quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Enquanto somos jovens'


Enquanto somos jovens, enquanto somos novos, enquanto somos muitas coisas ....

Em seu mais novo drama, Noah Baumbach traz para o centro da trama uma história tocante, terna, simples e cativante sobre um casal em plena crise de idade. Na casa dos quarenta anos, Cornelia (Naomi Watts) e Josh (Bem Stiller) possuem uma vida estável, bem estruturada, mas ainda falta algo. Eles são antenados as tecnologias, adoram sair em amigos, mas a idade não é como antes e o corpo já declama isso.

Josh é professor de cinema, está produzindo um documentário e está neste trabalho há dez anos. Nunca consegue finalizá-lo. Motivos são vários, medo de ser avaliado, de se perceber que não é tão bom quanto imaginava. Cornelia trabalha como editora de vídeos e seu pai é um grande documentarista. Por conta disso, a relação entre Josh e o pai de Cornelia nunca se dá de forma amigável.

Em uma de suas aulas, ele conhece um casal de jovens, Darbie (Amanda Seyfried) e Jamie (Adam Driver), dois jovens casados. Sempre sorridentes, sempre carismáticos, estes dois são o oposto de Josh e Cornelia. Possuem uma atração pelo passado, desprezam as tecnologias e tentam aproveitar os poucos momentos da vida de forma mais intensa.

Nesta relação de oposições, estes quatro jovens se relacionam, se entendem e trocam suas experiências. Jamie, assim como Josh, aspira a ser um grande documentarista e tem uma ideia diferente para a produção de um documentário. Josh acha a ideia um pouco estranha, mas resolve ajuda-lo nessa empreitada. Entretanto, quando os rumos deste documentário tomam proporções diferentes, começa a surgir entre estes dois amigos sentimentos de inveja, desconfiança e inimizade.



“Enquanto somos jovens” traz para o centro da trama vários questionamentos que nos envolve. Noah em seu mais novo drama faz uma referência há vários temas: o uso excessivo das tecnologias e como estas estão ditando as regras de nossas vidas; o medo e a insegurança que sentimentos com o tempo; a não aceitação da velhice e o medo de não realizarmos tudo o que havíamos planejados.

Noah possui uma carreira mais calcada no cinema independente. Seus filmes são sensíveis, trabalha sempre com beleza as complexidades de seus personagens, nada é tão simples de análise e este diretor coloca seus personagens ora em momentos desconfortáveis, ora em momentos tocantes. Seus personagens são movidos por dores, receios e medos.       

“Frances Há”, seu filme anterior, caminha neste sentindo. Se lá a personagem principal tinha que se deparar com uma verdade que causava uma certa dor, neste novo drama, Josh possui um desejo, mas ele sabe que no fundo não é excelente no que faz, sabe que não realizou todos os sonhos da forma como queria e sabe que não irá realizá-los. Aceitar o que tem, perceber a vida em sua simplicidade e suas qualidades, este será o caminho que este homem irá traçar.



Em seu filme mais comercial, “Enquanto somos jovens” tem ares de cinema alternativo. Com uma trilha sonora muito bem modulada e estruturada, uma bela fotografia e atuações esplêndidas, este drama nos toca.

A história é simples, porém muito bem construída. Há algo que podemos perceber de errado na perfeição toda em Darbie e Jamies, e aos poucos, conforme vamos percebendo as verdades e mentiras, vamos compreendo quem são estes dois jovens e por consequência, quem são Josh e Cornelia.

Este drama trabalha com maestria e beleza os contratempos da vida, suas desilusões,  frustrações e ambições. Nunca teremos que desejamos ter, nunca seremos completamente perfeitos ou inteiramente felizes. O que fazer diante de tal verdade, diante de tais fatos? É algo complicado, cada um tem seu caminho e “Enquanto somos jovens” tenta encontrar uma resposta para estes dois personagens. O final do longa não é grande, não há um desfecho de fato, mas é condizente com que o diretor deseja retratar ou abordar. Apenas isso, a vida.




segunda-feira, 27 de julho de 2015

Acima das Nuvens .....


