quarta-feira, 10 de junho de 2015

Livre




O caminho da dor, o caminho da cura.

Como se levantar de traumas, como esquecer dores, como seguir adiante quando o passado está intimamente preso ao presente. A dor nos toma por diversos modos, por diversas faces e quando não a enfrentamos, mergulhamos num profundo mar sem fim.

Se levantar de tal constância significa muitas vezes trilhar caminhos complexos, difíceis, dolorosos, onde há dor está presente e somente ela nos despertará para a vida. Mas não a dor da morte em vida, mas a dor que nos faz perceber estar vivos.

Cheryl Strayed (Reese Witherspoon) perdera a mãe ainda recentemente. Sua mãe, Bobbi (Laura Dern), era sua base, sua guia, sua estrutura. Mesmo que as relações entre as duas sempre fosse marcada as vezes por severas discussões, a relação entre ambas ainda sim era marcada por uma cumplicidade.

Após a morte de Bobi, Cheryl se lança num mundo de drogas, bebidas, perdições e prazeres. Mesmo sendo casada, se lança cada vez mais em relações extraconjugais com uma única finalidade, se subjugar, se culpar, condenar-se a si mesma.

É neste ponto que então decide trilhar 1.800 quilômetros na Pacific Crest Trail americana. Uma trilha perigosa, cansativa e desgastante. Nesta empreitada, ela se colocará no limite das suas condições físicas, provando das suas forças e fraquezas, se apegando as suas lembranças e ao seu passado, confrontando as suas dores.


“Livre” caminha entre o passado e o presente, se intercalando constantemente num ritmo frenético. Oras vemos cenas de seu presente, de sua caminhada e das dificuldades em prosseguir adiante, ora vemos cenas do passado, quando sua mãe ainda estava viva, ou quando estava lutando contra o câncer.

Como um mosaico, um grande quebra cabeças, vamos conhecendo melhor esta personagem e vamos compreendendo melhor os motivos que levaram esta mulher a percorrer tal trilha, tal caminho. É como se tanto nós, que estamos vendo ao filme, quanto a própria personagem, vai entendendo de fato o que aconteceu a sua vida, as escolhas que fez, os caminhos que percorreu. Seu passado se revela a nós, revela a esta personagem.

É interessante perceber essa estrutura da montagem, como o diretor nos revela o inicio do longa, com , Cheryl gritando fortemente no penhasco de uma montanha. Após isso, sua caminhada até aquele momento em que a cena se inicia, alternando com cenas com sua mãe ainda viva. Mas tudo num primeiro momento parece muito confuso, muito emblemático. Nem ela, nem nós entendemos sua vida.

Aos poucos, o diretor percorre seu passado. Aí conhecemos uma mãe zelosa, amorosa, que sofreu na mão do esposo, mas que mesmo diante da dor, encontrou forças para reestruturar sua vida. Uma mulher que sofreu com a notícia de ter um câncer e não sobreviveu a esta fatídica doença. Conhecemos essa jovem, , Cheryl. Uma garota que nunca teve uma relação próxima com a mãe, mas que ao vê-la doente e sentindo que poderia perdê-la, sentiu a dor da culpa. Culpa, este é o sentimento que percorre sobre todo drama. Uma culpa que a condena, que mata, uma morte em vida que se materializa em seus atos.



“Livre” caminha neste sentindo, é uma jornada em busca de se compreender. , Cheryl, diante de toda sua dor, se perdeu em sua vida. Passar por este caminho, por essa jornada, é sentir a dor da vida e diante desta dor, é sentir-se viva novamente. A dor nos move, a ferida por mais dolorosa que seja, nos faz perceber que ainda estamos vivos.

No percurso, ela olha para o horizonte, se questiona se este é o caminho a seguir mesmo, ou o certo a fazer, mas diante da dúvida, ainda segue. O peso da sua bagagem a limitam e dificultam sua caminhada e aos poucos ela percebe que é necessário deixar objetos pelo caminho, lembranças no percurso, para que somente assim venhamos conseguir viver. 

Esquecer às vezes pode ser um sinal de vida, de manter-se vivo. Somos uma soma de todas as nossas vivências, mas quando estas nos ferem, é preciso esquecer todas essas vivências, não dar importância, não dar valor e caminhar, mesmo chorando, mesmo sangrando e caminhar. Num certo momento lá na frente, iremos relembrar o trajeto que fizemos e aí neste momento veremos se tal lembrança, da experiência foi de fato importante e se foi, em que sentindo.

Cheryl caminha, se fadiga, mas ao final, ao atravessar uma ponte (sim, tinha que ser uma ponte, que talvez possa simbolizar um elo entre o passado e o que virá adiante) ela se sente cansada, mas ainda sim, sente-se viva. Este cansaço, toda sua dor, lhe fez recobrar a vida, a enxergar com clareza tudo que aconteceu a ela.


Este longa, “Livre” faz uma referência a outro drama “Na natureza selvagem” com direção de Sean Penn. Se neste drama o protagonista busca na solidão do Alaska um novo motivo para viver, em “Livre” a protagonista busca nesta jornada, uma ruptura com o passado, uma forma de manter-se viva.

