segunda-feira, 2 de julho de 2012

Day Dream Nation


Caroline (Kat Dennings), uma jovem de cidade grande passa a morar com o pai numa cidade pequena. Para tentar deixar sua vida um pouco mais agitada, passa a ter um caso com Mr. Anderson (Johs Lucas), seu professor. Enquanto isso, Thusrton (Recee Thompson) um jovem que sempre vive se drogando com seus amigos começa a se interessar por ela. Em meio a esse triângulo, há á um assassino que vem atemorizando a pequena cidade.

Esse é um pequeno filme independente do Canadá que tenta retratar a vida de jovens comuns de uma cidade interiorana. Longe das grandes baladas, dos grandes centros, eles vivem suas vidas de forma simples, muito guiada pelo conservadorismo local e pelo que o é certo, um moralismo que chega a ser hipócrita.

Caroline é uma garota bonita, inteligente e ousada. Ao chegar nessa pequena cidade, sente-se como uma invasora, madura, a frente dos outros, enfim, arrogante. Ela deseja ser o que não é, uma pessoa consciente, que toma suas escolhas sem ligar para sentimentos bobos ou preconceitos ínfimos. Nesse sentido, ela se lança no professor. Ela quer ser uma garota deslocada, aquela que faz sexo por que quer e com quer, sem estar preocupada com o pensamentos dos outros, mas ela não é assim e aos poucos irá perceber isso e se verá como realmente é, uma garota normal como todas as outras da sua idade. 


 
Anderson aparentemente é um homem bem resolvido, trabalha como professor, tem uma vida tranquila e está solteiro por opção. Mas ele se passa por algo que também não é ou no caso, oculta sua verdadeira personalidade, um cara simples, que não se deu bem na vida e não foi correspondido da forma como realmente desejava ou merecia, tanto pelo mundo, quanto pelas pessoas a sua volta. Esse relacionamento com Caroline renova os ares na vida dele, porém nem tudo é perfeito ou dura para sempre, muito menos essa ilusão.

Thusrton é o mais normal nessa cidade, remoído ainda pela perda do amigo, por se sentir responsabilizado pela morte dele, se lança nas drogas pra tentar contornar essa dor. Se encanta por Caroline e mesmo ela o tratando com aspereza, tenta e tenta. Não é amado por todas do colégio e nem deseja isso, é realista com tudo a sua volta, não deseja ser algo que realmente não seja, apenas vive e vive.
 
Essa roda de personagens trafegam por esse drama, ora escondendo o que sentem, ora revelando da forma mais clara possível. O mais interessante a notar nesse longa é como todos são tão frágeis, seja diante de um assassino, diante dos problemas impostos pela vida ou diante da própria vida que levam. É como se todos vivessem com seus olhos fechados, não querendo ver o que está ao seu derredor, mas a partir do momento que passam a ver, se destabilizam totalmente.

O drama possui uma boa trilha sonora, a condução da trama paralela envolvendo um assassino não ganha muita importância e nem se mostra a que veio claramente. Mas o modo como trabalham a questão da vida ante seus problemas ou como tentamos nos comportar diante deles, é interessante.

Não é um filmaço, mas é bacana de se ver. Não joga com saídas bobas ou fáceis, e nem com clichês toscos, na verdade, esse drama meio que os desconstrói. É independente da forma  como dever ser e cativante ainda mesmo sendo tão simples.  





Branca de Neve e o caçador



“Espelho, espelho meu, existe alguém mais bela do que eu?”

Essa é uma história antiga, um clássico que muitos conhecem. A busca de ser a mais bela, um espelho mágico, um linda e inocente moça, uma maçã envenenada, um príncipe encantando e um “viveram felizes para sempre”. Porém, por trás desse clássico conto, imortalizado pelos estúdios da Disney com o desenho “Branca de Neve e os sete anões”, há uma história sombria, densa e pesada.

Criação dos irmãos Grimm, esse conto antes de ser adocicado visando um público infantil, era voltado mais ao terror do que a fabula inocente. Mesmo nesse conto infantilizado, pode-se perceber esses traços mais densos: a rainha má que deseja ser a mais bela e o caçador que arranca o coração de um animal e dá como prova de missão comprida a vilã dessa história. Enfim, o terror está ali, porém, pelos detalhes.

