sexta-feira, 13 de maio de 2011

Viciados em Glee

Está certo, esta é uma série bem ao estilo americano de ser, com todos os clichês de Hollywood possíveis embutidos nela. Os problemas não são tratados profundamente, tudo se resolve de uma maneira muito simples, racismo e bulling chegam até a ter graça e ao final, uma linda lição de moral. Mas ainda sim, essa é uma série que tem elementos que fazem toda diferença. Tudo soa de forma muito gostosa, divertida e simples. O charme, não levá-la a sério

Assim é Glee: divertida, engraçada e despretensiosa. Com temas que não chegam a ser complexos ou densos, mas que nos fazem pensar, pois às vezes o menos é mais. Porém, o maior diferencial dela está em ser um musical. Com episódios em que a maioria dos problemas levantados se resolvem ao seu término, a série possui um roteiro inteligente, uma edição rápida, sempre mostrando em forma de flashback explicativos sobre alguns acontecimentos do seriado.
A série conta a história do professor Will Schuester que resolve reerguer um antigo coral que havia participado quando jovem estudante, o Glee Club. Retomado o grupo, agora chamado de Novas Direções, ele tenta arranjar jovens que queiram participar do grupo. Os primeiros que se candidatam são os mais exclusos e anti-sociais do colégio.


Rachel é uma garota judia, arrogante, egocêntrica, que só pensa em seu estrelado, em que um dia poderá brilhar nos palcos da fama e ser popular, porém a única coisa que conta ao seu favor é voz, porque no resto é dispensável. Kurt é um garoto que vive sendo jogado pelos rapazes do colégio na sarjeta, lixo e coisas do gênero, por ser gay sofre um bocado, tem um pai machista e sua mãe faleceu quando ele ainda era muito pequeno, tem uma voz impactante, sabendo levar solos femininos dificílimos com muita facilidade.
Mercedes é uma garota gorda e negra com uma voz potente, porém que não é notada por se gorda e negra. Tina é mais comum, finge ser gaga para que ninguém a notem e tem uma voz bela, porém tem medo de usá-la justamente para ninguém percebê-la e por fim, no time dos anti-populares está Arti, um cadeirante, canta e toca guitarra muito bem, não liga para as opiniões do outros, se não liga, pelo menos finge que não. Diante dessa falta de popularidade, Schuester vai usar da ameaça para colocar no grupo Finn, bom moço, inocente, namorado de Quinn, a líder de torcida, jogador de futebol americano, respeitado por todos e canta muito bem.
Com o passar dos episódios, outros entrarão no grupo como as garotas Quinn, Brittany e Santana, do time das lideres de torcida, enviadas pela Sue, a treinadora do time, elas serão espiãs dentro do Glee e farão de tudo para acabá-lo e por fim, os rapazes do time de futebol Puck, Mike e Matt. Alguns começaram no grupo como obrigação, outros por interesses pessoais e outros, apenas por curiosidade, mas com o passar dos ensaios e convivência, todos ficarão muito ligados ao Glee Club.


Como eu disse no primeiro parágrafo, a série tem lá seus vários clichês, mas o que é interessante nesse aspecto é que os roteiristas da série utilizam os estereótipos para brincar com eles mostrando outros lados dessa mesma moeda. No caso, os excluídos têm seus defeitos também, eles não são perfeitos. Rachel, a garota feia com um coração grande e uma bela voz é arrogante e só tem um pensamento em mente: ser uma estrela. Gosta de um cara e se lança nele ou no amigo dele sem pensar.
Mercedes, a garota negra, tem grana e os pais são dentistas. Kurt, o gay, tem um pai machista e joga bola muito bem. Arti, o jovem de cadeiras de rodas dá em cima da amiga, Tina, de uma forma muito tranqüila, como se fizesse isso inúmeras vezes mostrando que o fato dele ser cadeirante não o impossibilita de fazer o que deseja. Isso já quebra alguns estereótipos de vitimas coitadas marcadas pela exclusão e o martírio de não conseguirem a tanta e sonhada popularidade.
As músicas são empolgantes, cantando desde clássicos do rock como The Doors e Beetles até pops da atualidade como Lady Gaga e Byonce, os números musicais são um show a parte e valem vários elogios.

