terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Selma: Um grito pela liberdade


Um grito de liberdade, um clamor de esperança

A busca pelos direitos dos negros é marcada por perdas e conquistas. Por pessoas que fizeram história e marcaram vidas. Na vasta história que envolve os negros, tanto no Brasil, quanto nos Estados Unidos, tivemos a vida de homens e mulheres que ao seu modo, lutaram, bradaram e resistiram.

Este drama “Selma” vem contar uma história muito já conhecida. Mas não muito bem explicada. Martin Luther King (David Oyelowo) foi um dos grandes líderes negros que os Estados Unidos já conheceu. Sempre pregava a paz, a não violência e por meio dos seus discursos, conquistou a milhares de pessoas, brancos e negros.

Neste novo drama, muito bem recebido pela crítica, voltamos ao tempo para a cidade de Selma para acompanhar as manifestações de King em torno ao direito dos votos para os negros.

Estados Unidos, 1963, aos negros era concedido o direto a votar, mas para isso, precisavam de uma autorização de repartições especificas e quem liberava tais pedidos eram brancos, em muitos casos, contra o direito aos negros para votarem. É neste clima de forte racismo, violência e segregação que King chega à Selma para tentar levar esta proposta adiante.

O drama apenas faz um recorte da vida deste líder, recontando esta história da vida dele, do momento em que ele chega a Selma ao momento em que consegue, depois de muito custo, alcançar esta conquista.




“Selma” faz uma leitura básica e simples da vida deste homem. Na trama o que se sobressai é o poder da história da vida do personagem. Indicado ao Oscar de Melhor filme, o filme foi o achado do cinema independente do ano de 2014.

Mas é pela sua simplicidade que este longa nos conquista. Há pontos falhos neste drama, como uma manipulação nos sentimentos para que possamos comprar as ideias de King e uma falta de compreensão para com os racistas. 

Neste filme, vemos o lado dos negros, e como tais são desenhados como grande vítimas da história e os brancos, como grandes vilões. Mas entre o branco e o negro, há muitas tonalidades. Compreender de onde vem tanta violência ou como a questão do diferente nos causa tanta estranheza, seria um caminho mais complexo, entretanto interessante de se trabalhar.

Em “Selma” a cultura negra está impressa em cada tonalidade, cada veste, cada penteado, cada fala, cada prato culinário. É como se estivemos observando um outro Estados Unidos. Não há cores vivas, suco de laranja ou sucrilhos. O que vemos são negros, com seus louvores, com suas cores fortes e intensas, com sua fala cantada, seu estilo musical marcada pelo blues e soul.



Um ponto se notar no filme é que toda trama é guiada por informações confidenciais da FBI, revelando como que o governo esteve envolvido com a vida este homem. Neste sentindo, a diretora nos dá a ideia que o próprio King era também investigado pelo FBI.

Mas se o filme talvez possa pecar pela forma como guia a história, manipulando nossos sentimentos, traz para o centro da trama um olhar intenso sobre a conquista dos direitos dos negros e como estes tiveram dificuldade em conquistá-los. O que torna-se interessante analisar neste filme é tentar compreender o motivo de tanta indiferença ou ódio envolvendo a cor de uma pele e como direitos tão básicos foram negados a esta população.

Vemos estes homens e mulheres negros tendo que buscar uma forma de luta. Diante desta luta, há dois caminhos, uma direção marcado pela violência, materializado na figura de Malcon X, que mostra sua presença na história. 

Por outro lado, há uma direção mais tolerante, mais pacifica, na figura de King. Estes dois caminhos e duas formas de pensar, guardam consigo muitas rivalidades e dores. É com beleza e maestria que a diretora foca nesta relação.

Outro ponto interessante é com relação a presença da mulher negra nesta história. Elas não são deixadas de lado ou colocadas apenas como um rosto bonito. Elas tem voz e presença, influenciam e têm presença. Não chegam a ter o papel principal, mas não são meras figuras de elenco de apoio. Elas tem tanta importância dentro deste drama, que a cena inicial do longa começa com uma negra tentando tirar o direito ao voto. Não um homem, ou um jovem, mas uma mulher negra.


São detalhes como estes que conferem peso e força a este filme.  



terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Amorteamo


Há amores que nem a morte pode separar

Arlinda (Leticia Sabatella) é casada com Aragão (Jackson Antunes), porém tem um caso com Chico (Daniel de Oliveira). O drama começa com ela e seu amante na cama em pleno ato sexual, quando são flagrados pelo esposo traído, ele não pensa duas vezes e mata Chico.

