao seu lado mais primitivo, em que apenas tentam se manter vivas. Por meio dessa história, o pior do homem é revelado, visto, suportado, pois muitos crimes são cometidos durante a quarentena, mas alguns tentam manter o pouco de dignidade, humanidade e moralidade que lhe restam e a única a poder ver tal situação em que todos se encontram é a mulher do médico. Ela é o nossos olhos, é por meio dela que podemos ver, sentir e perceber as fraquezas e limitações humanas.


Na obra, são levantados vários pontos para tentar entender o motivo dessa cegueira, mas no longa, a questão não fica sobre esse critério, o que o diretor quer é mostrar, apenas observar o grau de humanidade que pode ou não restar de todos diante de tal fato. Porém, uma das ideias colocadas no longa, no começo e ao final do filme, para essa epidemia está ligada a não compreensão das coisas, basicamente seria como se estivéssemos vendo tudo a nossa frente, porém não pudéssemos compreender o que estamos vendo ou, no fato de simplesmente deixarmos de vermos por um desejo, porque não queremos mais ver ou reconhecer tanta dor e desprezo, essa explicação estaria ligada a cena da igreja e dos santos.

Mas não importa, o longa tem toda uma estrutura técnica muito bem pensada para supervalorizar cada sentimento, fala e situação no longa. A fotografia esbranquiçada, a ótima trilha sonora, o elenco mais do que perfeito, a direção competente de Meirelles.



A fotografia imprimi mais personalidade ao longa, sempre clara, chegando a ficar quase que difícil a leitura das legendas (isso no cinema), ela é mais do que um acessório ou um detalhe para embelezar o longa, ela interage com o drama de tal forma que torna-se num personagem de extrema importância à história. Em falar nisso, muitas das cenas do filme foram gravadas em São Paulo, pois o drama é um trabalho realizado em parceria com os países Brasil, Japão, Uruguai e Canada e todas as cenas foram gravadas entre esses países.

 A trilha sonora assinada pelo grupo Uakti é outro ponto positivo, ela dá sensibilidade a algumas cenas e ameniza outras. Algumas melodias lembram muito as do filme As horas, do compositor Philip Glass, é um ritmo gostoso, agradável, que causa tensão e ansiedade. Muito boa para se ouvir e ser levado por essa melodia.

Julianne Moore liderando o elenco está formidável, uma atriz de excelente qualidade. Sua face de cansaço, sua expressão e seus olhos vendo tudo e todos se desmoronando e ela nada podendo fazer para ajudar, além de tentar dar o mínimo de ajuda possível que aos pouco a leva a um cansaço sem fim, desejando e temendo cegar também, enfim, uma atuação e um trabalho da atriz impecável.

Mark Ruffalo consegue nesse papel mostrar maturidade e profundidade. Um ator que faz umas escolhas interessantes, ao mesmo tempo em que obtém papéis densos e bons em filmes seguros como Minha vida sem mim, Zodíaco, Conte comigo, Tentação e tantos outros, trabalha em filmes rasos como De repente 30, Voando alto, Dizem por aí, mas tudo bem, num geral, é um excelente ator que neste filme, consegue obter um agradável resultado. Alice Braga é outra atriz muito competente que aparece no longa, uma brasileira que vem tendo bons trabalhos no cinema internacional e em projetos bem diferentes.



Outro ponto que chama a atenção para esse filme é que seus personagens não possuem nomes, apenas são descritos pelas suas características principais (cego, médico, esposa do médico) e não é dito em qual cidade essa epidemia acontece. Isso faz com o longa crie diversas teorias sobre isso, como a questão de que eles não tem nada que lhes faça ser importante, nem um nome, pois diante dessa terrível cegueira, todos são iguais, sem nomes, etnia, ou identidades e também o fato de que esse evento possa ter acontecido em qualquer lugar, pois no final, todos podemos passar pelas mesmas experiências e pelas mesmas fraquezas sem distinção de cor, raça ou passado.

Mas ao final de todo esse trabalho, o que prevale ainda é o longa e como ele aborda as relações humanas, as nossas fraquezas, limitações e medos. Como podemos ser ásperos, rudes e nos despir de toda a dignidade para podermos prevalecer e mantermos vivos, mas também como podemos nos sensibilizar com o outro, seja por meio de um gesto ou de atitudes.