Em “Branca de Neve e o Caçador”, esse peso se sobressai. Aqui, o elemento terror tenta prevalecer, contudo o filme não chega a esse nível. Há no drama uma seriedade, uma nova roupagem, num estilo meio épico, com tons medievais, calcada no instituto pela sobrevivência e com um toque feminista em todo o roteiro. 

 

Após a série de Tv “Era uma vez”, ao trágico e horrível “Espelho, espelho meu”, chega essa nova versão dessa história. Ou seja, em menos de 12 meses, se tem três trabalhos distintos de uma mesma obra. A série é boa, escorrega as vezes no roteiro, porém faz um trabalho genial com essa trama, a comédia que apesar de ter tido Julia Roberts no elenco como a rainha maléfica, não deu certo, foi um verdadeiro gasto de investimento, num filme chato, sem sentido e péssimo. Com isso, as expectativas para esse filme não era das melhores. Porém, o filme surpreendeu e se mostrou bem acima da média.

Após a morte de sua esposa, o rei se lança num confronto com um exército fantasma. Após destruir a todos, ele liberta uma jovem camponesa, Ravenna (Charlize Theron). Ele fica encantado pela beleza da jovem e a leva consigo. Após chegarem ao reino, os dois se casam, mas na noite de núpcias ela o mata e abre espaço para os verdadeiros soldados. Estes tomam o reino e domam a todos os soldados, com alguns poucos conseguindo fugir.

Anos passam mas a beleza de Ravenna permanece a mesma, porém para mantê-la, ela precisa se lançar a inúmeros sacrifícios. Ela é uma rainha poderosa, a fonte desse pode vem da sua beleza, mas tudo tem um fim, tudo passa e ela teme isso. Quando seu espelho, um espírito que somente ela pode ver, lhe revela que há alguém no reino capaz de destruir seu império, ela se atemoriza, porém ele revela também que essa jovem poderá salvá-la, pois se a rainha comer o coração dela, obterá a imortalidade e beleza eterna que tanto deseja. Essa jovem é a filha do Rei, Branca de Neve (Kristen Stewart).

Ela pede para que o seu irmão a pegue do calabouço e a traga para ela, mas ele falha nessa empreitada e Branca de Neve consegue escapar. Começando a ficar inquieta, ela contrata os serviços de um homem, um caçador experiente (Chris Hemsworth) que conhece todos os cantos da Floresta Negra, lugar para onde Branca fugiu. Ele aceita a proposta, mas ao descobrir que a rainha apenas quer tê-la de volta para matá-la, ele a ajuda a escapar se juntando a essa fuga. 


O longa tem uma pegada de aventura constante. Não há momentos para descanso, desde a cena em que Branca foge do castelo, numa sequência ótima e de tirar o folego, até o confronto com Ravenna, o drama se mantém nesse ritmo. Alguns detalhas do conto foram deixados de lado, mas a base da história está ali. Há a rainha má, uma jovem, um príncipe, contudo estes estão repaginados com outros motivos, razões e personalidades.

Ravenna é bela, mas ela sabe que isso passará, por isso teme, pois ao seu ver, seu poder está associado a sua beleza, somente assim ela consegue dominar os homens a sua volta, foi assim com o pai de Branca, foi assim com todos os outros. Numa época em que ser mulher estava ligada a uma vida de prisão e sem palavra, Ravenna tem peso, voz e é temida. Por esse motivo que ela deseja jamais perder essa “benção”, mesmo que isso signifique assassinar e sugar toda a força de vida de outras mulheres.

Em contraposição há Branca de Neve, ela não é extremamente linda, mas ela tem um extinto de sobrevivência incrível e uma pureza em seus atos. Diferentemente da donzela em perigo que foge para a floresta e encontra abrigo com os anões e passa a ser uma dona de casa, aqui ela briga, enfrenta, se lança e lidera soldados. Seu poder não está na sua beleza, mas em seus atos. Nesse sentido, há todo um jogo de feminidade sendo trabalhado no filme, pois quem prevalece na história são essas duas mulheres e estas não estão presas ao julgo dos homens, mas fazem suas próprias escolhas. Aqui, os homens são guiados por essas escolhas, é nesse aspecto que se encontra o melhor do filme. 