              Acima das nuvens, acima do tempo, acima das preocupações que nos cercam. Quando o tempo chega sobre nós, ele chega sobre nós. Mudamos nossa perspectiva ou permanecemos com os mesmos pensamentos? E as dores, elas ainda nos tomam com a mesma intensidade?
“Acima da nuvens” traz para as telas do cinema um jogo de metalinguagens em que ilusão e realidade se misturam num entrelaçamento sem fim. Onde começa a ilusão? Onde termina a realidade?
Maria Enders (Juliette Binoche) é uma atriz que teve grandes momentos no cinema. Ela está prestes a receber um prêmio em nome de um consagrado diretor da qual ela fora amiga. Ele foi o responsável por colocá-la em evidência devido a personagem Sigrid que ela viveu na peça.
Há vinte anos, Maria dava vida a Sigrid, uma mulher jovem, sedutora, voraz e intensa que se envolve com sua chefe, Helena, uma mulher mais velha. Na peça, as duas desenvolvem uma relação destrutiva que leva Helena a cometer o suicídio. Após esta peça Maria obteve o reconhecimento da crítica e desde então se enveredou por um cinema mais comercial.




Passado vinte anos, o diretor que também é um grande amigo dela, falece e um novo diretor assume a responsabilidade a reencenar a peça teatral que dera sucesso a Maria. Entretanto, nesta nova versão do diretor, ele pede que Maria assuma o papel de Helena, a mulher mais velha e amarga que se vê perdidamente apaixonada por Sigrid. Sua assistente, Valentine (Kristen Stewart), orienta a aceitar a peça, mesmo que isso signifique encarar a velhice, pois na visão dela, este é um dos melhores papeis que apareceram para ela há anos.
Mesmo a contragosto, Maria aceita, e as duas partem para a antiga casa do diretor para ensaiar a peça. Maria encarnando Helena e Valentine declamando as falas de Sigrid. Neste jogo de atuações, conflitos emergem e nunca sabemos o que de fato há entre elas.
“Acima das nuvens” nos brinda com uma trama rica, complexa e profunda, onde personagens se misturam, vida real e a vida das personagens se mesclam constantemente numa teia de relações e o mais interessante, as próprias atrizes que encarnam estas personagens também tem traços de suas vidas acopladas as da personagem.
Maria após o seu reconhecimento da crítica, perambulou pelo cinema de Hollywood para obter mais fama e dinheiro. Não diferente de Juliette Binoche, atriz de peso e destaque que ora ou outra vemos atuando em algum filme dos Estados Unidos, talvez por dinheiro, talvez por fama ou por tantos outros motivos que não venhamos entender, em papeis as vezes que carecem de profundidade. Kristen Stewart, atriz reconhecida após o sucesso da saga Crepúsculo, apesar de estar associada ao cinema comercial, em certos momentos se lança em pequenas produções independentes. Nos diálogos com Maria, a própria Valentine faz referências a estes filmes, debochando de tais produções. Chloe Grace Moretz, atriz que interpreta Jo-Ann, a atriz que dará vida a Sigrid na nova versão da peça, assim como em seu papel no filme, é talentosa, mas só obteve reconhecimento da crítica depois de estar em um filme de super-heróis.



Estas referências estão constantemente no drama, se estruturando e construindo a trama, enriquecendo os diálogos e construindo uma constante de humor, ironia e assimilações. Há neste filme um jogo de interações entre Maria e Valentine que muitas vezes encarna a própria relação de Helena e Singrid. A jovem assistente que está há todo momento com sua chefe a guia em suas escolhas e de certa forma, a manipula também.
Maria possui uma visão sobre Helena que não a faz sentir bem com relação a peça. Em sua visão, Helena é uma mulher amarga, que teve sua vez, sua chance e seu tempo, uma personagem frágil e fraca. Para Valentine, Helena é tão forte e sedutora como Singrid, porém com suas diferenças. Este entrelaçamento, essa mudança, provoca em Maria uma série de dúvidas, incertezas e mal-estar.
Durante as encenações, as duas mulheres se chocam, se questionam, se esbarram em seus gostos e opiniões. Conflito, todo o drama se rege sobre conflitos e incertezas. O tempo que nos cerca, que nos toma e que nos molda. O tempo, sempre o tempo. Ele veio sobre Maria e lhe causou marcas, as marcas do tempo e da velhice. Entretanto, ela não aceita, não reconhece e aceitar dar vida a Helena é encarar essa dura verdade e se ver no espelho. Porém é também ver Singrid, a personagem que tanto amara, por outra ótica e perceber nela, ações e reações dela ainda quando jovem, ações estas que Jo-Ann comete em sua vida.