Muitos alegaram que esse longa abordou a obra de forma muito gélida, mas não há como negar calor humano nas cenas em que todos estão ouvindo o rádio e compartilhando daquele momento ou como a personagem da jovem de óculos escuros toma para si a responsabilidade de cuidar do garoto que se vê sozinho sem o amparo da mãe, dando até da sua própria comida para ele ou na cena em que a mulher do primeiro cego se encontra com ele.

Um longa terno, entretanto, que não foi bem recebido como uma obra cheia de qualidade como deveria ser, porém, em meio a tantos questionamentos sobre a qualidade do drama, o próprio autor do livro, Saramago que por muitos anos relutou fortemente contra a qualquer adaptação de suas obras para o cinema, na opinião de que elas poderiam perverter e modificar a ideia da história, chorou ao ver o filme. Bom, se o drama teve aprovação do autor da história, é porque esse filme cumpriu o seu papel: transferir em imagens as palavras deste que é um grande livro.



sábado, 9 de abril de 2011

O leitor


 
Uma obra inquietante, um livro que nos leva a tentar entender os motivos que levaram uma geração a cometer uma das maiores atrocidades da História. A Segunda Guerra acabou, porém suas feridas ainda continuam, o passado sempre está presente em nossas vidas, seja para nos alertar de nosso erros, ou para tentarmos entendê-lo.
 
O Nazismo e o Holocausto foram fatos que provocaram várias mortes, sofrimento, dor e perdas. A própria Guerra em si foi algo que marcou muito. Vidas que se perderam, planos e sonhos que morreram, possibilidades que se desfragmentaram. Passados décadas após esse acontecimento, surgem na literatura e no cinema, algumas obras que tentam resgatar esse período, não para narrar uma história que já conhecemos, impregnados de reflexão sobre a vida, por meio de um romance, mas dramas que, sem tentar julgar, colocam os acontecimentos diante dos nossos olhos para que possamos repensá-lo e se é possível isso, encontrar algumas respostas. O leitor, do autor Bernhard Schilck é um desses exemplos.

A história é divida em três partes, na primeira conhecemos Michael, um garoto com saude frágil, que vive numa Alemanha em Guerra. Num dia de chuva, ele passa mal e é acudido por uma mulher chamada Hanna. Uma mulher de expressão gélida, fria e distante. Ela o leva para casa e cuida dele até melhorar. Em seguida ele agradece e eles se despedem. Aquela mulher, apesar de não ser tão bela, o instiga a procurá-la novamente. Michael vai até a casa dela, mas não encontra. Quando ela chega, ela o vê,trocam umas palavras, entram em casa e transam. Ela tira a virgindade dele, e ele, passa a desejá-la ainda mais. A partir daí, eles começam um caso, em que praticamente todos os dias ele vai visitá-la. Durante esse relacionamento, em todas as visitas, a pedido dela, ele lê para ela livros sobre os mais diversos temas, de literatura a história. Há uma ligação entre eles, pelos menos, é que pensa esse Michael. Dias e semanas se passam e Hanna simplesmente desaparece, sem deixar recados, ou algo do gênero. O mundo dele desaba, mas sua vida continua. Anos mais tarde, quando ele já está na faculdade de direito, ele entra para um seminário sobre os crimes nazistas e vendo uma audiência no tribunal sobre mulheres que foram acusadas de participarem de crimes envolvendo os campos de concentração, Michael a reconhece dentre as acusadas.

Por entre esses acontecimentos, o autor nos guia pelos pensamentos deste jovem que recorda esse momento tão inocente, delicado e doloroso de sua vida. Devido a história ser contada por ele, nunca sabemos quais são os reais sentimentos e pensamentos de Hanna, porém nem dele entendemos corretamente. Há um misto de dor, raiva, amor e saudades percorrendo sua mente. Aos olhos dele fica a questão: como ele pôde amar alguém que cometeu tantos crimes como aquele, a mulher que ele desejava e amava na sua adolescência e que o marcou fortemente, fez tais atrocidades. São essas dúvidas simbolizadas por esse romance, por essa dor que faz com que seja posto diante de nós essa dúvida. O personagem de Michael representa uma juventude que cresceu vendo os horrores da Guerra e suas consequências durante o decorrer dos anos, mas ainda não conseguiu assimilar a ideia que seus familiares, seus pais, amigos, professores, simpatizaram com a ideia.