No elenco, Reese Witherspoon se lança vorazmente para dar vida a esta personagem. Sempre lembrada por comédias frágeis e superficiais, neste drama ela deixa de lado toda sensualidade e beleza para enfrentar situações que lhe exigem força e resistência física. Uma atuação esplêndida que lhe garantiu mais do que merecidamente uma indicação ao Oscar. É interessante notar que, assim com esta personagem, esta atriz se desprende de todo o seu glamour e toda maquiagem, todo seu passado para encarar um presente diferente.

Na direção Jean Marc Vallee mantém uma estrutura interessante. É dele também o premiado “Clube de Compras Dallas” e também o excelente “C. R. A. Z. Y”  que foi muito bem recebido pela crítica. Dramas comoventes, com uma certa pegada melodramática, mas que conseguem caminhar bem entre o distanciamento e a proximidade, entre a manipulação de sentimentos e a neutralidade para com o espectador.



segunda-feira, 8 de junho de 2015

The LefTovers: Deixados para trás

 


Uma trama sobre a dor, uma história sobre o se calar

“The Leftovers” aborda uma história envolta da religiosidade, fé, fanatismo e intolerância. Quando num fatídico 14 de outubro simplesmente 2% da população desaparecem, o mundo entrou num profundo caos. Seria o arrebatamento proclamado pela Bíblia? Para onde foram levadas essas pessoas? Entretanto e os que ficaram como seguiriam adiante com suas vidas?

Passado três anos após este incidente, vemos uma pequena cidade de Nova York tentar viver reconstruir sua vida novamente, se reerguendo do luto deixado pelos que foram e tentando encontrar novas razões para suas vidas. Uma aparente calmaria está sobre toda a cidade, mas no fundo, todos ainda choram pelos seus, pelos que partiram.

Deixados para trás, é sobre eles que a série se centrará. Não importa os que foram ou o que de fato tenha acontecido, mas o que interessa nessa trama é tentar entender a dor dos que ficaram, dos que foram renegados, deixados e abandonados.

Kevin Garvey (Justin Theroux) é delegado na pequena cidade de Mapleton. Desde que seu pai teve surtos psicóticos e enlouquecera, ele assumiu a sua função. Apesar dele não ter nenhum membro de sua família levados neste episódio intitulado como “partida repentina”, teve sua família totalmente desestruturada. O filho mais velho, Tom Garvey (Chris Zylka), passou a seguir uma seita que tem como líder um homem que pensa ter poderes para retirar os fardos das pessoas. Laurie (Amy Brenneman), sua esposa, entrou para outra seita que fora criada após estes eventos, os “Remanescentes Culpados” e por fim, a filha Jill (Margaret Qualley) que cada vez mais está distante do pai e calada diante da vida.

No universo desta cidade, há ainda Nora (Carrie Coon), uma mulher que perdera todos os membros de sua família e desde então tem recebido a compaixão de todos. Meg (Liv Tyler), uma mulher que está tentando se levantar do luto. Ela perdeu uma pessoa próxima também nessa partida e ainda não superou a dor dessa perda. Sendo vigiada constantemente pelos “Remanescentes Culpados” encontrará neste grupo uma base para a superação dessa dor e por fim Matt (Christopher Eccleston), padre da igreja local. Sempre tentando ajudar o próximo, não aceita a explicação de que estes que partiram foram arrebatados por Deus.



Estes personagens representam esta cidade, uma cidade que está adormecida diante da dor, tentando se levantar do caos, tentando seguir com suas vidas, entretanto, nada será como antes, pois nada voltará a ser como era antes.

Baseado na obra de Tom Perrotta, autor renomado, também criador do aclamado romance “Pecados Íntimos”, esse romance tem como objetivo compreender a alma dos que ficaram. Para alguns, estes que sumiram foram levados aos céus, mas se foram e os que ficaram, ficaram entregues ao abandono de Deus? Porém, dentre os que desapareceram estavam assassinos, psicopatas, adúlteros, ou seja, aceitar a ideia do arrebatamento é ir contra tudo o que se acredita sobre o certo o errado. Mas se estes não foram arrebatados, então, o que aconteceu a eles? Essa é a dúvida que persegue a muitos, mas esta não é falada ou dita, mas apenas sentida, pensada, rememorada e bradada.

Quem assina a produção executiva deste seriado é Damon Lindelof, responsável pelo seriado odiado e amado aos extremos, Lost. Por ser um dos idealizadores de Lost, as ideias que estiveram presentes naquela série também se encontram nesta. Em toda temporada vemos elementos que nos remete a sinais, mitologias e segredos sendo lançados. 

Um “q” de mistério percorre esse fatídico dia. É um veado que sempre está a aparecer a Kevin. São os cachorros que mudam repentinamente, tornando-se animais perigosos e agressivos. São as visões e alucinações constantes deste delegado que denotam que algo muito grande e complexo está por traz destes acontecimentos. São os pombos e um olhar de epifania que acoberta a todos os personagens. Enfim, há toda uma construção simbólica sobre cada ato, sobre cada cena, sobre cada personagem, diálogo, música e nos remetendo a ideias e pensamentos.