É neste jogo de relações que se encontra a beleza do drama. É no desenvolvimento destas duas atrizes, Maria e Valentine, que todo o drama se estabelece. Jo-Ann surge ao final, confirmando os desentendimentos, materializando as contradições e estabelecendo as fronteiras. Maria se perde em sua vida, em seus valores, em seus desejos, em seus medos e vê em Valentine a juventude que não possui. O longa denota de forma sútil uma forte aproximação entre as duas, uma aproximação talvez sexual, talvez sentimental, talvez não. As duas se conhecem perfeitamente e sabem o que sentem. Talvez haja um desejo entre ambas que não se concretize, mas sempre fica no campo do imaginário, sendo alimentado pela troca de olhares entre as duas.
Uma bela trilha sonora guia o filme, belas paisagens norteiam o drama. Um horizonte vasto está presente constantemente na trama, sugerindo algo que está lá distante, que não podemos ver, mas que aos poucos, conforme caminhamos, vai tomando forma, como a vida, como a verdade que somente com o passar dos anos, podemos ver com clareza, com mais serenidade e racionalidade.
Acima das nuvens representa, dentro do filme, uma carga de nuvens que perambula pelas alturas das montanhas. Elas caminham parecendo uma serpente, anunciando futuras tempestades. Ninguém sabem como se formam, mas elas se formam. Assim é a vida, assim é o tempo, que age sobre nós, e não o percebemos. Ele não tem forma e não o vemos com total exatidão, na verdade, muitas vezes nem o percebemos. Ele anuncia mudanças, tempestades e somente quando paramos e sentimos seu agir, vemos de fato sua presença.
Assim é “Acima das nuvens”, um drama cheio de nuances que se apega ao um jogo de ilusões e verdades que se complementam, se interagem e se chocam onde o tempo é o grande protagonista da história. As vezes se estabelece como vilão. Em outros momentos com o grande herói.  Em sua maior parte, como um personagem emblemático que não compreendemos de fato, mas apenas o sentimos constantemente, com uma presença forte e mais do que real.




quarta-feira, 10 de junho de 2015

Livre




O caminho da dor, o caminho da cura.

Como se levantar de traumas, como esquecer dores, como seguir adiante quando o passado está intimamente preso ao presente. A dor nos toma por diversos modos, por diversas faces e quando não a enfrentamos, mergulhamos num profundo mar sem fim.

Se levantar de tal constância significa muitas vezes trilhar caminhos complexos, difíceis, dolorosos, onde há dor está presente e somente ela nos despertará para a vida. Mas não a dor da morte em vida, mas a dor que nos faz perceber estar vivos.

Cheryl Strayed (Reese Witherspoon) perdera a mãe ainda recentemente. Sua mãe, Bobbi (Laura Dern), era sua base, sua guia, sua estrutura. Mesmo que as relações entre as duas sempre fosse marcada as vezes por severas discussões, a relação entre ambas ainda sim era marcada por uma cumplicidade.

Após a morte de Bobi, Cheryl se lança num mundo de drogas, bebidas, perdições e prazeres. Mesmo sendo casada, se lança cada vez mais em relações extraconjugais com uma única finalidade, se subjugar, se culpar, condenar-se a si mesma.

É neste ponto que então decide trilhar 1.800 quilômetros na Pacific Crest Trail americana. Uma trilha perigosa, cansativa e desgastante. Nesta empreitada, ela se colocará no limite das suas condições físicas, provando das suas forças e fraquezas, se apegando as suas lembranças e ao seu passado, confrontando as suas dores.


“Livre” caminha entre o passado e o presente, se intercalando constantemente num ritmo frenético. Oras vemos cenas de seu presente, de sua caminhada e das dificuldades em prosseguir adiante, ora vemos cenas do passado, quando sua mãe ainda estava viva, ou quando estava lutando contra o câncer.

Como um mosaico, um grande quebra cabeças, vamos conhecendo melhor esta personagem e vamos compreendendo melhor os motivos que levaram esta mulher a percorrer tal trilha, tal caminho. É como se tanto nós, que estamos vendo ao filme, quanto a própria personagem, vai entendendo de fato o que aconteceu a sua vida, as escolhas que fez, os caminhos que percorreu. Seu passado se revela a nós, revela a esta personagem.

É interessante perceber essa estrutura da montagem, como o diretor nos revela o inicio do longa, com , Cheryl gritando fortemente no penhasco de uma montanha. Após isso, sua caminhada até aquele momento em que a cena se inicia, alternando com cenas com sua mãe ainda viva. Mas tudo num primeiro momento parece muito confuso, muito emblemático. Nem ela, nem nós entendemos sua vida.