Arlinda após a morte do seu amante, se vê perdida, sem chão, sem base, porém ao se perceber grávida, sente a vida novamente correndo pelas suas veias. Aragão permite com que ela tenha o filho, entretanto, jamais ninguém saberá que ele não seja o pai.

Anos se passam e Gabriel (Johnny Massaro), o filho de Arlinda, cresce. Leva uma vida despreocupada, sempre próximo de Lena (Arianne Botello), a filha da empregada da casa. Os dois tem uma relação muito próxima, até que o sentimento entre eles torna-se mais intensa e afetiva e então, resolvem vivenciar este amor, mas são separados por um segredo que os une.

Quando Arlinda fica gravemente doente, Aragão precisa de recursos, então faz um negócio com Isaac (Isio Ghelman), o banqueiro da cidade. Caso Gabriel case com Malvina (Marina Rui Barbosa), filha do banqueiro, Aragão obteria os recursos que precisa para salvar a vida de Arlinda.

Todos aceitam o acordo, o casamento entra em preparo. Malvina se apaixona perdidamente por Gabriel, mas ele ainda está preso a sentimentos por Lenna. Tudo segue, tudo caminha até que o pior acontece.

Ele a abandona no altar para ficar com sua amada e Malvina, a noiva abandonada, se joga da ponte se matando. Tudo terminaria neste momento, toda história se encerraria neste ponto se algo de sobrenatural não acontecesse.

Gabriel arrependido, vai até o túmulo de Malvina pedindo para que ele a perdoe e ela volte. Num momento de dor, ele declama, brada e suas palavras são ouvidas. A morte não a prende e ela retorna a vida, para ficar então com Gabriel. Ele ao ver o que aconteceu, fica sem reação e sem palavras. Ela diante do fato de estar morta, é tomada por uma raiva e fúria. Mas se ela voltar a vida já é algo problemático, tudo piora quando a morte resolve trazer à vida todos os mortos com suas pendências, deixando a pequena cidade num problema sobrenatural.



“Amorteamo”, nova série da Globo Produções, aposta e acerta belamente numa trama sobre amor, desejos e traições. Envolvendo em sua trama dois núcleos de personagens, estes personagens são movidos por sentimentos dos mais simples aos mais complexos.

Neste drama, nada separa o amor que os move, nem mesmo a morte. Porém, não é somente o amor que os guia ou move a estes personagens, há outros sentimentos também. Amor, ódio, fúria, desejo e raiva tomam a estes personagens e os moldam.

Bebendo declaradamente da fonte de outra trama conhecida pelo cinema, esta série se faz referência de “Noiva Cadaver”, grande sucesso de Tim Burton. Se naquele desenho a noiva era uma moça marcada pela traição e morte, aqui a personagem de Malvina é movida pela raiva e seus atos revelam isso.

“Amorteamo” possui uma trilha sonora exuberante, onde o instrumental se faz presente moldando cenas, personagens e sentimentos, mas a música também ganha força, na voz dos personagens que declamam suas dores, alegrias e situações, numa melodia gostosa e bela.



A fotografia investe nas cores quentes, ousadas e fortes, lembrando mais uma vez o velho trabalho de Burton. As cores chama a atenção, demarcam os limites dos sentimentos e revelam o que os personagens sentem.

Outra característica forte do seriado é com relação aos cenários construídos. Ora eles representam a realidade que os cerca, mostrando praças, cidades e casas, ora há um tom de fábula, surreal e não verdadeiro. Uma forma de nos mostrar que esta história é ficção, nada é real, mas ainda sim, está calcada da representação da realidade.  Estas construções envolvendo o cenário, lembram muito outras produções da Globo como “Hoje é dia de Maria”, Alto da Compadecida” ou “Afinal, o que desejam as mulheres”.

Mas se “Amorteamo” bebe de outras produções e isso fica claro em sua execução, o seriado possui suas particularidades e seu roteiro tem elementos de força e peso. 

Na trama vemos dois grupos de personagens sendo guiados pela morte. Em cada grupo há sentimentos de amor, desejo, traição e renegação. Se Malvina volta a vida para buscar Gabriel e não aceita ser abandonada novamente, Chico retorna para buscar seu amor, e cobrar a morte que teve nas mãos de Aragão. 