Outro ponto muito positivo do longa são com relação a algumas ideias colocadas e outras remodeladas. A floresta negra com suas alucinações, as mulheres com os rostos marcados (num melhor sentido guerreiras amazonas), a capacidade de Ravenna de sugar a beleza de outras mulheres, a cena da maçã que ao meu ver foi a melhor e o beijo que a desperta apenas intensificam e qualificam o longa. É acrescentada a esse drama um tom de predestinação, simbolizado no filme pelo santuário das fadas, esse seria o lado fraco dessa história. Apesar disso, esse santuário foi muito bem construído com relação ao seu visual.

O confronto final é bacana, as cenas de lutas são boas, o longa não se rende ao romantismo, ele estabelece um triangulo amoroso, ma nada que estrague a ação constante do longa. O elenco está competente, destaque para Kristen Stewart e Charlize Theron e, os homens desta historia ficam irregulares, mas o peso dessas duas mulheres compensam esse lado fraco.

Enfim, um bom filme que superou as minhas expectativas. Alguns afirmam que irá ter uma continuação, não sei como isso se dará, é esperar pra ver e torcer que não estraguem esse primeiro trabalho.


domingo, 17 de junho de 2012

O Clube do Bang Bang



Baseado na obra “O clube do Bang Bang” que faz um retrato real baseado na história de vida de quatro jornalistas que presenciaram e fotografaram os conflitos finais do Apertheid na África do Sul, longa conta, por meio de uma história simples, a vida desses quatro personagens e como estes vivenciaram essa experiência.

Ao final da década de 90, a pressão sobre a África do Sul para que se colasse um fim em seu regime segregacionista que separava por lei, território de negros e brancos e realizava um governo altamente racista, estava em seu ápice e próximo de seu fim. Para conter as revoltas internas que aumentavam, o governo colocou em rivalidade duas grandes e fortes tribos, promovendo uma verdadeira chacina entre ambos. Com a polícia e governo local promovendo essa guerra sangrenta entre eles, se amenizava uma possível revolta contra o governo e por consequência, esse regime separatista poderia continuar.

Nesse momento, quatro jornalistas fotografaram esse momento e venderam essas imagens há vários veículos de comunicação. Muitas das imagens lembradas até hoje desse sistema, desse governo, veio pelas lentes destes jornalistas. Devido a se colocarem em linha de frente com o perigo, ficaram conhecidos como o “Clube do Bang Bang”, porém apesar dos vários prêmios que muito deles ganharam, o saldo para essa ousadia custou caro, Ken Oosterbroek, morreu em trabalho e Kevin Carter se suicidou, depois das pressões que recebeu pós ganhar um prêmio por uma fotografia tirada em trabalho. É nesse drama que o filme vai focar e trabalhar, tendo como ponto de vista o jovem Greg Marinovich. 



O drama é bem simples, não há ousadia, não há algo que chame a atenção. Ele é simplesmente correto. O diretor deixa por conta da história todo o peso do filme. As cenas chocam, fotografias reais em preto e branco ganham a tela, dando mais veracidade e pontuando o longa. O drama desses personagens enquanto pessoa não é muito focado, o único a ter isso um pouco melhor trabalhado é Marinovich, o protagonista dessa história. Porém, nunca realmente sabemos o que eles sentem, eles estão lá, presenciam tudo, registram tudo, mas o que pensam disso ou que lado defendem, jamais ficamos realmente sabendo.

Um dos temas levantados pelo filme e bem trabalhado no drama é com relação a ética na profissão. Eles enquanto jornalistas, não podem interferir na realidade, mas ela por si só é extremamente dolorosa. A questão que fica constantemente é o que é certo fazer diante do fato: registrar, não registrar, interferir no meio ou não. Kevin, famoso por ser dono de umas das imagens mais chocantes do fotojornalismo, vivenciou esse drama. Sua foto provocou reações, mas ao mesmo tempo, muitos lançaram críticas ferozes contra ele, questionando até que ponto vai o profissionalismo e começa os valores humanos.

Mas não é apenas a questão da ética que prevalece nesse filme, mas também a da dor diante dessa realidade tao crua e dolorosa. O que se fazer frente a esses acontecimentos? Como reagir, ou como se comportar? Eles apenas registram, mas também veem, observam e ficam calados, paralisados e imóveis diante desses acontecimentos. Mas o que se fazer para mudar essa realidade, essa verdade. A forma como a câmera fica disposta, trêmula, nos causa essas mesmas questões, afinal, estamos vendo o que eles viram, então, estamos sentindo os que eles sentiram e estamos paralisados do mesmo modo que eles também. Que lado eles defendem não é nos revelado, mas saber que essas cenas os chocaram e os destabilizaram, isso é percebível.