Durante todo o livro, na segunda parte dessa história, são jogadas à Hanna e aos alunos, questões simples, porém que no fundo são emblemáticas e que guardam respostas ainda mais complexas e que jamais teremos uma resposta tão cedo. Uma delas dita por um juiz a Hanna fica explicito isso. Ele a questiona o motivo dela não ter libertado as prisioneiras quando teve oportunidades, mas ela rebate o perguntando o que ele teria feito. Duas perguntas que em sua essência há toda uma carga de incompreensão. Julgar é fácil, entender é o difícil. O que se percebe nessa história, nesse julgamento, é que todos querem fechar os olhos para o passado, mas eles devem vê-lo, devem visitá-lo e culpar alguém por esse crimes. É mais fácil punir um grupo de mulheres por tais fatos, do que toda uma nação assumir essa culpa. Outro ponto interessante abordado pelo autor é com relação ao segredo que Hanna guarda. Essa informação já se percebe desde o começo do livro, mas aos olhos dela, ninguém deve saber, ou jamais ter a certeza disso. Para ela, é melhor ser culpada pelas mortes das quais está sendo acusada do que revelar esse segredo. Isso nos faz pensar que o orgulho a guia em todos os momentos de sua vida, orgulho esse que pode estar ligado a toda uma nação.

O livro possui belos momentos que nos faz repensar sobre esse acontecimento, sobre esse fato. Jamais o autor julga, porém em contraposição, coloca o leitor diante desses fatos para que ele possa por sua consciência chegar a uma conclusão, lembrando que a pergunta que fica e permanece em nossas mentes é: o que você teria feito?

O final dessa história é comovente. Dor e raiva caminham lado a lado, de mãos dadas, tentando nos sufocar. Mas o amor, a compaixão e a solidariedade também. O autor, de forma simples, sem exageros ou falta de sentimentalismo, nos entrega um romance profundo e soberbo, cheios de questões e quase nenhuma resposta. Uma bela análise, sem julgamentos precipitados sobre um momento da história ainda tão doloroso para ser revisitado

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Penelope: um conto de fadas moderno

Um filme bem bobo, mas que consegue ser bem cativante. O longa conta a história de Penélope (Cristina Ricci) que nasceu com um nariz de porco devido a uma maldição lançada sobre a família dela tempos atrás. Quando um dos seus parentes se engraçou pela filha da empregada, a engravidou e acabou casando com uma outra mulher que pertence ao seu nível social, fazendo com que a moça desiludida se matasse, sua mãe, por vingança, lançou um feitiço sobre toda a família, a primeira garota que nascesse teria um nariz de porco e essa maldição só seria quebrada quando um do meio deles a aceitasse. Penélope então nasceu e permaneceu enclausurada em sua casa por anos, com sua mãe, Jéssica (Catherine O'Hara), temendo que ela fosse descoberta e vista pela sociedade.

Ao completar 18 anos, começou uma busca incessante para encontrar alguém do meio social deles para aceitar casa com ela, quebrando assim a maldição, entretanto, todas as vezes que os rapazes a viam, saiam correndo desesperados, frustando as expectativas da mãe e arrasando a ingênua Penelope. Porém, quando Edward (Simon Woods) um destes jovens que foge dela, quer provar da existência da garota para não ser mais considerado como louco se junta a um jornalista e contratam Max (James McAvoy) um jovem jogador falido, pra tentar tirar uma foto da garota é que os rumos de Penélope mudam de vez.


O longa é uma fabula moderna, um conto de fadas pincelados com toques da realidade, pois há como pano de fundo uma Inglaterra e inúmeras famílias de nomes trafegando pelo filme, tetando manter a imagem, pois nesse mundo onde o nome vale mais do que qualquer palavra e a imprensa está rodeando a todos para conseguir a melhor foto e o melhor babado, ninguém quer ficar com o filme queimando. No mais o drama é bem simples, com lições de moral bem claras e nítidas como valorizar a pessoa pelo o que ela é e se aceitar por isso, a beleza exterior é apenas supérflua, pois o que vale é o interior delas e bla, bla, bla. Porém, o que me chamou a atenção para esse longa é o seu trabalho técnico que está impecável: a fotografia, o figurino e até algumas locações estão ótimas.