Mas não apenas isso, é na morte, que estes personagens construídos primeiramente pelo prisma do amor, são mostrados de forma mais realista. Neste sentido, nem toda perfeição é perfeita, nem todo amor, está moldado pelo amor.


A vida é um eterno retorno, vidas vem e vão, se mesclam, se moldam, se fragmentam, se chocam. Estruturadas em cinco episódios, toda trama é cuidadosamente elabora e construída. No elenco, os personagens revelam toda sua complexidade e ternura. Personagens marcados por um olhar mais negativo, são humanizado, porém positivamente. Personagens mais tonalizados pela ternura e amor, são também humanizados, só que negativamente.

Neste meio termo, outros personagens trafegam pelo seriado, dando comicidade, leveza e ternura ao drama que move esta trama. Fato este que ajuda, já que o drama em certos momentos, chega a ser intenso e forte.

“Amorteamo” é um excelente acerto, seja pela sua história, pelo seus quesitos técnicos ou pelo seu primoroso elenco. Há possibilidade para uma segunda temporada, nada certeza, mas não consigo ver uma continuação para esta história, se houver, bom, teria que ser algo muito bem estruturado e produzido.




quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

The Good Wife - Sexta Temporada

Pelo direito de recomeçar, pelo direito de viver

         

Em sua sexta temporada, The Good Wife tenta se manter. Se manter no ar, manter sua história, suas tramas e seus personagens, mas o que se percebe é que o fim está para chegar e um desfecho precisa ser dados às suas tramas. Entretanto, ainda sim, a série se mantém no que é o seu melhor, as reviravoltas.

O ano já começa em alta. Cayos é preso pelo FBI. O motivo ainda não sabe, mas seu nome está ligado a uma possível investigação envolvendo Lemond. No caso, ele teria ajudado Lemond a permitir um grande tráfico de drogas. Alicia entra em sua defesa e pede a ajuda de Daiane.

Neste momento, as relações de Daiane e Alicia tornam-se mais forte e próximas e a antiga chefe entra como associada na nova firma de advogacia. Nell convence a boa dona de casa, Alicia, a concorrer a uma vaga para a promotoria. Ela resolve aceitar para tentar a ajudar Cayros na investigação. Neste primeiro momento da temporada, temos então estas duas tramas envolvendo o seriado, a prisão de Cayros e a busca por votos de Alicia.



Estas tramas deram um impulso a série e provocaram fortes mudanças. Alicia como sempre esteve a frente do seriado com peso, ternura, frieza e serenidade. O interessante com este arco a envolvendo, foi que ela pode perceber como se dá os meandros da política. Todas as suas ações, gestos e falas passaram a serem controlados, pois eles seriam usados contra ela. Alicia então pode perceber o outro lado, o lado do seu esposo.

Já com Cayros, ele teve seu melhor momento e seu destaque no seriado. Lançado contra a parede, sentiu o medo da certeza de ser preso e ter sua carreira destruída. Se antes sempre se manteve sério e calculista, revelou sua fraqueza e sua humanidade. Esta revelação da humanidade torna-se interessante neste seriado, pois a série trabalha muito com personagens que calculam todos os seus movimentos. As vezes faltam a eles calor humano e mais fúria diante dos fatos.

Tanto a trama envolvendo Alicia quanto a envolvendo Cayros nos mostraram o quanto eles são humanos, fracos e carregados de medos. Quem brilhou também neste começo de série e que estava apagada há um bom tempo era a personagem Kalinda. Entrando numa abismo sem fim e se colocando em risco, ela ajudou Cayros a se libertar e pagou um alto preço por isso.

Após metade da temporada, estas tramas foram encerradas e novas surgiram. Alicia agora como Procuradora do Estado,  deixa a sociedade da firma de advogacia e se vê diante de negociações. Esta personagem sempre esteve a frente de suas ações e negociar nunca foi seu forte e nem será tão cedo. Neste sentindo, a impressão que se dá neste arco envolvendo a protagonista deste seriado é que criaram esta trama apenas para delongar o seriado. Um ponto interessante talvez tenha sido os debates dela com seu concorrente e ver sua postura frente aos lados obscuros da política.




Mas desde quando começou o seriado, a personagem de Alicia sempre esteve ligada aos tribunais, neste sentido, tornava-se estranho vê-la atuando dentro de um escritório. E isso não demora a acontecer e temos então uma nova virada na trama. O grande forte deste seriado são estas viradas e eles acontecem e não poupam seus personagens de situações constrangedoras ou trágicas. Alicia diante desta mudança drástica em sua vida, perde novamente o chão, a base e sua estrutura, o que fazer com sua vida?