Bem recebido em alguns festivais, pouco comentado e divulgado no Brasil, é um bom drama que conta uma boa história, tendo um bom elenco para dar vida a esses personagens. Básico sim, mas muito bem feito. Poderia ter sido melhor trabalhado, mas também, não se rendeu ao modo mais fácil, entregando um bom filme. Não é melodramático, segue mais uma cartilha documentário. 

A trilha é suave, a direção sempre segura, questões políticas estão a parte, pois o registro desse filme fica por conta mesmo de como é registrar a morte, a dor e como se manter diante desse fato. É ficar e como ficar diante da dor dos outros. 

 

50/50



Adam (Joseph Gordon-Levitt) leva sua vida a sério. Se alimenta corretamente, possuí hábitos saudáveis, pratica atividade física, é preocupado com todos os riscos que podem acontecer. É um jovem centrado. Trabalha num jornal e tem como melhor amigo, Kyle (Seth Rogem), um cara o oposto dele ao extremo, mas os dois se dão muito bem. Além desse grande e desajustado amigo, ele tem uma namorada, Rachael (Bryce Dallas Howard). Esse casal tem um relacionamento normal, porém parecem mais casados mesmo do que apenas namorados.

Depois de sentir uma dor breve na coluna, ele procura um médico, faz uns exames e descobre o pior, que tem um raro câncer num estágio bem avançado. Qualquer intervenção cirúrgica pode ser fatal, no caso, uma cirurgia é algo arriscado, então o médico numa naturalidade incrível lhe propõe a quimioterapia.

Adam fica em estado de choque, não sabe o que pensar ou sentir, afinal tem um tumor grave com poucas chances de cura. Ele tenta se questionar o porquê, afinal, leva uma vida tão correta: não fuma, não bebe, não faz nada que possa provocar um mal desse. Segundo o médico, suas chances de sobreviver são de 50%. Para tentar levar isso com mais calma, ele vai ter a assistência de uma jovem psicóloga, Katherine (Anne Kendrick), um pouco inexperiente com casos como o dele. Só que se a situação dele já está trágica, ela só piora, pois sua namorada meio que o abandona.

50% é simples, é um comédia dramática que tem como tema um assunto forte e intenso, mas que é guiado e conduzido com muita leveza. Não que o mal dessa doença não seja trabalhada, ela é, mas a forma como isso acontece é feito com muita leveza. Esse longa lembra muito a série The Bic C, protagonizada pela ótima Laura Linney. Assim como na série, aqui nesse drama há a dor de perceber que a vida pode lhe ser arrancada aos poucos e com muito sofrimento, mas também é mostrado a tentativa de se viver, simplesmente viver. 

 

Adam está em crise, não sabe o que sentir ou o que pensar. É como se ele ainda não compreendesse o que está acontecendo com ele. Seu amigo também, tenta passar essa ideia de que está tudo muito bem, tudo muito normal pra ele, tanto que até tenta usar dessa doença para pegar mais garotas facilmente, só que nada está bem e isso se percebe nos olhares. Todos estão temerosos quanto a tudo, a única personagem a demonstrar esse medo é a mãe de Adam.

Ele não se abre, não se entrega a essa dor, tenta permanecer na defensiva, mesmo Katherine tentando lhe explicar que é normal todos ficarem abalados. Mesmo ela sento didática quanto a sentimentos, ela quer que ele entenda que a dor é pra ser sentida, o medo e o desespero também, afinal faz bem chorar. Ao mesmo tempo que tudo na vida desse jovem se abala, surge entre Andam e Katherine uma ligação muito forte e sensível, uma atração entre ambos, guiada pelo medo, euforia, confusão e tentativas frustadas de se tentar entender o que o outro sente. Esse relacionamento demonstra que a vida continua.

Apesar de ter algumas falhas no roteiro, como a construção da personagem da Katherine que está no doutorado com apenas 23 anos, o longa acerta a mão no drama desse jovem, no modo como um possível romance é construído entre Katherine e Adam e no leve tom cômico que há na relação de amizade entres esses dois amigos. A relação da amizade entre esses dois é a melhor. Há uma simplicidade muito grande entre eles, um completa o outro. 