Por mais que esta série se apoie fortemente na simbologia e nos mistérios, o que mais interessa a este seriado é abordar como a dor é sentida, como a perda é percebida pelos seus personagens. Cada homem e mulher se renega a lembrar a dor, o luto. Uma forma de defesa, uma forma de se manterem vivos. Ora, o que é a dor? Ela nos move, ela nos faz caminhar por estradas antes nunca seguidas, mas também nos fere diariamente, cotidianamente. Quando todas as dores cessam, ainda há este sentimento calado, tão sútil que faz transbordar sentimentos.

É sobre essa dor que esse seriado fala, toca, aborda e revela. O que os sujeitos da seita “Remanescentes Culpados” fazem é não esquecer a dor, mas antes, abraça-la ferozmente. Mas se estes a abraçam, não fazem isso para seguirem adiante, fazem isto para perderem seus sentimentos. Estes personagens não falam, toda sua comunicação se dá por meio de mensagens. O que eles querem é fazer com que todos da cidade não esqueçam essa dor, seus entes queridos, mas se lembrem, relembrem e sintam o luto. Eles não tem família, amigos ou laços de sentimentos, são paginas em branco, sem passado ou presente.

A temporada inicia com esta seita confrontando todos a lembrarem de suas dores e encerra com todos confrontados por este sentimento. Entretanto, relembrar aquilo que não desejamos é tão perigoso quanto esquecer.

O seriado possui uma trilha sonora instrumental fantástica. Numa análise primária, essa sonoridade tem como objetivo manipular os sentimentos, contudo se analisarmos com exatidão cada elemento sonoro, perceberemos que este instrumental entra como uma mensagem, como uma declamação do que não pode ser dito ou falado. 



Os próprios seguidores do “Remanescentes Culpados” não falam, ou seja, não expressam seus sentimentos, assim como todos os moradores desta cidade. Há uma dor que está sento sentida, mas não falada, uma mancha que está a vista, mas não sendo visualizada. E a música entra como uma declamação dessa dor, desse mal. Quando seus personagens querem dizer algo, mas não podem, por vários motivos, esta canção, esta sonoridade entra representando essa fala, esta confissão.

Outro elemento a ganhar força na série é a fé. A religião move a estes personagens. Mas é interessante notar como esta é provada. Para Matt, o padre local, o que eles estão vivenciando é um período de fé. Como manter sua crença quando tudo diz que nada mudará? Se houve um arrebatamento, eles foram renegados, se foram, por qual motivo? Por que seguir adiante? Elementos como o natal, família, solidariedade, esperança e milagre perdem sua força e são provados no fogo. Entretanto ao final podemos sentir um tom de otimismo envolvendo a todos os personagens, seja pela figura de um cão que muda suas atitudes, por um bebe que adentra a vida de uma personagem ou pela reconciliação que é feita entre os membros de uma família.


“The Leftovers”, novo drama da HBO, mergulha profundo em segredos, mistérios, predestinação, sinais e fé. Em meio a essa gama de complexidade, traz para o centro da trama a dor, a dor que nos move, nos toca, e nos transforma. Das ruínas, nascerá o novo. Do caos, haverá a ordem. Da dor, brotará a cura e a vida. 



terça-feira, 12 de maio de 2015

Penny Dreadful



Terror, suspense, escuridão. Uma trama envolvente e instigante.

Inglaterra, época vitoriana, época de medos e incertezas. Numa era escura e sombria onde a noite prevalece, figuras obscuras trafegam pelo imaginário popular. Nas cidades, a falta de estrutura evidencia uma sociedade marcada pela precariedade, pelo abandono, pobreza e dificuldade. Os subúrbios revelam uma Inglaterra longe da perfeição, onde a presença da peste se instalará e a morte será presente constante.

Vanessa Ives (Eva Green) é uma mulher misteriosa, bela e sedutora. Sua expressão facial é seca e fria. Sua voz é poética e sua ousadia para enfrentar o que não se compreende é assustadora. A impressão que se tem é que ela sabe que possui uma força interna que a move e a protege. Ela trabalha para Sir Malcolm Murra (Timothy Dalton), aventureiro que obteve sua riquezas com a exploração de terras longínquas da África, mas que ao final de sua vida, colecionou solidões, perdas e mortes. A filha, grande amiga de Vanessa, foi raptada por uma criatura desconhecida que pertence as trevas mais escuras da noite. Desejando revê-la, juntará um grupo de pessoas para romper as fronteiras do dia e adentrar num mundo sombrio.

Dentre estes que ajudarão a Malcom está Ethan Chandler (Josh Hartnett). Vindo dos Estados Unidos por motivos desconhecidos, aceita trabalhar em troca de dinheiro, para ajudar seu interesse amoro, Brona Croft (Billie Piper). Chandler tem um passado que não sabemos e deste não teremos conhecimento, a não ser pela cena final da temporada. Ele possui um lado com a fé que não compreendemos já que possui uma grande função no penúltimo episódio do primeiro ano.