Aos poucos, o diretor percorre seu passado. Aí conhecemos uma mãe zelosa, amorosa, que sofreu na mão do esposo, mas que mesmo diante da dor, encontrou forças para reestruturar sua vida. Uma mulher que sofreu com a notícia de ter um câncer e não sobreviveu a esta fatídica doença. Conhecemos essa jovem, , Cheryl. Uma garota que nunca teve uma relação próxima com a mãe, mas que ao vê-la doente e sentindo que poderia perdê-la, sentiu a dor da culpa. Culpa, este é o sentimento que percorre sobre todo drama. Uma culpa que a condena, que mata, uma morte em vida que se materializa em seus atos.



“Livre” caminha neste sentindo, é uma jornada em busca de se compreender. , Cheryl, diante de toda sua dor, se perdeu em sua vida. Passar por este caminho, por essa jornada, é sentir a dor da vida e diante desta dor, é sentir-se viva novamente. A dor nos move, a ferida por mais dolorosa que seja, nos faz perceber que ainda estamos vivos.

No percurso, ela olha para o horizonte, se questiona se este é o caminho a seguir mesmo, ou o certo a fazer, mas diante da dúvida, ainda segue. O peso da sua bagagem a limitam e dificultam sua caminhada e aos poucos ela percebe que é necessário deixar objetos pelo caminho, lembranças no percurso, para que somente assim venhamos conseguir viver. 

Esquecer às vezes pode ser um sinal de vida, de manter-se vivo. Somos uma soma de todas as nossas vivências, mas quando estas nos ferem, é preciso esquecer todas essas vivências, não dar importância, não dar valor e caminhar, mesmo chorando, mesmo sangrando e caminhar. Num certo momento lá na frente, iremos relembrar o trajeto que fizemos e aí neste momento veremos se tal lembrança, da experiência foi de fato importante e se foi, em que sentindo.

Cheryl caminha, se fadiga, mas ao final, ao atravessar uma ponte (sim, tinha que ser uma ponte, que talvez possa simbolizar um elo entre o passado e o que virá adiante) ela se sente cansada, mas ainda sim, sente-se viva. Este cansaço, toda sua dor, lhe fez recobrar a vida, a enxergar com clareza tudo que aconteceu a ela.


Este longa, “Livre” faz uma referência a outro drama “Na natureza selvagem” com direção de Sean Penn. Se neste drama o protagonista busca na solidão do Alaska um novo motivo para viver, em “Livre” a protagonista busca nesta jornada, uma ruptura com o passado, uma forma de manter-se viva.

No elenco, Reese Witherspoon se lança vorazmente para dar vida a esta personagem. Sempre lembrada por comédias frágeis e superficiais, neste drama ela deixa de lado toda sensualidade e beleza para enfrentar situações que lhe exigem força e resistência física. Uma atuação esplêndida que lhe garantiu mais do que merecidamente uma indicação ao Oscar. É interessante notar que, assim com esta personagem, esta atriz se desprende de todo o seu glamour e toda maquiagem, todo seu passado para encarar um presente diferente.

Na direção Jean Marc Vallee mantém uma estrutura interessante. É dele também o premiado “Clube de Compras Dallas” e também o excelente “C. R. A. Z. Y”  que foi muito bem recebido pela crítica. Dramas comoventes, com uma certa pegada melodramática, mas que conseguem caminhar bem entre o distanciamento e a proximidade, entre a manipulação de sentimentos e a neutralidade para com o espectador.



segunda-feira, 8 de junho de 2015

The LefTovers: Deixados para trás

 


Uma trama sobre a dor, uma história sobre o se calar

“The Leftovers” aborda uma história envolta da religiosidade, fé, fanatismo e intolerância. Quando num fatídico 14 de outubro simplesmente 2% da população desaparecem, o mundo entrou num profundo caos. Seria o arrebatamento proclamado pela Bíblia? Para onde foram levadas essas pessoas? Entretanto e os que ficaram como seguiriam adiante com suas vidas?

Passado três anos após este incidente, vemos uma pequena cidade de Nova York tentar viver reconstruir sua vida novamente, se reerguendo do luto deixado pelos que foram e tentando encontrar novas razões para suas vidas. Uma aparente calmaria está sobre toda a cidade, mas no fundo, todos ainda choram pelos seus, pelos que partiram.

Deixados para trás, é sobre eles que a série se centrará. Não importa os que foram ou o que de fato tenha acontecido, mas o que interessa nessa trama é tentar entender a dor dos que ficaram, dos que foram renegados, deixados e abandonados.