Destaque para a cena em que Adam se solta de verdade diante de tudo, quando está no carro, tentando aprender a dirigir no meio da noite. O grito e o desespero dele diante dessa verdade é incrível. Dor, revolta, injustiça, enfim, a vida é dura e isso essa cena nos consegue transmitir com maestria.

Assim é essa comédia, um bom longa independentemente com um bom elenco e uma boa direção, sensível e terno sem pesar a mão nas lágrimas. 

 


Foi Apenas um Sonho



Leonardo di Caprio e Kate Winslet voltam a trabalhar juntos nesse drama sobre ilusões, sonhos e decepções do aclamado diretor de “Beleza Americana”, Sam Mendes .

April (Kate) e Frank (Leonardo) são casados. Tem uma boa casa, uma linda casa na verdade, tem nos seus vizinhos boas pessoas que sempre que podem passam o tempo e finais de semana juntos. Ele trabalha numa empresa, o emprego não gosta muito, mas paga suas contas, ela fica em casa, com seus afazeres domésticos e cuidando dos filhos. Eles tem um casal de criança que dão muito trabalho e desgaste para ela.

Os dois vivem, basicamente vivem, mas por traz daquela boa aparência, daquela boa vizinhança, do bom emprego e boa casa, esconde um engano e uma vida que não desejavam. Desprezam seus vizinhos, se satisfazem em perceber em como eles estão acima deles, seja no nível cultural ou nas ambições da vida. Eles teem ambição e muitas. Mas aos poucos vão percebendo que eles nada se diferem de todos, pessoas infelizes, incapazes que pararam na vida e não tem nada que lhes possa orgulhar. Essa verdade entra na vida deles como uma verdadeira morte que os fragmenta e os derruba vagarosamente. 

 

Esse é um intenso drama que chega ao clímax somente ao final, e lá, bem lá nos perguntamos: isso realmente está acontecendo? Com uma mescla de boa fotografia, um roteiro afiado, ótimas atuações tanto dos seus protagonistas., quanto do elenco de apoio e uma excelente trilha sonora que se de destaca ao final, o diretor Mendes entrega um ótimo filme.

O começo do longa já nos diz muito do que veremos em seguida, uma peça de teatro, April no palco, o público meio descontente, impacientes, esperando e desejando que aquilo chegue ao fim o mais próximo possível. Após os aplausos falsos, todos elogiam a peça, a história e o elenco. Na volta para casa, depois de um vasto silêncio, sendo quebrados as vezes por comentários nada eficazes, há uma discussão, uma forte briga e um forte embate. 

A partir desse momento, vemos a distância desse casal crescer a cada dia, seja pelas trocas de ofensas, pelos sorrisos falsos entre si ou pelo pouco diálogo verdadeiro entre eles, no fundo eles não se conhecem. Ao mesmo tempo, também vemos a forma como se conheceram, se aproximaram e iniciaram seu relacionamento.

Outros personagens de peso e importância trafegam pela história, como o casal de vizinhos que são seus únicos amigos mais próximos e sempre vistos por April e Frank com desprezo. A senhora Helen Givings (Kathy Bates), sempre sorridente e com sua língua parecendo um veneno, falando e julgando todos pelas costas. Seu filho John Givings (Michael Shannon), visto por todos como um homem com sérios problemas mentais, mas que na verdade possuí alguns pensamentos muito interessantes e que chegam a ser os mesmos de April e Frank. A relação destes é a parte mais instigante do drama, pois vemos como estes se entrosam com esse personagem e como ao final, a verdade é dita por John e como ela cai como um peso mordaz sobre este casal. 

 

Sam Mendes aqui volta a trabalhar o mesmo tema que em “Beleza Americana”, apenas mudando o período da história. Há sonhos, o desejo de mudança, de pensar que com apenas um novo começo em outro país ou cidade, todos os problemas podem se resolver. 

A ideia de que os problemas estão no local, ao nosso derredor, nos outros, enfim em todos, menos em nós mesmos, prevalece nesse drama. A relação deste casal está num profundo declínio, ele a trai de forma natural, ela tem uma noite com vizinho naturalmente também. Os dois voltam para casa e nada de fato aconteceu. Esse jogo de aparências e de meia verdades é muito bem trabalha pelo diretor, mas a presença desse personagem John, dito como louco por alguns, é o ponto da veracidade, ele é único a expressar o que realmente pensa ou sente, ao contrário que os outros não.