Brona é uma prostituta marcada pela morte por ter tuberculose. Não há chances de cura para ela, o que ela faz é apenas tentar se manter viva. Noite após noite trabalha vendendo o corpo, se negando aos seus sonhos e desejos. Encontra em Chandler uma possível esperança e conforto.

O jovem Dr. Victor Frankenstein (Harry Treadaway) é outra figura enigmática. Atraído pela morte, tem no seu passado as respostas por esta atração tão doentia e voraz. Ele é o responsável por dar a vida a um ser, uma criatura (Rory Kinnear), entretanto será assombrado por tal criação. Um pai, um monstro, uma vítima da vida. Com Malcom adentrará um mundo desconhecido e descobrirá verdades antes nunca tocadas. Como a morte faz parte de sua vida, o temor não estará sobre ele. Nunca sabemos quais são seus motivos ou razões, pelo que vive ou pelo que luta. Outro personagem que terá sua participação na temporada, mas sem mostrar a que veio é Dorian Gray (Reeve Carney). Dotado de beleza e juventude, ele terá um envolvimento com todos os personagens da série, mas será atraído fortemente por Vanessa.

O que rege este primeiro ano é a busca de Mina, a filha de Malcom. Ela está sob as forças de um mestre que não sabemos quem é. Protegendo a este mestre, há varias criaturas que rondam toda temporada, vampiros. Estes seres, nós já temos uma ideia do que sejam, porém os personagens desta série ainda não. Nesta época, estas criaturas vivem sob a escuridão, mas ninguém ainda tem conhecimento sobre sua existência. Rastros de mortes são deixados por eles, e por outras criaturas, mas quem provoca tais assassinatos, além dos vampiros, não sabemos.





Algo de mistério envolve Vanessa, seu passado e este possível mestre. Algo a deseja, deseja o que ela esconde ou que ela renega. Nesta primeira temporada conheceremos sua personagem, seus traumas, seu difícil passado e sua relação com o sobrenatural. 

Outro personagem que terá força neste primeiro ano é o jovem Frankenstein. Iremos ver seu passado e veremos como a morte desde cedo já se fez presente na vida deste garoto. É interessante notar que este seriado é protagonizado por figuras ligadas a escuridão, mas que nesta trama serão humanizados, dotados de sentimentos e medos.

Aposta do canal ShowTime, esta série mergulha profundo num mundo sombrio, escuro, onde os pesadelos se tornam reais. Dotado de uma bela fotografia de época, um figurino impecável e uma trilha sonora densa, Penny Dreadful nos arrebata. A abertura do seriado flerta com elementos da morte, do sobrenatural e do terror.

Os diálogos são densos, as referências aos personagens históricos das tramas de terror são revelados aos poucos e cada personagem guarda uma figura emblemática em si. Vanessa Ives percebemos que possui uma presença forte ao decorrer da temporada. Chandler ao final. O clima do seriado é o melhor, um clima frio, sempre pouco iluminado, sempre com cenários ganhando tonalidades escuras. Nem as gravações que são feitas durante o dia, exaltam a beleza do sol. A caminhada na praia é banhada por um céu nublado e acinzentado. É como se há todo momento o seriado nos remetesse a um mundo onde não há esperança, paz, ternura ou amor.





Neste universo de Penny Dreadful a dor move a todos os personagens. São pessoas movidas por seus desejos mais obscuros, que se entregam a estes sem vazão. Homens e mulheres movidos por incertezas, assombrados pelo passado, abandonados pela fé. O argumento do seriado é de John Logan, é dele todos os roteiros do seriado e a direção se subdivide entre a equipe de produção da trama. 

Penny Dreadful que tem um total de dez episódios, consegue manter uma tensão do começo ao fim do seriado. O penúltimo episódio intitulado “Possuída” é um dos mais traumáticos, fortes e densos de toda temporada, sua tensão cresce conforme os fatos vão avançando chegando a um clímax sem saída. A segunda temporada está mais do que confirmada e os segredos envolvendo outros personagens serão aos poucos sendo revelados, com a importância de cada sendo desenvolvida dentro da mitologia da série. 

Assim caminha essa série, envolvendo terror, seres marcados pela dor, raiva, rancor. Personagens abandonados a própria sorte, sem ter um consolo, fé ou algo que os proteja. Este seriado consegue invocar uma sobre a sociedade da época um pessimismo impressionante, ao mesmo tempo que atraente, por meio de uma beleza gótica, estranha e bizarra.



terça-feira, 5 de maio de 2015

Praia do Futuro


A dor de quem parte, a dor de quem fica

Em “Praia do futuro”, novo drama de Karim Aïnouz, o cineasta traz para as telas do cinema dois rumos de sua cinematografia. De um lado vemos todo sofrimento de Donato (Wagner Moura), que deixa sua cidade, sua família, sua vida e parte para a Alemanha, uma terra distante, uma língua diferente, juntamente com Conrad (Clemens Schick). Posteriormente, vemos a dor de  Ayrton (Jesuíta Barbosa), o irmão que é deixado, abandonado e renegado. Ao ir de encontro com Donado, temos estas duas dores face a face. Toda verdade não dita por anos será bradada em silêncio.