Outra personagem que se destaca belamente é Kalinda. Por motivos desconhecidos, a atriz que a interpreta pediu sua saída do seriado, então para isso, os criadores desenvolveram toda a trama da sexta temporada para esta saída. 

As ações da personagem ainda no começo do sexto ano a colocaram numa situação delicada e para poder encerrar este arco deram a ela um desfecho que de certa forma, não foi brilhante, devido a capacidade que os roteiristas têm em construir histórias, mas ainda sim, foi condizente com o arco construído ao redor dela. 

The Good Wife termina seu sexto ano com menos personagens dentro de sua trama central, necessitando de novos rumos e colocando seus personagens em reviravoltas constantemente. Estes elementos num primeiro momento do seriado revela força, porém já passado seis anos, mostram um desgaste.



Em outros elementos o seriado ainda continua com grandes destaque. Os atores estao otimos, Juliane Marguile como Alicia ainda continua exuberante, intensa e forte. Cristina como Daiane ainda tem em sua atuação um misto de dramaticidade e comicidade. Sua postura é forte, sua presença marca, ao mesmo tempo que gera bons momentos engraçados para a série. Suas discussões com XX, um republicano revelam este lado engraçado dos Estados Unidos, duas posturas totalmente distintas sobre os mais diversos temas, mas que precisam conviver juntos e encontrar uma harmonia entre si.

A trilha sonora dita as regras, estabelece conexões e movimenta o seriado. As tramas que estão relacionadas com os casos isolados ainda são ótimas, talvez um ponto negativo é que elas foram deixados um pouco de lado para que as tramas principais do seriado pudessem prevalecer.

No mais, “The Good Wife” caminha para o seu sétimo ano em busca de novos dramas, novos arcos, novos motivos e novas situações, mas penso eu que o fim deve chegar. E este fim já torna-se necessário nesta que mostrou ser uma das grandes séries da atualidade.



       

domingo, 29 de novembro de 2015

A Lula e a Baleia: na busca por aceitação



O outro nos toca, nos move, nos transforma

Na busca por aceitação, na busca por reconhecimento, nos projetamos sobre outros, negamos o que somos, mas ao final, percebemos que todo este caminho de negação revela-se desnecessário. Quando isso acontece, o que fazer diante dessa verdade?

“A lula e a baleia”, drama independe, trafega por este caminho, entre o desejo de aceitação e a busca pelos seus próprios caminhos.

Joan Berkman (Laura Linney) e Bernard Berkman (Jeffe Daniels) são casados há anos, mas o casamento jã não está naquele clima. Ela sempre se manteve distante da literatura, apenas cuidando dos filhos, da casa, da família e trabalhando como professora. Ele atua como professor numa universidade. Há anos lançou uma obra que foi bem recebida pela crítica, após esse fato, não conseguiu emplacar mais nenhum livro.

Bernard é arrogante, acha que o mundo se separa entre filisteus e não-filisteus, ou seja, aqueles que na opinião dele, tem bom gosto por cinema, literatura e música e os que não têm. Já Joan é mais atenciosa, compreensiva, sentimental e silenciosa.

O casal tem dois filhos, Walt Berkman (Jesse Eisenberg), o mais velho, muito parecido com o pai, mais seguro de si, frio e indiferente. Recita livros que não leu, comenta de músicas que nunca ouviu, canta canções que nunca compôs. Tenta a todo custo e momento transparecer uma identidade que se assemelha a do seu pai. Frank (Owen Kline) é o caçula e mais ligado a mãe e como ela, frágil, sentimental, carente, que transparece ser mais fraco.

Quando Joan lança uma obra literária que é ovacionada pela crítica, a relação entre ela e seu marido chega a um ponto que não tem mais volta e então o divórcio entra como único caminho. Walt e Frank fazem suas escolhas, o mais velho deseja ficar com o pai e Frank com a mãe.

Neste meio tempo, Joan se envolve com um novo homem e tem seu passado conjugal escancarado pelo marido numa tentativa dele de denegrir a imagem dela. Bernard se envolve com uma estudante, mas sem nunca confirmar tal relacionamento. Esta separação provoca nestes dois jovens uma confusão de sentimentos e pensamentos. O que pensar, o que desejar, quem está certo ou quem está errado?