O roteiro é afiado e ganha força ao final na troca de acusações de ambos. Amor, traição, desejo, tudo é despejado numa sequência que causa espanto ao espectador. Todas as palavras e sentimentos guardados são vivenciados e ditos com peso e voracidade. A trilha é belamente usada e o elenco, ótimo. 

Com um final belo e envolvente, mergulhado numa excelente trilha sonora que nos causa ansiedade e perplexidade, o diretor nos entrega uma drama consistente, com boas atuações num roteiro bacana e eficaz. 

 

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Mary e Max: uma amizade diferente


 
Essa é uma animação muito simples, porém muito cativante. Uma Nova York triste e melancólica, uma Austrália quente e vibrante e dois protagonistas que apesar de estarem tão distantes entre si, criarão e desenvolverão uma amizade tão grande e forte que irá ultrapassar as décadas.

Mary (Tony Collette) é uma garotinha inquieta, cheia de dúvidas e totalmente solitária. Seu pai trabalha constantemente e sua mãe vive bêbada com seus vinhos. Ela num dia, enquanto sua mãe rouba algumas coisinhas, resolveu abrir a lista telefônica dos Estados Unidos, e olhando para os nomes estranhos dos americanos, escolheu um dentre vários e escreveu uma carta para ele. Em sua opinião pensava que ele jamais ira responder, porém ele responde e assim nasce essa amizade. Improvável, mas é esse o termo que irá prevalecer durante todo o filme.

Enquanto isso nos Estados Unidos, conhecemos Max (Philip Seymour Hoffman), um sujeito grande, gordo e meio desajustado. Adora comer cachorro quente com chocolate. Mora sozinho e tem a companhia de uma senhora meio cega. Frequenta um psiquiatra que dá dicas nada interessantes à ele. Não tem amigos e não consegue chorar ou sorrir, no fundo não entende as pessoas, as considera muito complexa e esquisitas.

Num certo dia, recebe uma carta de uma garota da Austrália. Na carta dizia inúmeras coisas, ele ficou nervoso e entrou em pânico e fez o que sempre faz quando isso acontece, foi comer cachorro quente com chocolate. Após pensar e repensar, resolve responder a carta. Se apresenta, pede desculpa pela demora e espera ter notícias dela novamente. Assim como ela, ele também não tem amigos. A partir desse fato, os dois passam a se comunicar, via carta, por anos. O tempo passa, fatos acontecem, inúmeros fatos e muitas coisas mudam para sempre na vida desses dois personagens. Ele continua sua vida por aqui e ela aos poucos vai vivendo por lá, com suas dores, dificuldades e barreiras impostas pela vida. 

 

É com delicadeza mergulhado num tom melancólico e triste, repleto de cores escuras, acinzentadas e personagens nada belos que o diretor constrói essa narrativa sobre a amizade. Uma amizade verdadeira que nos faz ver os pequenos valores da vida e seus sentidos. Há em todo filme ótimas lições sobre a vida, questionamentos, existencialismo, tudo beirando a simplicidade, a inocência. O que começa como perguntas bobas como, “de ondem vem as crianças” chega a questões sobre como encarar traumas passados, sobre o que é a vida, ou sobre como e porquê as pessoas se comportam de forma tão arrogante, egocêntrica e sempre mentindo e escondendo seus sentimentos.

O roteiro é ótimo nesse sentido, pois ele trabalha com a simplicidade das palavras. Não há grandes metáforas, mas simples perguntas que guardam respostas muitas vezes inalcançáveis. Porque sofremos, quando não queremos sofrer, porque morremos, se na verdade o queremos é viver, o que é de importante na vida? Realizar toda aquela lista que temos quando criança ou já adultos é de fato importante? Se não é, o que é então? Porque a solidão nos persegue e nos faz sofrer?

As pessoas são complicadas, essa é afirmação de Max, ele tem Aspenger, uma doença que dificulta a socialização dele com outros, que o impede de entender o que as pessoas realmente sentem ao expressar uma palavra ou uma feição. Ele é internado, eletrocutado, estudado, visto e revisto, ele é diferente, mas quem não é? A normalidade aqui é tratada de forma bela, pois ele tem as respostas paras as suas perguntas, o sossego para os seus questionamentos. Se no começo do filme, ele tenta ser quem nem todos, com metas a cumprir, ao final, ele compreende o que tem de valor e é nisso que reside seu contentamento. Apesar da animação ser tao melancólica, ela nos causa um certo ar de conforto, prazer, uma certa alegria, é como se o desenho nos fizesse rever e rever tudo a nossa volta e a ver nessas cores frias e se vida, um certo calor pulsando firme e forte.