Donado é um salva-vidas no Ceará. Nunca falhou em missão, entretanto tudo nessa vida tem sua primeira vez. Quando dois turistas entram nas águas perigosas da Praia do futuro, eles se afogam. Donado faz todo possível e consegue salvar Conrad, porém seu amigo se perde nas águas do mar.

Após Conrad ser medicado e liberado, Donado tenta ajuda-lo em tudo que pode, inclusive na busca do seu amigo. Nesse momento, percebemos entre eles uma troca de olhares, um jogo de insinuações e palavras. O fato não demora e os dois já se lançam numa relação sexual que não poupa na agressividade. Após isso, mantém a amizade, as conversas, o entrosamento. Não há muitas palavras entre eles, nem há essa necessidade.

Quando Conrad precisa voltar a seu país ele convida o brasileiro para ir junto com ele e assim ficam por semanas juntos. Porém tudo uma hora chega ao fim e as férias de salva-vidas também. É onde Conrad pede para que ele fique com ele na Alemanha. Aí vemos a primeira decisão forte de Donado: ficar com o homem que sente um sentimento que vai além da atração e deixar toda sua vida para trás ou voltar para sua terra, para a sua vida.



A cena que representa essa escolha representa também muito bem o cinema deste diretor. Sem palavras, sem diálogos, apenas pelos gestos, pelo olhar, pelo sorriso, sabemos o que Donado deseja e escolhe e em consequência, renega.

Tempos se passam e seu irmão Ayrton chega a Berlim a procura de Donado. Reservado e calado, carrega consigo a dor de ter sido abandonado e o mais difícil, sem saber os motivos para tal abandono.

Esta é a segunda parte do longa, neste momento conhecemos melhor Ayrton, e a partir deste instante, acompanhamos sua jornada, seu silêncio e suas dores. Ao ver om irmão vem a raiva, a dúvida, as perguntas e as agressões. Todas as perguntas querem serem respondidas, mas há respostas para tais questões?

O cinema de karim é composto pela dor do abandono. Se em “Céu de Suely” vemos a dor de quem parte, da garota que vai em direção à cidade grande deixando para traz vidas, família e amores, em “Abismo prateado” vemos a dor de quem fica, de quem é abandonado e precisa reconstruir sua vida diante do caos que se encontra.

Em “Praia do futuro” temos estas duas dores entrando em colapso, num confronto, num conflito. Não há como entender tais motivos, não há como explicar tais ações. Apenas sentir, um sentimento de que nos toma, nos fere e nos leva a percorrer caminhos antes nunca percorridos e a mergulhar profundo em sentimentos tão complexos de dor a raiva, a paz e refrigério.




O longa trabalha com naturalidade e honestidade o tema da homossexualidade e ainda age com ousadia ao escalar Wagner Moura como Donado, um salva vidas sério, discreto que se envolve sexualmente com outro homem.

Detalhes a parte, essa drama trabalha com a dor, poderia ser um casal hétero, ou não, isso é a estrutura de menor importância nesta película. Karim tem uma delicadeza com as imagens impressionante, um trabalho com o silêncio e os ruídos que nos assombra, essas melodias são verdadeiras mensagens dentro do cinema.

As imagens representam e dão voz as palavras que não conseguimos dizer. São expressões de nossa inconsciência, de nossos sentimentos que são tão subjetivos quanto o sopro de vida. Estas imagens representam esta dificuldade em falar, em dizer, em se expressar. Quando não há palavras para expressar o que sentimentos, o melhor é ficar calado e é isso que estes personagens fazem. Ficam calados diante da perda, da morte, do amor e do abandono, mas em contraposição seus gestos expressam, falam, comunicam e gritam.

Ayrton e Donado possuem um passado que devem ser revisitado, um presente que precisa ser compreendido e um futuro que necessita ser construído. Não há como mudar o passado, como remediar o que se foi ou apagar o que aconteceu. O tempo perdido ficará para sempre perdido. Donado tem esse conhecimento, seu irmão apesar de ter sido tomado pela raiva também possui essa ideia. O que fazer diante de tal fato? Perguntas e mais perguntas que jamais se terá uma resposta de fato. A cena final vislumbra este caminho, uma estrada, sem um horizonte certo, carregada de neblinas, duvidas e incertezas, mas que são percorridas por estes três homens.

No elenco, Wagner Moura e Jesuíta Barbosa dão dramaticidade e o peso que o filme necessita, mais a delicadeza da direção de karim confere sobriedade, ternura e suavidade a este filme.




quinta-feira, 16 de abril de 2015

Fringe: Acredite no Impossível



Acredite no Impossível

Criação de J. J. Abrams, essa série mergulha profundo num mundo desconhecido, onde toda verdade é apenas um ponto de perspectiva e toda realidade não é apenas uma mera realidade.