A fotografia do filme é composta por cores fortes e vivas e além do mais, há um predomínio da tonalidade vermelha sobre todas as cenas, seja por meio dos figurinos, das casas, dos objetos postos em cena e até o lençol e cortina do hospital são dessa cor e venhamos, não é todos os dias em que você fica internado num leito em que a cor é de um vermelho sangue vivo, agora por qual motivo o uso abusivo dessa tonalidade não entendi. O figurino de todos no longa é bem interessante, pois temos uma Penelope usando roupas meio “filme de época”, com sua mãe tendo todo um armário moderno e o mocinho com um estilo boêmio. Coloco em destaque o quarto da protagonista, ele é totalmente estiloso, com seus vermelhos intensos, cores quentes e uma árvore de mentirinha super da hora, aquele quarto deve ter da um trabalho para a equipe do longa.


Outro ponto bacana é o elenco, apesar do drama ser raso, ele se torna tão cativante devido a química de seus personagens e o entrosamento entre eles. Todos estão muito bem em seus papéis, seja Cristina mostrando firmeza pra levar um filme como protagonista, McAvoy como mocinho que no início age como um cafajeste ou Catherine como a mãe de Penelope em seus medos e crises de nervosismo temendo que todos venham ver sua filha com um grande nariz de porco, por sinal ela é a personagem mais hilária. Há também uma Resse Witherspoon que aparece ao final do longa como amiga da mocinha, muito engraçada, apesar da pouca fala e em falar nisso é Resse a produtora desse longa.

Algumas curiosidades sobre o filme: ele ficou parado por dois anos depois das gravações e trabalhos finais e o grande ponto interessante é que ele foi lançado depois que o McAvoy se consagrou com o longa O último Rei da Escócia e obteve sucesso internacional com o Desejo e reparação, fazendo com o que o longa tivesse mais nomes de peso durante o lançamento, bom, isso é apenas uma constatação.


No mais, Penelope é engraçado de se ver, tem um cunho correndo por fora bem agradável que é a ideia de abordar como as pessoas da mais alta sociedade temem sua exposição na mídia e como são vistos, eles realmente se importam com que todos pensam. Fora isso, esse longa entretém, é gracioso, tem um instrumental bem gostoso e uma música que corre ao final do longa muito bonita.

Enfim, gostei, não decepciona e nem desfavorece os contos de fadas que nos últimos anos tem sido relançado ao cinema com outros olhares ou observações distintas, nesse sentido temos uma Cinderela vivendo numa Inglaterra da Idade Média e um Chapeuzinho Vermelho com tons mais sombrios e provocante. Assim é a industria cinematográfica, quando se percebe que se contou todas as histórias, as recontam novamente com outros moldes, e para finalizar, esse filme é uma adaptação da obra de Marilyn Kaye. Esse filme vale a pena conferir.



Vida de solteiro

Um filme um pouco antigo, década de noventa, com uma história simples, porém muito gostosa e divertida. O longa retrata as andanças de um grupo de amigos na eterna busca de encontrar um alguém, um amor ou algo do gênero, mas nessa busca, há muita confusão, caminhos tortos e situações duvidosas.

Steve Dunne (Campbell Scott) conhece Linda (Kyra Sedgwik) num show, os dois conversam e ficam e aos poucos vão se apaixonando, mas os dois guardam sérias feridas de outros relacionamentos em que ambos foram enganados ou não tiveram suas intenções valorizadas, por esse motivo eles caminham pisando na direção certa e dando dois passos na errada. Dunne tem um grupo de amigos mais perdido do que ele, Janet (Bridget Fonda), sua melhor amiga nutre uma paixão e um namoro meio complicado com Cliff (Matt Dillon), um roqueiro que tenta emplacar com sua banda e por fim Debbie (Sheila Kelley) tenta a todos os custos encontrar alguém e para isso produz um vídeo mostrando todas as suas qualidades e desejos, isso de forma bem excitante.