Kevin Garvey (Justin Theroux) é delegado na pequena cidade de Mapleton. Desde que seu pai teve surtos psicóticos e enlouquecera, ele assumiu a sua função. Apesar dele não ter nenhum membro de sua família levados neste episódio intitulado como “partida repentina”, teve sua família totalmente desestruturada. O filho mais velho, Tom Garvey (Chris Zylka), passou a seguir uma seita que tem como líder um homem que pensa ter poderes para retirar os fardos das pessoas. Laurie (Amy Brenneman), sua esposa, entrou para outra seita que fora criada após estes eventos, os “Remanescentes Culpados” e por fim, a filha Jill (Margaret Qualley) que cada vez mais está distante do pai e calada diante da vida.

No universo desta cidade, há ainda Nora (Carrie Coon), uma mulher que perdera todos os membros de sua família e desde então tem recebido a compaixão de todos. Meg (Liv Tyler), uma mulher que está tentando se levantar do luto. Ela perdeu uma pessoa próxima também nessa partida e ainda não superou a dor dessa perda. Sendo vigiada constantemente pelos “Remanescentes Culpados” encontrará neste grupo uma base para a superação dessa dor e por fim Matt (Christopher Eccleston), padre da igreja local. Sempre tentando ajudar o próximo, não aceita a explicação de que estes que partiram foram arrebatados por Deus.



Estes personagens representam esta cidade, uma cidade que está adormecida diante da dor, tentando se levantar do caos, tentando seguir com suas vidas, entretanto, nada será como antes, pois nada voltará a ser como era antes.

Baseado na obra de Tom Perrotta, autor renomado, também criador do aclamado romance “Pecados Íntimos”, esse romance tem como objetivo compreender a alma dos que ficaram. Para alguns, estes que sumiram foram levados aos céus, mas se foram e os que ficaram, ficaram entregues ao abandono de Deus? Porém, dentre os que desapareceram estavam assassinos, psicopatas, adúlteros, ou seja, aceitar a ideia do arrebatamento é ir contra tudo o que se acredita sobre o certo o errado. Mas se estes não foram arrebatados, então, o que aconteceu a eles? Essa é a dúvida que persegue a muitos, mas esta não é falada ou dita, mas apenas sentida, pensada, rememorada e bradada.

Quem assina a produção executiva deste seriado é Damon Lindelof, responsável pelo seriado odiado e amado aos extremos, Lost. Por ser um dos idealizadores de Lost, as ideias que estiveram presentes naquela série também se encontram nesta. Em toda temporada vemos elementos que nos remete a sinais, mitologias e segredos sendo lançados. 

Um “q” de mistério percorre esse fatídico dia. É um veado que sempre está a aparecer a Kevin. São os cachorros que mudam repentinamente, tornando-se animais perigosos e agressivos. São as visões e alucinações constantes deste delegado que denotam que algo muito grande e complexo está por traz destes acontecimentos. São os pombos e um olhar de epifania que acoberta a todos os personagens. Enfim, há toda uma construção simbólica sobre cada ato, sobre cada cena, sobre cada personagem, diálogo, música e nos remetendo a ideias e pensamentos.



Por mais que esta série se apoie fortemente na simbologia e nos mistérios, o que mais interessa a este seriado é abordar como a dor é sentida, como a perda é percebida pelos seus personagens. Cada homem e mulher se renega a lembrar a dor, o luto. Uma forma de defesa, uma forma de se manterem vivos. Ora, o que é a dor? Ela nos move, ela nos faz caminhar por estradas antes nunca seguidas, mas também nos fere diariamente, cotidianamente. Quando todas as dores cessam, ainda há este sentimento calado, tão sútil que faz transbordar sentimentos.

É sobre essa dor que esse seriado fala, toca, aborda e revela. O que os sujeitos da seita “Remanescentes Culpados” fazem é não esquecer a dor, mas antes, abraça-la ferozmente. Mas se estes a abraçam, não fazem isso para seguirem adiante, fazem isto para perderem seus sentimentos. Estes personagens não falam, toda sua comunicação se dá por meio de mensagens. O que eles querem é fazer com que todos da cidade não esqueçam essa dor, seus entes queridos, mas se lembrem, relembrem e sintam o luto. Eles não tem família, amigos ou laços de sentimentos, são paginas em branco, sem passado ou presente.