Após Arquivo-X, o mundo das séries nunca mais foi o mesmo. Se antes deste seriado, o universo destas estava apenas moldado por comédias simples e escrachadas, com duração de apenas meia hora e sem ter uma trama que interligasse os episódios, depois de Arquivo-X, as estruturas destes seriados mudaram drasticamente.

Com uma trama baseada nas mais profundas teorias de conspiração, envolvendo mitologias, espíritos, ocultismo e toda sorte de crenças que estão longe da realidade, Arquivo-X abriu um caminho para as mais diversas séries ganharem vida. Exemplos não faltam: Lost, Angel, True Blood, Supernatural, Guerra dos Tronos, Penny Dreadful.

Episódios densos, calcados no suspense, com personagens emblemáticos e contraditórios, com segredos e verdades. Com cerca de duração de uma hora cada episódio, este seriado durou nove anos. Apesar de ter um final que não foi o esperado, marcou para sempre os rumos dos seriados. Entretanto, nenhuma seria de ficção conseguiu ocupar o lugar deixado por esta série.


Fringe nasce com essa premissa, uma trama de ficção calcada em episódio fechados (começo, meio e fim) e que ao final, estão interligados com uma história maior que rege toda a temporada.
Criação de J. J.  Abrams, o mesmo criador do seriado odiado e amado aos extremos, Lost, Fringe caminha entre o drama, suspense e ficção e nos entrega um seriado profundo, complexo, com personagens marcantes, emblemáticos e que caminham numa linha tênue entre o bem e o mal, movido por desejo e amor.

Não há vilões de fato nesta história, não há heróis, há homens e mulheres tentando se manterem vivos. Apesar de se ter toda uma ficção que rege a série, um tema simples interliga todos os episódios que é o sentimento de redenção. Um seriado extremamente humano estruturado na mais pura ficção.

A sinopse num começo é simples. Após um acidente de avião onde toda tripulação foi achada morte, os agentes Olivia (Anna Torv) e John (Mark Valley) são encarregados de investigar o caso. Quanto mais investigam, mais se deparam com um mundo desconhecido.

Olivia descobre que há mais casos que nem estes, sem uma explicação de fato, que seguem certo padrão, dando a entender que estão interligados por algo maior. Então esta agente se depara com uma nova recente subdivisão criada pelo FBI chamada Fringe.

Essa nova organização tem como meta tentar solucionar casos não explicados pela medicina ou pela investigação comum. Quando seu parceiro é contaminado pelo vírus que matou a todos a bordo no avião, Olivia vai precisar da ajuda de um médico especialista neste assunto, o cientista Dr. Walter Bishop (John Noble). Ele está internado há vinte anos num hospital psiquiátrico. Seu único contato com o mundo externo é seu filho, Peter (Joshua Jackson).

Com a ajuda de Peter e Bishop, Olivia então parte para desvendar os casos mais estranhos, as mortes mais bizarras e as explicações mais fora do padrão da racionalidade humana. Durante as investigações, o departamento Fringe irá se deparar constantemente com a empresa Massive Dynamic, dirigida por Nina (Blair Brown), antiga amiga de Bishop. Neste sentindo, eles nunca sabem se Nina está de fato os ajudando ou apenas protegendo os interesses particulares da empresa.



No primeiro ano, a série começou bem, porém perdeu em audiência e qualidade. Entretanto após sua segunda temporada, todo roteiro foi reestruturado e percebeu-se um novo clima na série. O seriado finalmente achou seu ponto e seu caminho.

Na primeira temporada um vilão é revelado, no segundo, percebe-se que o problema que cerca a todos os personagens é muito mais emblemático. Na terceira temporada, universos se cruzam, neste momento a série alcança seu ápice. No quarto ano, toda a história é refeita e sentimos um recomeço, entretanto é um recomeço marcado por feridas do passado. É estranho e diferente, os roteiristas ousam com a trama e entregam um ano cheio de mudanças que conseguem dar conta de toda história. E na quinta temporada, os verdadeiros vilões são revelados e a série consegue encaixar num arco fechado todos os fatos acontecidos desde a primeira temporada ate a última, mostrando que todas as cinco temporadas caminharam de acordo com a trama original.

Alguns episódios são verdadeiramente belos, outros comoventes e todos os elementos cinematográficos apenas ajudam da melhor forma possível na construção deste seriado. Temas como amor, perdão, desejo, culpa, frieza e raiva são trabalhados na história. Conseguimos nos identificar com seus protagonistas e com cada personagem que cruza o caminho destes.

Um ponto que o seriado sempre trabalha é que toda ação gera uma reação e toda escolha gera uma série de consequências que não podemos controlar, apenas aceitar da melhor forma possível. Algumas verdades ou fatos não compreendemos de inicio, mas somente quando o tempo que nos cerca e nos move passa, é que percebemos como chegamos onde chegamos e sofremos o que sofremos. É como se tudo tivesse um motivo de fato e que nada fosse pelo mero acaso.