Durante a temporada, conhecemos melhor cada integrante do grupo e das pessoas que os rodeiam. Algumas histórias foram tratadas de uma forma muito bela, cativante e sincera. Kurt e sua opção sexual, por exemplo, a forma como trabalharam a questão do preconceito e do difícil caminho da aceitação, não apenas por parte dele, mas das pessoas que estão ligadas a ele, como no caso seu pai, foi muito franca e terna. Os episódios envolvendo esses dois personagens foram simplesmente o ponto alto da temporada, tanto que os dois atores que os representam foram indicados ao Emmy, maior premiação da TV norte-americana, nas categorias melhor ator coadjuvante e melhor ator convidado em série comédia ou musical, sendo que o ator Chris Colfer, o Kurt do seriado, levou o Globo de ouro, em 2011, como melhor ator coadjuvante nessa mesma categoria.


Outra personagem bem trabalhada na série foi a Quinn. Ela que começou a temporada parecendo uma estatua sem fala ou reação, com o passar dos episódios foi se mostrando cativante, frágil e simpática. A áurea de líder de torcida foi cedendo lugar para uma garota que tenta, erra, erra e apenas quer se vista, mas ao final percebe outros valores e amizades. Todos mudam com o tempo e ela é a mostra disso. Sua personagem consegue ser mais cativante do que a própria protagonista do Glee. Um ponto interessante a abordar nela é o fato de que engravida por acidente do melhor amigo do seu namorado e se vê diante de um acontecimento que lhe custará toda a sua popularidade e marcará sua vida. A forma como a série tratou desse assunto e como foi seu desfecho foi interessante.

Outro ponto alto da série foram as homenagens a algumas personalidades do mundo da música. Entre elas Madona, The Kiss, Ledy Gaga e as músicas da década de 80. O funk também teve a sua homenagem no penúltimo episódio da série. Destaque para todos os episódios, mas em especial o último. Emocionante e bem emotivo, usaram todos os recursos possíveis para que todos chorassem ao final deste season finale.


Na segunda temporada mais personagens ganham presença, alguns assuntos tornam-se verdadeiras bandeiras do seriado, fazendo com que a série perca um pouco essa lado engraçado, afinal, não é para se levar a sério essas histórias e a homenagens a grandes celebridades do mundo da música continuam em alta, assim como as participações especiais como a da atriz Gwyneth Paltrow.

Bom, assim é Glee, leve e boba, com mensagens as vezes muito toscas de auto-ajuda e com episódios que as vezes nem é bom comentar, porém ela é muito carismática e isso se deve a seus personagens e tem uma edição e trabalhos técnicos com relação a questão musical impecáveis. .

O sal da terra

 

Um filme bacana, brasileiro, para ser mais claro, paranaense, todo rodado pelas estradas e rodovias do belo e grande Paraná. O argumento do longa é interessante, porém o excesso de panfletagem fazem do filme mediano, ou seja, o diretor tinha em mãos uma ideia genial que poderia render um excelente trabalho, mas que preferiu seguir um caminho mais fácil, com saídas simples, deixando o resultado abaixo da média.

O filme conta a história de Miguel, um padre que resolve sair pelas estradas para pregar a palavra, realizando todos os rituais da missa em lugares distantes da igreja.

Seu conforto e alegria estão no fato em ajudar as pessoas. Nesse caminho, ele acaba conhecendo pessoas diferentes com as mais diversas histórias, vidas e pensamentos distintos do dele. Dentre estas, está Romeu, caminhoneiro que está nas estradas há anos, mas ainda teme o modo como leva a vida e paralelamente, somos apresentados a um andarilho. Num certo momento do filme, esses três personagens terão seus caminhos cruzados.



O longa começa bem, com belas paisagens das estradas paranaenses e com uma ótima trilha sonora (bom, a trilha é boa apenas no começo, depois, cai num precipício). Algumas cenas são bem colocadas, como no caso, a que envolve o Padre e a morte de uma garota de programa. Ele é convidado para realizar os rituais fúnebres do enterro dela, isso porque nenhum outro padre quis fazer, nesse instante, percebemos o tom que o filme terá, só que durante a história, ele simplesmente se perde no caminho com inúmeras passagens e mensagens desnecessárias sobre a vida, morte, fé e auto-ajuda.