A trilha sonora desse longa é outro ponto belo, ela é simplesmente soberba, envolvente e encantadora. Em cada melodia e cada toque há dor, alegria, tristeza, alvoroço, contentamento, aceitação. A direção e roteiro são ótimos, um belo e fabuloso trabalho. Enfim, um filme, um desenho que dá gosto de ver e rever inúmeras vezes, tanto pela sua simplicidade, quanto pela sua história ou pelos seus personagens.




sábado, 14 de abril de 2012

A missão do Gerente de Recursos Humanos


 
A missão do gerente de Recursos Humanos é um drama bem simples, que se apóia na velha história da transformação a partir do momento em que seus personagens mergulham numa viagem onde se conhecerão melhor ou redescobrirão os reais valores da vida. Apesar de soar batido, o filme é cativante e sincero, trata de temas delicados numa região em que a tensão é constante. Nos faz ver que por detrás de toda dor, raiva e medo, há pessoas, simplesmente pessoas.

Yuilia é uma romena que migrou para Israel para tentar uma melhor qualidade de vida. Não sabemos muito dela e nem vamos saber, o fato é que ela morreu num atentado terrorista e a empresa onde trabalhava nem havia percebido sua falta, mesmo após dias sem ela ter ido trabalhar. Quando o assunto cai nos ouvidos de um jornalista, ele ameça a empresa com um artigo. Para tentar resolver esse problema, o gerente de RH vai tentar compreender o que de fato aconteceu.

Após tudo ser explicado, a dona da empresa pede para que ele leve o corpo da falecida à sua cidade natal para seguir os rituais corretos da família. A intenção é sair o menos queimado possível desse incidente. Porém, a viagem que era para ser simples e fácil, torna-se complicada e desgastante. Na viagem, além do gerente, vai o jornalista que quer cobrir todo o caso, a Vice Consul de Israel na Romênia, seu esposo que serve como motorista e posteriormente o filho da falecida. 

 

Do mesmo diretor de Lemon Tree, esse drama toca muito na questão humana, se no primeiro havia o cenário da política, aqui, por mais que esse aspecto seja importante, o fator humano prevalece. Esses personagens estão perdidos, anestesiados diante de tanta morte, vivem e apenas vivem. Não teem uma identidade, tanto que a única a ter um nome é a Yuilia, a jovem morta. Todos os outros são descritos pelas suas ocupações, o gerente, o jornalista, o garoto, a dona da empresa, o marido e por assim em diante. Mas essa falta de identidade não está apenas no nome, mas também na vida desses personagens. A mãe de Yulia não sabe se realmente ela pertence verdadeiramente a sua terra e nação.

No filme o diretor toca em assuntos importantes, como no número de atentados terroristas e como as vítimas dessa atrocidade tornam-se simples desconhecidos, simples estatísticas, mais um número em meio a tantos. Entretanto Yulia veio para provar que não, ela é uma pessoa com uma vida, um nome, uma história e um passado. Tanto que é somente aos poucos que vamos conhecendo melhor sua vida, uma personagem de grande presença, porém que nunca vemos, apenas uma foto sua ao final.
O drama caminha lentamente, as transformações pelo qual todos passam também. O interessante é que ao final da história, não há nenhuma mudança radical, apenas o fato de que todos esses veem e enxergam aquela mulher como realmente ela é, uma pessoa. Essa deixou de ser uma funcionária desconhecida sem importância para o Gerente para ganhar um rosto, nome e passado e para o jornalista, deixou de ser apenas um caso sensacionalista para se tornar numa história de verdade, uma história com um final trágico. Essa falecida deixa a posição de um número dentre os mortos para se tornar numa personagem de carne, osso, sonhos e desejos.

O filme possui uma trilha muito terna, ótimas paisagens marcada por cenários em que o gelo ganha contornos belos, todos estão frios diante dessa morte. Mas aos poucos, o calor reaparece para tentar aquecê-los. O elenco está muito bem e a direção é o que há de melhor. Esse é um drama, mas com um tom leve, cômico e engraçado. É estranho, mas a morte está ali, mas não se percebe isso. É a partir do fim que se busca um começo ou uma tentativa de recomeçar.