Predestinação, talvez destino, talvez apenas a vida. Assim Fringe move seus personagens. Sentimentos tão simples e tão complexos move a todos e ao final, o que prevalece é a tentativa de um personagem de sentir-se livre do peso das suas escolhas, livre dos fantasmas do seu passado. Culpabilidade, perdão e redenção. Sentimentos que nos cercam e nos moldam, também moldam a estes personagens.

O drama está no cerne da série e são os dramas de todos os personagens que vemos no decorrer das temporadas. É interessante ver como a complexidade da série ganha força, folego e vida com o passar dos episódios.

Da terceira temporada em diante, todos os casos conseguem trazer para o centro da investigação algo que está relacionado ao drama que rege Fringe. É como se a cada episódio, fosse revelado qual é o grande mal que nos cerca, mas ainda estamos imaturos para percebê-lo.

Alguns episódios ganham destaque, seja perca sua carga emotiva como pela sua execução. Perdão, redenção, acolhimento, aceitar a si mesmo, em suas mais complexas limitações, são estes os temas que Fringe trabalha e foca.

O mundo gira e nós somos marcados pelas nossas escolhas. Universos se cruzam, pessoas morrem e o motivo que está interligado a tudo isso é tão simples que parece ser bobo. Mas assim é a vida, quando vemos de perto, toda simplicidade ganha complexidade e notamos que nada que parece ser, de fato é.


A verdade é um ponto de perspectiva. 



sábado, 11 de abril de 2015

True Blood - Temporada Final



Quando cessa o temporal, o sol volta a brilhar.

Em sua sétima e última temporada, True Blood traz para o centro da trama uma história simples, calcada em seus personagens, dramas e temores. Não, não há grandes batalhas ou vilões que vão além da nossa compreensão. Apenas o homem frente ao seu maior temor, a morte. Perdão e redenção, vida e morte dão o tom a essa temporada.

Sookie Stackhouse (Anna Paquin) está num relacionamento estável com Alcides(Joe Manganiello). Sua vida envolta com os vampiros ficou no passado. Sam (Sam Trammell), agora como prefeito de Bom Temps, com a ajuda do reverendo Daniels (Gregg Daniel) e do vampiro Bill (Stephen Moyer) colocam em prática uma ideia perigosa. Frente ao crescente ataque de vampiros às cidades, devido a disseminação do vírus hepatite V, os três se unem com um propósito: para cada humano sadio, um vampiro sadio. Nessa relação, o humano lhe dará do seu sangue e o vampiro sua proteção.

Tudo segue certo para a concretização desse plano. No restaurante de Arlene(Carrie Preston) todos os preparativos estão feitos para os pactos serem realizados. Entretanto um grupo de vampiros contaminados invade a festa provocando morte, perdas e dúvidas. Entre os que morrem está Tara (Rutina Wesley), entre as sequestradas por estes vampiros estão Holly (Lauren Bowles), Arlene.

Após esse incidente, os ânimos se afloram e todos nesta cidade se deparam com o medo, o caos, a incerteza e a violência. A quem culpar por todas as mortes? Sookie. Ela é a culpada por todos os atos que aconteceram nesta cidade. Nada mais justo, afinal, foi após a chegada do vampiro Bill na vida dela e desta cidade que tudo mudou. Correndo por fora temos Pam (Kristin Bauer) em busca de seu criador, Erick (Alexander Skarsgård) e se deparando com uma dura realidade para seu criador.



É com esta temática simples, porém focada nos personagens que True Blood entrega sua última temporada. Ninguém vive para sempre. Esta é a única certeza que temos e será esta certeza que guiará a todos os personagens. 
Quando True Blood foi lançada há sete anos, os vampiros estavam na moda. Nos cinemas, a saga Crepúsculo ganhava seus fãs. Na tv “Diários Vampíricos” mostrava sua força entre os adolescentes. Neste território fértil, surge True Blood com uma temática ousada, nova, mergulhada em cenas quentes e fortes, onde o sexo e o sangue mostram sua cara.
A série começou bem, alcançou seu ápice na segunda temporada. Entretanto, após o terceiro ano se perdeu em tramas, subtramas e muitos personagens. O quarto ano trouxe um pouco de paz e calma ao seriado, promovendo uma temporada mais intimista, terna, sensível e tocante. O quinto ano novamente estragou tudo. Coube ao sexto ano do seriado arrumar a casa e preparar o terreno para a última temporada.
Neste sétimo ano, True Blood começou genial. A temporada por ter apenas dez episódios, mostrou um enredo que não tinha tempo a perder com nada. Talvez seja porque vi o seriado após ele ser encerrado, já sabendo com antecedência o que viria. Talvez seja porque vi os episódios numa sequencia única, ou sei lá, mas particularmente considerei a temporada boa em todo seu contexto. Houve falhas, entretanto houve muitos acertos.



Com a disseminação do vírus, um medo se alastrou por todos da cidade. Quando o medo prevalece, o caos mostra sua face e o pior do homem também. Os vampiros contaminados foram representados num primeiro momento como zumbis, seres sem consciência com apenas um instinto, permanecerem vivos. 