A sensação que se tem após essas cenas é que o filme tenta tornar para si diversos problemas e tenta retratá-los. Insegurança nas estradas seja pela falta de estruturas das rodovias, ou pela violência sempre presente, miséria, ausência do Estado, a infância sendo explorada pelo trabalho forçado, fé e até questões ambientais entrou no filme, por meio de imagens que mostravam diversas fábricas poluindo o meio ambiente. Se não era uma crítica, não sei o que era, pois elogio com certeza não era. 

Mas outros fatores também se destoam do filme, deixando o longa meio capenga. Uma elas são os flashback. Nenhum destes conseguem dar mais vida, emoção e causar leveza ou explicando melhor a história, pelo contrário, provocam cansaço e desinteresse. Outro fator são as imagens em excesso das estradas no meio do filme, deixando o longa com uma certa fadiga.


Nem mesmo a trilha sonora salva essas cenas nesse momento. Outro ponto é a própria trilha, ela que começou bacana, na sequência do longa apenas cumpre o papel de ilustrar as cenas e nada mais, ou seja, toda a potência que essa característica tem não é usada, mas completamente desperdiçada. O final também não convence, o personagem do andarilho não tem uma explicação convincente no drama. Há também uns jovens bêbados num carro que está em alta velocidade e acabam atropelando esse pobre andarilho. Esta cena está mais para Malhação ID com personagens totalmente clichês, péssimos e em atuações sofríveis e falas que foram retiradas de livros didáticos para crianças não fazerem coisas erradas, do que um roteiro de cinema. Como deixaram isso acontecer, é a questão que fica, o filme acabou pra mim ali

Mas nem tudo são lágrimas, há momentos bons. O personagem do padre é de uma complexidade muito grande. Sua relação com a irmã é muito interessante. Mesmo sabendo que ela está doente, ele não vai visitá-la, supondo medo e receio do que enfrentará, sendo assim, pode-se perceber que a estrada para ele pode ser uma fuga, um escape para toda dor e drama que o mundo carrega. A questão da fé foi também muito bem trabalha. Sem se apegar a criticas do que é certo ou errado, o longa apenas tenta mostrar como a vida é difícil, mas que por meio da fé em Deus ou algo que esteja acima de toda explicação, é possível conseguir enfrentá-la.  O filme é mediano, alguns detalhes o desqualifica fazendo com que percebamos suas fraquezas, mas ainda é um filme família, sobre valores e crenças.




quarta-feira, 11 de maio de 2011

Stardust

Hilariante, divertido e envolvente

Stardust, uma fantasia lançada em meio a um ano de Crônicas de Nárnia e A bussola de ouro, infelizmente não conseguiu a atenção merecida da mídia e uma boa bilheteria, mas é em comparação com estes filmes e vários outros lançados ao cinema com esse mesmo gênero, muito superior em diversos pontos. O longa consegue ser divertido, mantém uma constante adrenalina e desenvolve bem os personagens, mesmos os mais coadjuvantes da história sem se esquecer de nos contar uma fabula romântica e mágica. Nada é levado a sério, pois não há como levar, afinal, isso é cinema.



A trama conta a história de Tristan, um jovem que tenta a todos os custos conquistar o coração de Victória, mas percebe que não tem muitas chances. Porém, numa bela noite eis que surge uma oportunidade, ao verem uma estrela cadente caindo sobre a terra do outro lado da muralha, Tristan faz uma proposta a Victória que aceita, no caso, se ele trouxer a estrela para ela, os dois se casariam. Depois de feito o acordo, ele parte rumo a estrela, o problema é que esta é uma bela jovem chamada Yviane que despencou do céus depois que um colar a acertou. No caso, esse colar pertencia ao um rei de um grande império que no seu leito de morte lançou um desafio aos seus filhos, aquele que conseguisse capturar o colar e tivesse sangue nobre iria tomar o trono.

Então todos partem atrás desse colar, ou seja, dessa estrela, mas no meio disso tudo ainda existem três bruxas que desejam o coração Yviane, pois ao comê-lo podem recuperar a juventude e beleza antes perdida pelo tempo. Grande a sinopse, mas não deixe se enganar, Stardust é uma fantasia com um humor negro muito refinado, que faz uma paródia das próprias histórias com esse cunho.