O que todos esses jovens tentam é encontrar alguém e isso não é nada fácil. Dunne e Linda, apesar de se darem bem, não sabem como agir e sendo guiados pelos conselhos dos seus amigos, sempre pegam a direção errada e quando tudo parece que irá acabar bem, um fato seguido por uma tragédia mudam seus planos. Janet quer conquistar Cliff de todas as formas a ponto de ficar decidida a se submeter a uma cirurgia de implante de prótese, achando que com seus seios maiores, ele vai olhar para ela e lhe dar mais atenção, só que ele curte ela, porém num relacionamento aberto, sem cobranças. Seu único objetivo nesse momento é a banda e a música e Debbie,bom, ela com seus vídeos até que conseguirá um bom partido, mas não dará muito certo.

O longa tem em sua trilha sonora seu maior peso, pois ela retrata bem uma época marcada fortemente por bandas de rock que decolaram, tendo sido em sua grande maioria de Seatle, cidade em que se passa a história. Durante todo longa esse som está presente, seja nos shows ou como fundo de diversas cenas e é nesse ponto que reside o melhor desse longa, sendo que ele esse filme é mais lembrado pelas suas trilha do que pela história em si.

O drama tem também em certas partes do filme pequenas frases em forma de capítulos demonstrando o momento pelo qual seus personagens irão passar, ou os erros que irão cometer, uma sacada boa que deixa o drama bem leve. De profundo não tem nenhuma análise, apenas um longa para se entreter. No elenco estão grandes nomes que na época estavam com peso ou ainda iniciando uma carreira de sucesso, dentre eles Matt Dillon, Kyra Sedgwik e Bridget Fonda, mas de todos os personagens, a mais carismática é a Debbie. Ela, com seu cabelo ruivo, sua busca frenética em conseguir uma namorado é hilário.

No final, como sempre tem que haver um final feliz nessas comédias românticas, todos encontram seus amores, mas de uma forma simples, descomplicada, sem seguir conselhos nada saudáveis, ou apelando para vídeos ou próteses de silicones. É por meio de frases bobas como: saude, seus brincos são tão lindos e por que demorou tanto é que tudo se resolve, ou seja, o que era tão complicado, torna-se em algo tão simples.

O drama rodeia bem esse território, com leveza, graciosidade e muita comédia, sem ser escachada ou irritante. O longa conseguiu retratar excelentemente bem uma década, com suas roupas, cabelos, músicas e cafés, bem diferentes do estilo que predomina hoje. Um bom programa de cinema em casa. 

Por um sentido na vida


Uma comédia bem simples, mas de muito bom grado que ao meu ver conseguiu ter uma Jennifer Aniston no melhor papel até agora de sua carreira.

Aniston vive Justine, uma mulher que tem uma vida bem calma, tranquila e muita chata e além disso, sente que falta algo nessa calmaria toda, alguma coisa que não sabe ainda, mas que a faz sentir meio perdida, ela busca um sentido. Trabalha como caixa de um supermercado, é casada com um homem boa praça, bacana e que vive fumando maconha com o amigo. Sua rotina se resumi a ir trabalhar, voltar para casa, ver tv, ir algumas noites na igreja e pronto.

Nesse mercado, entra um novo funcionário, Holden (Jake Gyllenhaal) um jovem bem fechado, recluso que mora com os pais e adora escrever histórias trágicas e ficar recitando o livro O apanhador no campo de centeio. O comportamento dele e sua forma de ver o mundo a atrai, pois ela, assim como ele, estão cheios de suas pacatas e tranquilas vidas, eles querem fugir, correr sem direção, viver sem barreiras, esquecer tudo: família, casas, amigos e cair no mundo tentando algo. Essa atração no pensamento faz com que eles criem uma amizade que mais tarde se tornará num caso extraconjugal, mas com um detalhe, ela sempre pagando o motel.