Porém, com o desenrolar dos episódios vemos que eles em nada mudaram. Permanecem os mesmos vampiros de antes, apenas com um diferencial: sabem que irão morrer em breve e não desejam a morte verdadeira e para isso farão o que for possível. Ao vermos de pertos estes seres, vemos seus medos e temores e compreendemos sua situação.

A temporada tem esse arco, os vampiros contaminados, como o principal arco da série e é este que une a todos os personagens. Essa trama dura até o quarto episódio, sendo encerrada ainda no começo. Até este presente momento, a série se preocupou em dar uma guinada na série, eliminar personagens e unir as tramas e deu certo. Esta trama conseguiu dar motivo, razão e existência a tantos personagens. Fazia tempo que não víamos todos os núcleos centrados numa única trama. No primeiro episódio tivemos o caos instalado, no segundo a certeza do que acontecerá a cidade de Bom Temps caso os moradores da cidade não façam nada. No terceiro tivemos mais uma morte e a libertação de Holly e no quarto o fechamento deste arco. 

Além do mais, esse arco foi belamente usado para nos mostrar como o “outro” pode ser construído diante de nós. Quando vemos de perto esse “outro”, este desconhecido, vemos que nada ele difere de nós. Neste sentindo, colocamos sobre o “outro” nossas próprias características e particularidades.




Após o quinto episódio, o que tivemos foi um encerramento de todos os personagens em seus respectivos arcos e dramas.

Tara e Alcides foram personagens que tiveram sua morte repentina. Foi algo que causou surpresa, entretanto era algo esperado, já que ambos os personagens não tinham mais o que agregar ao enredo da série. E eles também foram usados para mostrar como a morte é em nossas vidas, quando ela chega, ela simplesmente chega e não há nada que podemos fazer para mudar ou modificar isso. Apenas aceitar e viver o luto e a dor.

Tara ainda em espírito permaneceu na trama para encerrar um drama muito comovente, o de sua mãe. A relação dela com sua mãe sempre fora marcada por brigas e feridas. Por traz de toda dor sempre há um motivo, sempre e este foi revelado. Para que possamos continuar vivendo, é preciso aceitar a vida, aceitar as limitações, aceitar os traumas e deixar a dor nos tomar, como um rio que percorre todo o nosso ser. 

True Blood sempre focou neste tema, continue vivendo, continue respirando, apenas continue, mas antes que possamos continuar, é preciso aceitar que o passado não se pode mudar, apenas o nosso presente e futuro.

Jessica (Deborah Ann Woll) também caminhou por este percalço e seu reencontro com Hoyt (Jim Parrack) foi uma mostra que a vida é feita de momentos e reviravoltas que não podemos controlar. O que fazer diante da morte, do amor, da vida. Nada, apenas aceitar, da melhor forma possível aceitar. O mundo não para diante de nossa dor. Seu desfecho com Hoyt foi um dos mais ternos de toda série.



Dentre tantos encerramentos de arcos, o que mais chama a atenção é para Bill e Sookie. Quando passa o temporal, o sol volta a brilhar. Sookie é uma fada, tem a capacidade de ler mentes, ouvir os pensamentos de todos os que estão a sua volta. Quando chega a sua cidade Bill, seu mundo entre num profundo caos e toda cidade materializa essa mudança, esse caos, essa transformação. Para se ter a ordem, necessitamos do caos, para percebemos quem somos, o que realmente desejamos e queremos nessa vida.

E assim essa personagem percorreu por estes sete anos. Ao final, não haveria como dar continuidade a este casal. Bill representava na vida dessa fada o perigo, a morte, o medo e o passado. Ela se libertar dele é se libertar de todos os males que assombram sua vida e aceitar sua condição enquanto ser que é. Durante toda temporada, Sookie sempre desejou ser normal, ter uma vida pacata. Ao ter essa possibilidade, ela viu diante de si o que estava prestes a perder e quem realmente era em toda essa história. 

Assim ela se transformou de vitima, moça em perigo à uma garota com certeza do que quer, dos poderes que tem e da força que possui. Deixar de lado esse lado “vitima” é algo complicado. Quando aceitamos que somos nós que fazemos nossas escolhas e nos responsabilizamos por nossa vida, deixamos de sermos seres passivos com relação a vida e no tornamos pessoas ativas com relação ao nosso destino. Esse foi o caminho dessa fada, dessa telepata.

Tirando toda essa metáfora sobre a vida, True Blood entregou um sétimo ano básico em suas ações. No centro da trama, temas como preconceito, intolerância se fizeram presente, mas em menor escala. O motivo para a existência dessa temporada foi apenas o de finalizar estes arcos e dar uma morte verdadeira a toda temporada e assim foi. Cada personagem se deparou com seus sentimentos e nada muito grande foi criado, ou muito comovente. Arlene e seu novo caso amoroso, estabelece uma relação com ele, em apenas uma frase "tenho hepatite V, não podemos transar". E assim essa história segue.


Ao final, a cena final é a que prevalece: todos sentados a mesa comemorando a vida, a morte, a dor. Como um banquete a vida, com elementos que nos remetem a vida e elementos que nos remetem a morte. Ou seja, o amor é a morte verdadeira.