O filme em relação a estrutura da história, é bem pequeno, 130 minutos. Todos os personagens se cruzam de forma rápida, mortes é que mais se têm no decorrer da aventura, é príncipe jogado ao precipício pelo irmão, outro morrendo envenenado, garganta cortada e outras mortes que são cometidas. O sangue é azul, mas ainda não deixa de der sangue, tornando-se, apesar de ser uma fantasia, nada indicativo para as crianças.


A edição do filme é rápida, o diretor soube muito bem usar os recursos da trilha sonora. As paisagens são excelentes, os efeitos especiais não pecam e mostram toda a qualidade do filme aplicada nos menores detalhes. Outro ponto positivo é o elenco que está formidável. Todos estão muito confortáveis em seus papéis, destaque para o elenco coadjuvante. Michele Pfeiffer está radiante como uma vilã que para recuperar e manter sua beleza fará de tudo o que tiver a sua disposição, indo até o fim em busca do coração de Yvane, nesse papel ela mostra toda a sua beleza e maldades e, além disso, traz a tona um tema interessante e complexo, a questão da idade e como tentamos não ser levados pelo tempo. Robert de Niro como um capitão que captura raios é hilário.

Destaque também para Charle Coxx, o herói da história, a forma como ele se transforma de um jovem atrás de uma amor não correspondido à um homem cheio de atitudes e coragem é surpreendente. Claire Danes consegue levar bem a personagem, no começo aparentemente fica meio perdida, mas com o decorrer da história ela se solta e dá vida a uma personagem simpática e em dúvidas sobre suas escolhas. Outro grupo de elenco é os príncipes mortos que permanecem como fantasmas presos a este mundo devido a ninguém ter tomado o trono.


Em relação a história, ela é simplesmente bela, romance, drama, momentos cômicos, tudo o que um filme necessita está nessa película. Em tempos de dramas rasos, comedias escrachadas e fabulas fracas, Stardust nos premia com um enredo envolvente e encantador, um drama profundo, um romance delicado e piadas certeiras e após tudo isso, ainda nos mostra que sonhar é gostoso e divertido, que reinos, bruxas, seres dos mais estranhos a criaturas das mais poderosas podem coexistir num mesmo mundo e se for explicar a existência de tal fato, será perca de tempo.

A direção fica para Matthew Vaughn que até o momento tem feito filmes interessantes, são dele os Kick-ass – Quebrando tudo e Nem tudo é o que parece e a próxima aventura dos mutantes de X-men: Primeira classe. O filme é baseado na obra de Neil Gaiman e conseguiu ser recebido com boas críticas do meio especializado, mas apesar de todos os elogios, elenco e uma excelente história, o filme não conseguiu emplacar na bilheteria, uma pena.


Divã

Todos teem que aprender a conviver na vida com algo irrealizável, não é assim

Divã conta a história de Mercedes, uma mulher com uma vida estável financeiramente, um bom casamento, mas que do nada resolve procurar um psicanalista. Após isso passa a viver experiências nunca antes nem sonhadas que mudam sua vida de forma marcante.

O drama é divertido, gostoso, hilariante e dramático. O filme, uma produção brasileira, é simples em seu contexto. Não possui nenhum jogo de câmera surpreendente. A iluminação é trabalhada de forma correta. A trilha é gostosa, segue o ritmo do filme, os altos e baixos. Os diálogos são consistentes. As atuações são boas, Lilia Cabral sendo a protagonista, rouba a cena. Falando nisso, essa é primeira investida dela no cinema como protagonista, se bem que nas diversas novelas que ela fez na Globo, nunca a tinha visto no papel principal, estava apenas entre o núcleo central, mas nunca protagonista.

O filme ainda é composto por José Mayer como o marido de Mercedes, uma boa atuação, poderia ser melhor, Reynaldo Gianecchini como o primeiro amante e motivo de sofrimento da personagem de Mercedes e por fim das figuras globais Cauã Reymond como novamente o garotão (se bem que esse ator está em quase todos os filmes brasileiros lançados ultimamente), entre os não globais destaque para a amiga de Mercedes, Monica (Alexandra Richter) em uma atuação hilariante. Enfim, o que faz desse filme ser tão interessante. Talvez seja o modo como ele é levado.


O filme surge de forma despretensiosa, querendo apenas contar a história de uma mulher que se vê simplesmente diante de um analista e começa a falar sobre sua vida e percebe que por meio de uma curiosidade ela começa a viver experiências antes nunca imaginadas. Mas o filme não é apenas isso.