A temporada inicia com esta seita confrontando todos a lembrarem de suas dores e encerra com todos confrontados por este sentimento. Entretanto, relembrar aquilo que não desejamos é tão perigoso quanto esquecer.

O seriado possui uma trilha sonora instrumental fantástica. Numa análise primária, essa sonoridade tem como objetivo manipular os sentimentos, contudo se analisarmos com exatidão cada elemento sonoro, perceberemos que este instrumental entra como uma mensagem, como uma declamação do que não pode ser dito ou falado. 



Os próprios seguidores do “Remanescentes Culpados” não falam, ou seja, não expressam seus sentimentos, assim como todos os moradores desta cidade. Há uma dor que está sento sentida, mas não falada, uma mancha que está a vista, mas não sendo visualizada. E a música entra como uma declamação dessa dor, desse mal. Quando seus personagens querem dizer algo, mas não podem, por vários motivos, esta canção, esta sonoridade entra representando essa fala, esta confissão.

Outro elemento a ganhar força na série é a fé. A religião move a estes personagens. Mas é interessante notar como esta é provada. Para Matt, o padre local, o que eles estão vivenciando é um período de fé. Como manter sua crença quando tudo diz que nada mudará? Se houve um arrebatamento, eles foram renegados, se foram, por qual motivo? Por que seguir adiante? Elementos como o natal, família, solidariedade, esperança e milagre perdem sua força e são provados no fogo. Entretanto ao final podemos sentir um tom de otimismo envolvendo a todos os personagens, seja pela figura de um cão que muda suas atitudes, por um bebe que adentra a vida de uma personagem ou pela reconciliação que é feita entre os membros de uma família.


“The Leftovers”, novo drama da HBO, mergulha profundo em segredos, mistérios, predestinação, sinais e fé. Em meio a essa gama de complexidade, traz para o centro da trama a dor, a dor que nos move, nos toca, e nos transforma. Das ruínas, nascerá o novo. Do caos, haverá a ordem. Da dor, brotará a cura e a vida. 



terça-feira, 12 de maio de 2015

Penny Dreadful



Terror, suspense, escuridão. Uma trama envolvente e instigante.

Inglaterra, época vitoriana, época de medos e incertezas. Numa era escura e sombria onde a noite prevalece, figuras obscuras trafegam pelo imaginário popular. Nas cidades, a falta de estrutura evidencia uma sociedade marcada pela precariedade, pelo abandono, pobreza e dificuldade. Os subúrbios revelam uma Inglaterra longe da perfeição, onde a presença da peste se instalará e a morte será presente constante.

Vanessa Ives (Eva Green) é uma mulher misteriosa, bela e sedutora. Sua expressão facial é seca e fria. Sua voz é poética e sua ousadia para enfrentar o que não se compreende é assustadora. A impressão que se tem é que ela sabe que possui uma força interna que a move e a protege. Ela trabalha para Sir Malcolm Murra (Timothy Dalton), aventureiro que obteve sua riquezas com a exploração de terras longínquas da África, mas que ao final de sua vida, colecionou solidões, perdas e mortes. A filha, grande amiga de Vanessa, foi raptada por uma criatura desconhecida que pertence as trevas mais escuras da noite. Desejando revê-la, juntará um grupo de pessoas para romper as fronteiras do dia e adentrar num mundo sombrio.

Dentre estes que ajudarão a Malcom está Ethan Chandler (Josh Hartnett). Vindo dos Estados Unidos por motivos desconhecidos, aceita trabalhar em troca de dinheiro, para ajudar seu interesse amoro, Brona Croft (Billie Piper). Chandler tem um passado que não sabemos e deste não teremos conhecimento, a não ser pela cena final da temporada. Ele possui um lado com a fé que não compreendemos já que possui uma grande função no penúltimo episódio do primeiro ano.



Brona é uma prostituta marcada pela morte por ter tuberculose. Não há chances de cura para ela, o que ela faz é apenas tentar se manter viva. Noite após noite trabalha vendendo o corpo, se negando aos seus sonhos e desejos. Encontra em Chandler uma possível esperança e conforto.

O jovem Dr. Victor Frankenstein (Harry Treadaway) é outra figura enigmática. Atraído pela morte, tem no seu passado as respostas por esta atração tão doentia e voraz. Ele é o responsável por dar a vida a um ser, uma criatura (Rory Kinnear), entretanto será assombrado por tal criação. Um pai, um monstro, uma vítima da vida. Com Malcom adentrará um mundo desconhecido e descobrirá verdades antes nunca tocadas. Como a morte faz parte de sua vida, o temor não estará sobre ele. Nunca sabemos quais são seus motivos ou razões, pelo que vive ou pelo que luta. Outro personagem que terá sua participação na temporada, mas sem mostrar a que veio é Dorian Gray (Reeve Carney). Dotado de beleza e juventude, ele terá um envolvimento com todos os personagens da série, mas será atraído fortemente por Vanessa.