“A lula e a baleia” faz uma abordagem sobre relações, relações que dão certo, relações que dão errado. Relações marcadas por amor, marcadas pelo abandono. A impressão que temos é que o diretor nos coloca diante deste casal, sem saber o que de fato os uniu ou os separou e vemos suas relações, suas vidas, suas dores e dúvidas. E diante do que vemos, vamos oras nos apegando a certos personagens, ora nos distanciando.

Com o desenvolvimento do drama, percebemos a arrogância do esposo, a sensibilidade e as dúvidas de Joan, a raiva sendo moldada por Walt e a falta de estrutura no pequeno Frank. Entretanto, o longa também nos remete a algo mais delicado, algo mais emblemático. Todo o drama se argumenta sobre Walt e talvez por conta disso, haja sobre ele uma relação de abandono e admiração. 

É em sua relação com mãe que se estabelece e se molda a alegoria da lula e a baleia. Sempre ele fora o preferido dela, após o nascimento de Frank ele perde o seu posto e então, para tentar ter a atenção de sua mãe novamente, molda suas atitudes, seus gostos e seu modo de ser com o do seu pai. Porém quando vem a noticia da separação, ele percebe que toda inspiração que tomou para si não é válida e ele se perde nessa caminhada. Ora, o exemplo que sempre tivera para si mostrou-se ser frágil e errado, então, quem se tornar diante de toda essa verdade. Walt perde o chão, a estrutura e toda sua base.

É interessante de se perceber como o drama vai construindo esta relação. Num primeiro momento temos a relação de Joan e Bernard ao centro. Neste começo do drama, vemos as atitudes arrogantes dele, tentando a todo custo desvalorizar o trabalho de sua esposa. Neste ponto, vemos um homem preso a sua vida, a uma vida que não ama, que não deseja e que não lhe faz se sentir bem e que por conta disso, tem como único ponto de defesa, subjugar a todos para que assim e somente assim, consiga se sentir bem.




Já Joan revela-se o oposto, mais madura, consciente e compreensiva. Entretanto, nem ela está livre dos pecados, dos defeitos. Ela é também é imperfeita e aos poucos vemos uma mulher marcada pela tristeza que buscou nas traições um fuga para sua vida. Quem está certo? Quem está errado? Não há como saber, não há como julgar, só tentar compreender.

Após algum tempo, os filhos que ganham presença na história. Walt não aceita a separação e condena sua mãe, Frank para se rebelar contra o pai, aceita a mãe e toda sua imperfeição. Se num primeiro momento desta análise dos filhos, o diretor nos dá a entender que o objetivo do longa é abordar estes dois garotos, é  Walt quem guia a trama em seus minutos finais. Vemos um adolescente na busca por um referencial, por alguém que possa se espelhar. Sua mãe o “abandonara”, seu pai se mostrara falho em vários aspectos. Aos poucos, vemos que muito do caráter que nos foi mostrado durante todo filme sobre Walt é de fato falso e isso se materializa por meio da canção que ele canta num festival. A canção não lhe pertence, mas ele a canta como se fosse o verdadeiro compositor dela. Porque ele faz isso? Nem ele sabe responder.

A trama segue e prossegue. Não há um desfecho de fato, não uma saída para os seus personagens. A trama segue, a vida segue e tudo caminha. Um caminho marcado pela dor, marcado pelo abandono, marcado pelo passado e este filme vai fechando a janela que nos permite ver essa família, sem ao menos conseguir vislumbrarmos uma saída para estas vidas tão perdidas nesta vida.

Com um belo roteiro, moldado por personagens tão carismáticos e imperfeitos, nos apegamos a esta história, a estas vidas. Nada é perfeito neste drama e por ser tão imperfeito, torna-se tão comovente. A trilha guia os passos, os cantos, as cenas e os olhares. O roteiro trabalha com temas delicados como traições, perdão, amores, caráter sem nunca cair num moralismo, sem nunca se tornar chato.


Em seu primeiro trabalho para o cinema, Noah Baumbach mostra domínio na direção, beleza no roteiro e sensibilidade na construção de seus personagens. Um filme tocante que recebeu ótimas críticas pelos festivais em que passou, mostrando como um cinema pequeno, bem feito, sem ter uma grande história por traz pode nos arrebatar de forma única. Assim é o cinema, nos conquista, pois nos mostra a vida em sua mais bela simplicidade.



terça-feira, 27 de outubro de 2015

Sangue Azul


Quando um filho retorna para casa, traz consigo sonhos antigos, alegrias antigas e uma paz, o filho para casa retorna.