Alguns detalhes fazem toda diferença. Primeiro: não mostra a figura do psicanalista, sendo assim, ele pode ser eu, você ou toda torcida do Flamengo que estiver com você no cinema assistindo a esse filme. A personagem de Lilia Cabral se abre de uma forma muito interessante. Simplesmente ela incorpora a personagem e luta por ela tentando dar razões ao psicanalista ou a quem vê o filme que, sim, ela é uma mulher feliz, mas que apenas não tem total certeza dessa felicidade.

Segundo aspecto: em todo momento, bom pelo que contei, são três ou quatro vezes em que Mercedes fala uma pérola sobre a vida que todos nós sabemos, mas ninguém consegue viver na prática, ela olha para o psicanalista e diz: não é assim. Ou seja, todos nós sabemos que a vida não é fácil, que nada vem de graça, que todos tem altos e baixos, tristezas e alegrias e que ninguém é feliz vinte e quatro horas por dia, mas no meio de tudo isso ainda existe um mas que faz da vida ser válida para ser vivida. É simples? Bem, não é tão simples assim, pois teoria e prática nunca andaram bem juntas é não é agora que isso irá funcionar. Mercedes após a consulta com o terapeuta tem altos, muitos momentos altos, porém tem quedas que a fazem chorar, se desesperar e sofrer. Entretanto ela continua.



O filme é marcado por duas cenas muito interessante, que começam e encerram a história. Uma loja, ou melhor dizendo, um vestido em especial e uma galeria de arte. Porém, as ações diante dessas cenas são completamente diferentes. Enfim, um filme brasileiro muito gostoso de assistir, que faz você rir, chorar e se emocionar sem ser escachado ou cheio de clichês. Esse longa é uma prova que tem como sim um cinema consistente com uma boa história andar junto com uma boa bilheteria. Divã não está entre os filmes mais assistidos deste ano e é fato que não superou Se eu fosse você nos cinemas, mas mostrou uma história bacana, gostosa e divertida.
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segunda-feira, 9 de maio de 2011

Coisas que se pode dizer só de olhar para elas

Com um olhar terno e sensível, Rodrigo Garcia tenta trabalhar com os sentimentos que percorrem a vida de sete mulheres. Fragmentado em cinco pequenas histórias, longa nos apresenta essas sete personagens em suas dúvidas, arrependimentos, tentativas de terem seu amor correspondido e na busca de encontrar alguém que as compreenda.

Uma médica recorre ao tarô para tentar entender melhor sua vida, sua forma de ver o mundo e o que futuro lhe reserva, porém as respostas dadas pela cartomante não são tão animadoras. Uma gerente de um banco se prende a uma situação um pouco desconfortável, ela está grávida de um homem que é casado. Uma mulher passa a se interessar pelo seu nono vizinho. Uma jovem tenta se manter de pé vendo sua namorada extremamente doente e por fim, duas irmãs vivem juntas na eterna busca de encontrar alguém, um amigo, um amor.


Suas histórias não se cruzam em si, mas as personagens sim. Christine, a jovem que está presenciando a morte de sua namorada e nada pode fazer para ajudá-la é a cartomante de Elaine, a médica, que por sua vez será a responsável em realizar o aborto de Rebecca, a gerente do banco. Carol, que é cega, dá aulas de braille para June, filha de Walter, que trabalha no banco em que Rebecca é a gerente. Esse homem ainda trafegará por outra história mais ao fim do drama.

Nessa roda e mosaico que é a vida, essas pessoas se encontram e esse é um dos pontos interessantes do longa. Sujeitos que se cruzam e que se esbarram frequentemente enquanto caminham, ou que compartilham uma mesa, uma fila de um hospital ou mesmo a de um banco, enfim, são sujeitos com dramas, problemas, medos e lutas tão vivas quanto as nossas. Outro ponto positivo a invocar é como o filme trata com sensibilidade suas personagens. Elas estão perdidas em seus sentimentos, não sabendo como agir e apenas precisando que alguém as compreenda e entenda os que sentem ou o que pensam, pois afinal no fundo, elas querem ser ouvidas, mesmo que a pessoa diga a elas que estão erradas, agindo com arrogância ou com pouco pudor e é isso que algumas delas obtém de terceiros que nem a conhecem. Eles lançam verdades sobre elas, só de olhar para elas e essas palavras são aceitas com precisão, ternura e veracidade por elas, pois todas tem conhecimento dessa verdade.