É com esse roteiro simples, porém muito bem conduzido e um time de elenco formidável que faz valer esse longa. Para haver ordem na vida, primeiro necessita-se do caus, é sobre esse ponto que o longa vai focar. Até ela perceber o que tem e o que realmente quer da vida, ele passará por maus bocados, situações trágicas e um momento de decisão forte. O desfecho do longa consegue surpreender até certo ponto, não por parte da personagem dela, mas pelo do jovem, eu realmente não esperava aquilo.
É uma comédia com pitada de drama e beirando a questão existencial, bem ao estilo de filme independe norte-americano, mas que se saiu bem e acima de média pela presença de Aniston. Ela caminhando meio arrastada, a mão apoiada no queixo sempre pensativa quando está no trabalho com o olhar perdido e distante convenceu nesse papel, isso porque durante as gravações desse filme, ela tinha uma vida praticamente perfeita, aos olhos de muitas mulheres, claro: ganhando uma grana preta por episódio de Friends e casada com o ator Brad Pitt, mas como na vida nada dura para sempre, eis que perdeu o marido, a série e os alto salários e o mais chato, essa continua sendo sua atuação mais marcante e interessante.




O longa não vai além disso, aborda o tema felicidade de forma bem honesta, sem clichês ou sentimentalismo, nos dá uma impressão de que ainda as pequenas coisas são as que importam e como nós como sempre, estamos com nossos olhos fixados em grandes fatos ou acontecimentos. Por um sentido na vida é uma tentativa de tentar encontrar algo que nos dê razão, por mais simples que ela seja. Não teremos uma vida regada a prazeres, com todos os dias felizes, cheios de vida, mas pelo contrário, tranquilidade, um casamento ou família que com o tempo se mostrará sufocante, agonizante e frio, mas ainda sim, essa é a realidade e é por causa desse detalhe, o de mostrar esses personagens mergulhados nessa vida, sem enfeites ou ilusões é que o longa merece o seu destaque. 

Porque eu gosto

Gosto do luar e da noite, pois ela é mais terna e mais gostosa, o céu é estrelado e a lua mais cintilante, as paisagens são mais escuras e a verdade encoberta.

Gosto de sentar no chão, na terra, no gramado, e admirar o horizonte e imaginar inúmeras histórias e aventuras que um dia poderei viver. A noite já é agradável e os pensamentos fluem de uma forma tão simples. Do horizonte, do alto de um morro, vejo a cidade, vejo as luzes das casas, das ruas e nelas há tanta simplicidade, há tanta ternura. Sinto uma paz calma e rara, um sentimento de descanso, posso fechar os olhos e me tranquilizar.

Gosto do frio e das brumas, do vento gelado e doa dia ensolarado que seja tão frio que congele e empalideça a alma, os lábios e as mãos. Gosto de acordar cedo e sentir esse frio tão intenso que chega a causar até ardor. Gosto de um café, do seu aroma, do seu forte e inconfundível sabor, enfim, gosto do inverno e do que ele pode me proporcionar.

Gosto de imaginar mundos, histórias, vidas e pessoas meigas, fortes, duras e tristes, vivendo a deriva e perdidas. Gosto dos finais tristes, das mortes trágicas, da dor que resiste e da aceitação que prevalece. Gostos dos livros com personagens fora do comum, vagando pela vidas, com seus problemas, com suas dores, com seus erros. Gostos de histórias que tentam me repassar algo, sem esse algo estar muito claro, nada didático, nada fácil. Sei o que é certo e também compreendo o que é errado e não preciso de um conto, de uma narração para perceber isso, mas desejo ver uma história que me confronte, que me ouse e me faça enxergar o que não poderia ver com total clareza.

Gosto do som que me acalma e me tranquiliza, que me faça viajar por sentimentos extremos e dolorosos.
Gosto do céu, do mar, da chuva, do frio, do sol, menos do calor. Gosto da dor, do prazer, da tristeza, da amargura, da felicidade, da alegria, menos da eternidade. Gosto porque gosto e não tento entender a razão para gostar do preto, ao invés do vermelho, do drama, ao invés da comédia, é simples como viver, eu gosto porque gosto


sexta-feira, 1 de abril de 2011

A redoma de vidro

Lançado na década de sessenta, a obra retrata a vida da jovem Esther Greenwood. Promissora na carreira em que segue, após finalizar um estágio numa importante revista de moda, volta para a cidade natal. A não aceitação num curso de literatura desencadeará em Esther uma série de sentimentos, dúvidas e depressão já existentes, mas que somente agora despertam em escala maior, levando a jovem a pensar em diversas maneiras de cometer um suicídio e a colocar em prática um. Passando quase pela morte, sendo internada numa clínica psiquiátrica e se considerando louca, ela vai chegar ao mais profundo abismo.