O que rege este primeiro ano é a busca de Mina, a filha de Malcom. Ela está sob as forças de um mestre que não sabemos quem é. Protegendo a este mestre, há varias criaturas que rondam toda temporada, vampiros. Estes seres, nós já temos uma ideia do que sejam, porém os personagens desta série ainda não. Nesta época, estas criaturas vivem sob a escuridão, mas ninguém ainda tem conhecimento sobre sua existência. Rastros de mortes são deixados por eles, e por outras criaturas, mas quem provoca tais assassinatos, além dos vampiros, não sabemos.





Algo de mistério envolve Vanessa, seu passado e este possível mestre. Algo a deseja, deseja o que ela esconde ou que ela renega. Nesta primeira temporada conheceremos sua personagem, seus traumas, seu difícil passado e sua relação com o sobrenatural. 

Outro personagem que terá força neste primeiro ano é o jovem Frankenstein. Iremos ver seu passado e veremos como a morte desde cedo já se fez presente na vida deste garoto. É interessante notar que este seriado é protagonizado por figuras ligadas a escuridão, mas que nesta trama serão humanizados, dotados de sentimentos e medos.

Aposta do canal ShowTime, esta série mergulha profundo num mundo sombrio, escuro, onde os pesadelos se tornam reais. Dotado de uma bela fotografia de época, um figurino impecável e uma trilha sonora densa, Penny Dreadful nos arrebata. A abertura do seriado flerta com elementos da morte, do sobrenatural e do terror.

Os diálogos são densos, as referências aos personagens históricos das tramas de terror são revelados aos poucos e cada personagem guarda uma figura emblemática em si. Vanessa Ives percebemos que possui uma presença forte ao decorrer da temporada. Chandler ao final. O clima do seriado é o melhor, um clima frio, sempre pouco iluminado, sempre com cenários ganhando tonalidades escuras. Nem as gravações que são feitas durante o dia, exaltam a beleza do sol. A caminhada na praia é banhada por um céu nublado e acinzentado. É como se há todo momento o seriado nos remetesse a um mundo onde não há esperança, paz, ternura ou amor.





Neste universo de Penny Dreadful a dor move a todos os personagens. São pessoas movidas por seus desejos mais obscuros, que se entregam a estes sem vazão. Homens e mulheres movidos por incertezas, assombrados pelo passado, abandonados pela fé. O argumento do seriado é de John Logan, é dele todos os roteiros do seriado e a direção se subdivide entre a equipe de produção da trama. 

Penny Dreadful que tem um total de dez episódios, consegue manter uma tensão do começo ao fim do seriado. O penúltimo episódio intitulado “Possuída” é um dos mais traumáticos, fortes e densos de toda temporada, sua tensão cresce conforme os fatos vão avançando chegando a um clímax sem saída. A segunda temporada está mais do que confirmada e os segredos envolvendo outros personagens serão aos poucos sendo revelados, com a importância de cada sendo desenvolvida dentro da mitologia da série. 

Assim caminha essa série, envolvendo terror, seres marcados pela dor, raiva, rancor. Personagens abandonados a própria sorte, sem ter um consolo, fé ou algo que os proteja. Este seriado consegue invocar uma sobre a sociedade da época um pessimismo impressionante, ao mesmo tempo que atraente, por meio de uma beleza gótica, estranha e bizarra.



terça-feira, 5 de maio de 2015

Praia do Futuro


A dor de quem parte, a dor de quem fica

Em “Praia do futuro”, novo drama de Karim Aïnouz, o cineasta traz para as telas do cinema dois rumos de sua cinematografia. De um lado vemos todo sofrimento de Donato (Wagner Moura), que deixa sua cidade, sua família, sua vida e parte para a Alemanha, uma terra distante, uma língua diferente, juntamente com Conrad (Clemens Schick). Posteriormente, vemos a dor de  Ayrton (Jesuíta Barbosa), o irmão que é deixado, abandonado e renegado. Ao ir de encontro com Donado, temos estas duas dores face a face. Toda verdade não dita por anos será bradada em silêncio.