Neste novo drama nacional, temos Zola (Daniel de Oliveira), um jovem que há muito tempo deixou sua cidade e viajou pelo mundo com um grupo de circo. Anos se passaram e tornou-se numa grande apresentação, o homem bala. Conheceu lugares, cidades e pessoas, viajou o mundo e depois de anos, retornou a sua antiga cidade, uma ilha, esquecida pela tecnologia, esquecida pelas grandes cidades, um local onde o tempo está como o grande senhor.
        
Ao retornar trouxe consigo esta alegria, a do filho que retorna, entretanto envolta de preocupações. Seus familiares e amigos ficam num misto de alegria e desconfiança. Fantasmas do passado podem retornar e com mais força. Há um drama que envolve este rapaz, jamais ninguém comenta, mas todos sabem o que de fato acontece.

“Sangue azul” faz referência ao poder que estava sobres os reis, dado por Deus. Somente eles podiam reinar e governar suas terras, eles tinham sangue azul. Para manter tal pureza, casavam-se entre membros de sua própria família. No Egito Antigo, o casamento dava-se até entre irmãos. É sobre esta relação que o drama aborda. Sobre irmãos, que crescem juntos e que desenvolvem entre si uma relação que vai além de um simples elo de irmãos.

Zolah é este irmão que quando pequeno é enviado pela mãe para ser criado por essa trupe do circo. Raquel (Caroline Abras), sua irmã, fica na ilha, torna-se mergulhadora e se casa. Quando os dois se encontram, há uma relação e uma tensão entre eles que se percebe de longe, pelos olhares, pelos gestos e pela expressão facial.
            
Zolah tem uma relação com a dançarina do circo, mas durante todo o drama ele mantém relações sexuais com outras mulheres. Há uma tensão sexual em seus atos, seria isso uma forma de escape? Uma forma de amenizar o desejo que sente pela irmã? Já Raquel, após a chegada do irmão na ilha, se afasta cada vez mais de seu marido. Estas relações entraram num conflito e todos da ilha serão impactados por tais atos.
            
Presos na ilha, todos desejam deixar a cidade, mas Zolah insiste em permanecer. Mas o público do circo cai e acidentes acontecem. Neste meio termo, este jovem tem que enfrentar os próprios sentimentos do passado, sentimentos este ligado ao abandono de sua família e tentar compreender qual foi o motivo que permitiram que ele partisse com o circo.



            
“Sangue azul” caminha lentamente, buscando seu próprio caminho. Com uma abertura moldada por uma fotografia em preto e branco, este drama não deseja ser adorado por todos, mas mostrar uma história ousada, com um tema delicado e difícil de ser trabalhado. Neste filme, temas como incesto e homossexualismo são abordados com uma delicadeza impressionante. Não há sensacionalismo em cima, mas uma abordagem singela e com respeito.
            
Um ponto a se perceber neste drama, é que ele faz uma leve referência a outro grande drama, cheio de simbologias e metáforas, “Lavoura Arcaica”. Neste, como naquele filme, o retorno do filho que partiu, traz consigo conflitos, tragédia e desgraça. O pior está para acontecer, mas se em “Lavoura Arcaica” o mal acontece, neste “Sangue Azul” ela é apenas mencionada, dita, mas não mostrada, deixando para quem vê o longa, apenas imaginar a tragédia que estará para acontecer.
            
A trilha sonora presente no drama tem uma interação muito gostosa, um instrumental delicado, que as vezes chega a ser profundo, as vezes suave. A fotografia sempre privilegia as paisagens naturais, com destaque para a praia, um lugar intocável, um lugar em que a modernidades das cidades grandes não conseguiram penetrar. 



O elemento da água sempre está constante no filme, como elemento de fluidez, de transformação, de confronto e de constância. As águas correm e por mais que venhamos colocar obstáculos à sua frente, ela corre e nada pode impedi lá. Esta relação pode ser colocada na ideia que se estabelece entre estes irmãos. Por mais que os familiares tentaram separá-los, por mais que a distância entre eles tenham sido grandes e tempos tenham passado, ainda sim, nada disso foi de fato forte para impedir que o pior acontecesse e este mal fosse evitado.

            
Divido em capítulos, cada capítulo demarca a estrutura do filme. Em todo drama há um “q” de existencialismo, um tom de mistério e de predestinação. Uma certeza paira sobre todo longa, uma certeza envolta de tragédia. 