Escrita de forma não linear, a história segue a linha dos pensamentos da jovem. Ela descreve o dia que esteve na agência e subitamente pensa ou lembra-se de algo na infância e passa então a contá-lo. Dessa maneira, seremos apresentados a um pai ausente que morreu cedo, a uma mãe protetora e meio neurótica que teima em ensiná-la taquigrafia e uma jovem, no caso ela, inteligente e arrogante aos extremos. Mas não há apenas esses personagens, a história trará outros que também terão grande importância na vida dessa jovem.

A escrita da autora Sylvia Plath lembra muito a de outra autora, Virginia Woolf. Uma escrita liberal e livre das prisões da narração correta e linear com o começo, meio e fim perceptíveis. Nesse drama passado e presente se entrelaçam, ora estamos acompanhando Esther quando criança, ora trafegando pelas suas memórias. Outro ponto interessante da obra é que a autora declara seus pensamentos de um jeito tão natural, que ao ler, você realmente se questiona se ela está levando a sério algo em sua vida. No decorrer do drama, ela comenta tentativas de suicídios que falharam, mas isso com tanta naturalidade que chega a assombrar. É por meio dessa irreverência na escrita que percebemos a sua dor. É uma angustia presente, mas disfarçada. Os problemas pelo qual Esther passa ou sente são complexos. Uma depressão marcada pelas dúvidas. Como ela mesma descreve em certa altura do livro, ela se sente presa numa redoma de vidro vazia e sem vida, sem ter a quem pedir socorro.

Umas das passagens mais interessante do livro, que com certeza é mais lembrada dessa autora e que está presente nessa obra é quando Esther descreve sua vida como uma grande e bela figueira cheia de frutos, sendo que cada fruto significaria um sonho, escolher um seria negar a todos. Devido a isso, a essa incerteza, conforme a narração, ela ficou ali diante da árvore com fome parada sem reação e a medida que o tempo ia passando, um a um dos frutos iam caindo, apodrecendo e morrendo e a ela ainda permanecia a dúvida sobre qual escolher. Esse trecho simplesmente sintetiza toda a história da obra. Uma passagem extremamente bela, contundente, metafórica, rica e dotada de uma complexidade incrível.

A dor presente na vida de Esther é algo que simplesmente não compreendemos, tentamos entender, mas infelizmente, esse sentimento está presente sem explicação. Uma profunda depressão enraizada nos mais profundo do interior dela. Em todos os momentos, ela se questiona de sua felicidade, do que se pode fazer, do que tem e de quais são seus atributos, há a solidão em sua vida. Não há como não perceber uma forte depressão quando ela afirma que não terá com que se preocupar ao que irá fazer aos finais de semana, pois já está namorando.

Uma obra inquietante que analisa de certa forma nossos medos também, pois nossa protagonista é uma garota comum, com um futuro brilhante, mas que devido a fatores da vida, cai num abismo sem fim. Suas dores são comuns, seus questionamentos são sensatos e o mais bacana desse drama é que ela não possui todas as qualidades positivas de uma heroína, de uma protagonista de uma obra, pelo contrário, em certos momentos, ela chega a ser insuportável, como todos nós em alguns instantes de nossa existência.

Segundo pesquisadores da autora, muitos acontecimentos do livro são autobiográficos da própria autora. Assim como Esther, Sylvia teve diversas crises depressivas e só conheceu a fama e o reconhecimento literário que desejava após a morte. Ela suicidou-se numa manhã gelada de fevereiro do ano 1963 inspirando gás na cozinha de sua residência em Londres. Há conversações para se adaptar essa obra para o cinema, os direitos sobre o livro foram adquiridos pela atriz Julia Stile, mas ainda está em fase de produção do roteiro e de outras burocracias ligadas ao cinema.

“A redoma de vidro” é um livro sensível e instigante. Uma leitura não muito fácil, porém muito gostosa e prazerosa dessa que foi uma das grandes escritoras inglesas do século XX