É com verdades e buscas que o longa caminha com sinceridade, tentando invocar sempre o melhor de suas personagens. Um longa terno, calmo, suave que aos poucos entrega uma obra cheia de vida e questionamentos. A vida é dura, porém mais complexo e difícil ainda é compreender o que nos cerca e mudar nossos destinos.


sexta-feira, 6 de maio de 2011

Buffy - a caça vampiros


Buffy – a caça vampiros foi, de fato, um dos fenômenos pops mais cultuados da década de noventa e motivos para tal proeza não faltam. Criação de Joss Whedon, a série conta a história de Buffy, uma adolescente que descobre ser uma caçadora de vampiros, aquela que a cada geração surge com o propósito de lutar contra o mal, seja contra vampiros, demônios, seres sobrenaturais, deuses ou até o próprio mal.

A série que teve um total de 7 temporadas, mostrou por meio de metáforas ou de forma clara, as dúvidas, incertezas, dificuldades, erros e as conseqüências destes na adolescência por meio de histórias vampirescas, demônios assustadores e bruxas descontentes. Buffy marcou uma geração, pois conseguiu unir ao longo de sua temporada histórias complexas, ligada a momentos cômicos, referencias pops, com excelentes jogadas, belíssimos e divertidos diálogos e por principalmente, apresentar personagens que cativaram o público

Buffy é uma garota que teve um passado glorioso, era líder de torcida, popular e cobiçada por todos os rapazes em sua antiga cidade, mas após descobrir sobre a existência de vampiros e que ela fora a escolhida para ser a caçadora, teve toda sua vida transformada e seus valores questionados. Vinda de outra cidade, onde enfrentou uma cúpula de vampiros, abordada no Filme Buffy – a caça vampiros, e causou um bom estrago no colégio em que estudava, resultando na sua expulsão, ela chega à pequena cidade Sunnydale e descobre que esta calmaria comporta em seu interior uma boca para o inferno. Nesse sentido, esta cidade é a porta de entrada para toda espécie de mal e será contra isso que Buffy terá que lutar.


Mas dessa vez, ela não enfrentará o mal sozinha. Contará com a ajuda de Giles, um bibliotecário que foi mandado à cidade por uma organização que tem como função combater o mal e treinar as caçadoras, eles são chamados de Sentinelas. Para tentar compreender o que está acontecendo a cidade, já que um surto de morte provocadas por vampiros veem acontecendo, ele começa a trabalhar no colégio da cidade onde conhece Buffy.

Willow é uma garota tímida, porém muita inteligente, ela ajudará Buffy nas pesquisas em livros, mas com o passar das temporadas, aprenderá bruxaria e se tornará uma poderosa Bruxa, sendo até a vilã da sexta temporada.

Xander é um rapaz engraçado, que fica interessando em Buffy na primeira temporada, terá um envolvimento com Cordélia na segunda e se envolverá sempre com demônios no decorrer da série.

Angel é um vampiro com alma, ajudará Buffy na caça aos vampiros e outras criaturas. Os dois terão um caso durante o decorrer da série, mas ele sairá desse arco na terceira temporada para dar vida a uma própria série.

Cordélia é uma líder de torcida arrogante, metida e vazia. Será o alivio cômico da série. Se envolverá com a turma dos caçadores a contra gosto, terá uma relação com Xander e sairá da cidade na terceira temporada para fazer parte de Angel – o caça vampiros, onde nessa história terá uma participação maior se tornando até um ser superior e posteriormente vilã na quarta temporada.


A primeira temporada da série teve apenas doze episódios, em termos gerais foi boa, mas esse primeiro ano apenas conseguiu realmente mostrar que a série teria fôlego para mais histórias, sendo assim renovada. No primeiro ano conhecemos Buffy e seus amigos que juntamente com o Giles irão formar Scooby Gang, um grupo denominado por eles, que irão investigar todas as mortes sobrenaturais envolvendo os alunos do colégio em Sunnydale. Essa escola será o palco onde passará praticamente todas as histórias. Ao final da temporada, Buffy tem que enfrentar uma profecia, que afirma que ela irá morrer dando a liberdade ao mestre dos vampiros, para que esse possa novamente andar sobre a face da terra. Após enfrentar o vilão e seus amigos uma legião de vampiros, eles os vence. Nesse final, entram para a turma Calender, uma professora de informática, que conheceremos mais tarde na segunda temporada e Cordélia, que se envolverá com a turma sempre a contra vontade dela.