Assim é este “Sangue azul”, calcado no melhor da tragédia que as histórias podem conter. No elenco grandes nomes do cinema nacional como Daniel de Oliveira, Milhem Cortaz, Matheus Nachtergaele. 


terça-feira, 6 de outubro de 2015

"Entre abelhas" e a beleza do cinema nacional


Quando o silêncio ecoa, a solidão prevalece e a morte entra em cena.

Bruno (Fábio Porchat) terminou seu relacionamento recentemente, no caso, terminaram com ele. Ele ainda ama a esposa e não compreende porque chegaram onde chegaram. Voltando a morar com sua mãe, ele claramente está deprimido.

Seu amigo, Davi (Marcos Veras) tentando ajuda-lo, o chama constantemente para sair, seja bares, baladas ou qualquer lugar, menos ficar em sua casa. Ele aceita, mas não possui vontade, desejo ou algum motivo que o mova.

Entretanto, em meio há tantos problemas, algo de estranho acontece. Pouco a pouco, todas as pessoas a sua volta começam a desaparecer, no caso, ele não consegue mais vê-las. Por qual motivo? Como resolver este problema?

Sua mãe ao saber disso, não entende, ela até tenta acreditar, mas parece algo impossível isso. Ela então o leva a um psicanalista. Durante as análises, um dos motivos dados pelo especialista é que Bruno está tão mergulhado em seus problemas que simplesmente ele não deseja mais ver as pessoas ao seu redor; ou no caso, estas pessoas não tem mais importância para ele, por isso esta invisibilidade. 

A alegação do psicanalista faz sentindo, pois as primeiras pessoas a simplesmente sumirem são desconhecidos ou antigos amigos. Bruno entra em pânico, porém num primeiro momento nós, espectadores, não vemos isso dessa forma. Entretanto, pouco a pouco a lista dos invisíveis torna-se maior que a dos visíveis. Após uma cena em específico, o drama muda de direção e o que era engraçado, torna-se preocupante e Bruno se vê numa situação delicada. Então o que fazer?





“Entre abelhas” se utiliza de uma metáfora para abordar um tema interessante, a depressão. Ora, quando a tristeza vem, ela chega de forma avassaladora. Perdemos a razão, os motivos ou qualquer outro ponto de referência. Simplesmente tudo torna-se sem chão. Bruno está passando por este processo de luto, porém há sobre ele além desta tristeza necessária, um egoísmo que sempre existiu sobre ele. Bruno se fecha em seu mundo e só dá atenção a sua dor, ao seu mal-estar, a sua mágoa. Não percebe os problemas que estão relacionados ao seu amigo e ele sempre os comenta para ele, não percebe os problemas que envolvem sua mãe e há todo momento, o longa nos dá indícios que ela não está bem. O único problema que ele está interessado em resolver é voltar com sua esposa.

Nada o preocupa mais, nada o faz pensar em mais nada, todo seu mundo está direcionado a resolver este problema. É neste aspecto que se encontra a graça deste longa, ele trabalha com um tema pesado de forma leve e a medida que o problema revela sua seriedade, o longa também torna-se sério e dramático.

Neste longa percebe-se dois filmes, numa primeira parte há um tom de comédia perdurando sobre todo o longa. As cenas iniciais do drama se apoiam numa comédia moldada pelo cotidiano. É um humor leve, despretensioso, cheio de graça com inteligência e jogadas que dão certo. Não há aquela manipulação, personagens estereotipados ou cenas forçadas para promover a rizada. Tudo soa tão naturalmente. Até este momento a trilha é leve e damos rizada de todos os elementos que envolvem ao Bruno.


A partir de uma cena em particular, a estrutura do filme muda radicalmente. Sai de cena a comédia e o drama ganha força. Neste momento percebemos que o problema que envolve a este personagem é mais sério do que imaginávamos. A trilha muda o foco e o instrumental torna-se mais pesado.

“Entre abelhas” brilha ao seu modo, entretém, contudo, quando o momento pede, trata o tema com seriedade. O personagem de Fabio Porchat consegue dar vida a um homem amargurado, solitário e que não vê mais sentindo em sua vida. Tudo permanece lá como sempre esteve e ele tem essa ideia, mas ele apenas não consegue mais visualizar as pessoas que fazem parte de sua vida, o motivo, ele simplesmente não deseja.