Donado é um salva-vidas no Ceará. Nunca falhou em missão, entretanto tudo nessa vida tem sua primeira vez. Quando dois turistas entram nas águas perigosas da Praia do futuro, eles se afogam. Donado faz todo possível e consegue salvar Conrad, porém seu amigo se perde nas águas do mar.

Após Conrad ser medicado e liberado, Donado tenta ajuda-lo em tudo que pode, inclusive na busca do seu amigo. Nesse momento, percebemos entre eles uma troca de olhares, um jogo de insinuações e palavras. O fato não demora e os dois já se lançam numa relação sexual que não poupa na agressividade. Após isso, mantém a amizade, as conversas, o entrosamento. Não há muitas palavras entre eles, nem há essa necessidade.

Quando Conrad precisa voltar a seu país ele convida o brasileiro para ir junto com ele e assim ficam por semanas juntos. Porém tudo uma hora chega ao fim e as férias de salva-vidas também. É onde Conrad pede para que ele fique com ele na Alemanha. Aí vemos a primeira decisão forte de Donado: ficar com o homem que sente um sentimento que vai além da atração e deixar toda sua vida para trás ou voltar para sua terra, para a sua vida.



A cena que representa essa escolha representa também muito bem o cinema deste diretor. Sem palavras, sem diálogos, apenas pelos gestos, pelo olhar, pelo sorriso, sabemos o que Donado deseja e escolhe e em consequência, renega.

Tempos se passam e seu irmão Ayrton chega a Berlim a procura de Donado. Reservado e calado, carrega consigo a dor de ter sido abandonado e o mais difícil, sem saber os motivos para tal abandono.

Esta é a segunda parte do longa, neste momento conhecemos melhor Ayrton, e a partir deste instante, acompanhamos sua jornada, seu silêncio e suas dores. Ao ver om irmão vem a raiva, a dúvida, as perguntas e as agressões. Todas as perguntas querem serem respondidas, mas há respostas para tais questões?

O cinema de karim é composto pela dor do abandono. Se em “Céu de Suely” vemos a dor de quem parte, da garota que vai em direção à cidade grande deixando para traz vidas, família e amores, em “Abismo prateado” vemos a dor de quem fica, de quem é abandonado e precisa reconstruir sua vida diante do caos que se encontra.

Em “Praia do futuro” temos estas duas dores entrando em colapso, num confronto, num conflito. Não há como entender tais motivos, não há como explicar tais ações. Apenas sentir, um sentimento de que nos toma, nos fere e nos leva a percorrer caminhos antes nunca percorridos e a mergulhar profundo em sentimentos tão complexos de dor a raiva, a paz e refrigério.




O longa trabalha com naturalidade e honestidade o tema da homossexualidade e ainda age com ousadia ao escalar Wagner Moura como Donado, um salva vidas sério, discreto que se envolve sexualmente com outro homem.

Detalhes a parte, essa drama trabalha com a dor, poderia ser um casal hétero, ou não, isso é a estrutura de menor importância nesta película. Karim tem uma delicadeza com as imagens impressionante, um trabalho com o silêncio e os ruídos que nos assombra, essas melodias são verdadeiras mensagens dentro do cinema.

As imagens representam e dão voz as palavras que não conseguimos dizer. São expressões de nossa inconsciência, de nossos sentimentos que são tão subjetivos quanto o sopro de vida. Estas imagens representam esta dificuldade em falar, em dizer, em se expressar. Quando não há palavras para expressar o que sentimentos, o melhor é ficar calado e é isso que estes personagens fazem. Ficam calados diante da perda, da morte, do amor e do abandono, mas em contraposição seus gestos expressam, falam, comunicam e gritam.

Ayrton e Donado possuem um passado que devem ser revisitado, um presente que precisa ser compreendido e um futuro que necessita ser construído. Não há como mudar o passado, como remediar o que se foi ou apagar o que aconteceu. O tempo perdido ficará para sempre perdido. Donado tem esse conhecimento, seu irmão apesar de ter sido tomado pela raiva também possui essa ideia. O que fazer diante de tal fato? Perguntas e mais perguntas que jamais se terá uma resposta de fato. A cena final vislumbra este caminho, uma estrada, sem um horizonte certo, carregada de neblinas, duvidas e incertezas, mas que são percorridas por estes três homens.

No elenco, Wagner Moura e Jesuíta Barbosa dão dramaticidade e o peso que o filme necessita, mais a delicadeza da direção de karim confere sobriedade, ternura e suavidade a este filme.