Ao final do drama, quando achamos que não há mais saída para este homem, uma luz brilha ao final de todas as trevas e a morte dá sinais de vida. Um rosto sempre presente, nunca importante, se revela a ele e ele se dá conta de sua existência. Drama nacional com roteiro, dramaticidade e profundidade. Assim é este filme, calcado em uma boa ideia, moldado por uma excelente equipe técnica e que revela um cinema em plena expansão. 


quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Enquanto somos jovens'


Enquanto somos jovens, enquanto somos novos, enquanto somos muitas coisas ....

Em seu mais novo drama, Noah Baumbach traz para o centro da trama uma história tocante, terna, simples e cativante sobre um casal em plena crise de idade. Na casa dos quarenta anos, Cornelia (Naomi Watts) e Josh (Bem Stiller) possuem uma vida estável, bem estruturada, mas ainda falta algo. Eles são antenados as tecnologias, adoram sair em amigos, mas a idade não é como antes e o corpo já declama isso.

Josh é professor de cinema, está produzindo um documentário e está neste trabalho há dez anos. Nunca consegue finalizá-lo. Motivos são vários, medo de ser avaliado, de se perceber que não é tão bom quanto imaginava. Cornelia trabalha como editora de vídeos e seu pai é um grande documentarista. Por conta disso, a relação entre Josh e o pai de Cornelia nunca se dá de forma amigável.

Em uma de suas aulas, ele conhece um casal de jovens, Darbie (Amanda Seyfried) e Jamie (Adam Driver), dois jovens casados. Sempre sorridentes, sempre carismáticos, estes dois são o oposto de Josh e Cornelia. Possuem uma atração pelo passado, desprezam as tecnologias e tentam aproveitar os poucos momentos da vida de forma mais intensa.

Nesta relação de oposições, estes quatro jovens se relacionam, se entendem e trocam suas experiências. Jamie, assim como Josh, aspira a ser um grande documentarista e tem uma ideia diferente para a produção de um documentário. Josh acha a ideia um pouco estranha, mas resolve ajuda-lo nessa empreitada. Entretanto, quando os rumos deste documentário tomam proporções diferentes, começa a surgir entre estes dois amigos sentimentos de inveja, desconfiança e inimizade.



“Enquanto somos jovens” traz para o centro da trama vários questionamentos que nos envolve. Noah em seu mais novo drama faz uma referência há vários temas: o uso excessivo das tecnologias e como estas estão ditando as regras de nossas vidas; o medo e a insegurança que sentimentos com o tempo; a não aceitação da velhice e o medo de não realizarmos tudo o que havíamos planejados.

Noah possui uma carreira mais calcada no cinema independente. Seus filmes são sensíveis, trabalha sempre com beleza as complexidades de seus personagens, nada é tão simples de análise e este diretor coloca seus personagens ora em momentos desconfortáveis, ora em momentos tocantes. Seus personagens são movidos por dores, receios e medos.       

“Frances Há”, seu filme anterior, caminha neste sentindo. Se lá a personagem principal tinha que se deparar com uma verdade que causava uma certa dor, neste novo drama, Josh possui um desejo, mas ele sabe que no fundo não é excelente no que faz, sabe que não realizou todos os sonhos da forma como queria e sabe que não irá realizá-los. Aceitar o que tem, perceber a vida em sua simplicidade e suas qualidades, este será o caminho que este homem irá traçar.



Em seu filme mais comercial, “Enquanto somos jovens” tem ares de cinema alternativo. Com uma trilha sonora muito bem modulada e estruturada, uma bela fotografia e atuações esplêndidas, este drama nos toca.

A história é simples, porém muito bem construída. Há algo que podemos perceber de errado na perfeição toda em Darbie e Jamies, e aos poucos, conforme vamos percebendo as verdades e mentiras, vamos compreendo quem são estes dois jovens e por consequência, quem são Josh e Cornelia.

Este drama trabalha com maestria e beleza os contratempos da vida, suas desilusões,  frustrações e ambições. Nunca teremos que desejamos ter, nunca seremos completamente perfeitos ou inteiramente felizes. O que fazer diante de tal verdade, diante de tais fatos? É algo complicado, cada um tem seu caminho e “Enquanto somos jovens” tenta encontrar uma resposta para estes dois personagens. O final do longa não é grande, não há um desfecho de fato, mas é condizente com que o diretor deseja retratar ou abordar. Apenas isso, a vida.