O segundo ano se apresentou como uma das melhores temporadas. A história se centra na chegada de dois vampiros à cidade, Spike e Drusila, antigos amigos de Angel, que provocavam um grande inferno por onde passavam. Novos na cidade, os dois querem trazer o caos ao local e para isso contarão com o apoio de Angelus, que após perder a alma novamente, devido a um detalhe da maldição, se voltou contra Buffy e seus amigos, tornando-se num perigoso inimigo.

Nesse segundo ano, os dramas se intensificam para todos os personagens. Buffy após perder a virgindade com Angel verá ele se transformar no seu inimigo e terá que enfrentá-lo, Giles descobre os verdadeiros motivos da chegada de Calender à cidade e sentirá traído por ela, mas terá uma nova perda quando souber que Angel a matou. Xander passa a ter um envolvimento com Cordélia e ela por conta disso, terá sua popularidade ameaçada. Willow conhecerá Seth, um cara que toca numa banda e é um homem de poucas palavras, ele também passará a integrar a gangue e ao final ela começará a estudar e praticar bruxaria, sendo ela a responsável pela recuperação da alma de Angel.



Nesta segunda temporada, destaque para os episódios Uma escola da pesada, Minta para mim e Eu só tenho olhos para você. O primeiro vale pelos momentos de tensão que conseguiu transmitir com todos os alunos presos no colégio e um grupo de vampiros liderado por Spike tentando entrar para matá-los.

O segundo, por ser fascinante, um antigo amigo de Buffy chega à cidade e passa a ajudá-la com segundas intenções. Ela se deixa enganar por ele, acreditando na amizade dele, e ele se deixa enganar, achando que se tornando num vampiro, terá realmente uma vida eterna e se verá curado de uma doença que possui e que o matará em breve. De uma forma simples, simbolizada pela ideia de ser um vampiro, a série consegue trabalhar com um assunto tão delicado que é a vida e a morte de alguém que sabe que irá morrer em breve e não aceita esse destino. E por fim, Eu só tenho olhos para você, retrata uma história comovente de amor e morte.

Destaque também para o desfecho da história, com o episódio Metamorfose parte 1. Tendo uma ação constante, o episódio conta com uma ótima trilha sonora e uma montagem que deu o tom certo ao enredo. A temporada é encerrada com Angel recuperando sua alma e Buffy o enviando para outra dimensão e ao fim, deixando a cidade por se sentir culpada ao que fez a ele.

A terceira temporada marca o fim de Buffy e toda gangue no colégio e esta, conjuntamente com o segundo e o último ano, são sem sombra de dúvidas, os melhores momentos da série, que se perdeu um pouco em sua história.


No terceiro ano eles terão que enfrentar o prefeito que está planejando algo tenebroso no centenário da cidade. Aparece também em Sunnydale outra caçadora chamada Faith que foi invocada quando a última morreu, ela tendo um jeito explosivo dará sérios problemas a Buffy, se aliando ao prefeito e voltando-se contra a caçadora. Angel retorna da dimensão para qual foi mandando. Joyce, mãe de Buffy, tenta lhe dar com a ideia da filha ser uma caçadora. Willow e Xander têm uma forte aproximação, resultando no fim do namoro com Cordélia e em conseqüência o aparecimento de Anya, o demônio da vingança. Outro sentinela aparece na cidade, Wesley, mais causando problemas do que ajudando e por fim, o relacionamento de Buffy e Angel sendo marcado pelo seu inevitável fim.

Nessa terceira temporada, a maioria dos episódios mostraram-se muito bons, deixando a temporada bem segura. Destaque para Anne, que inicia a temporada. Com uma história simples, mostra Buffy passando por um processo de negação da sua vida e do seu passado, um período de luto e dor, finalizando com ela aceitando o que ela é e as conseqüências disso. E por fim O baile de formatura e O dia de formatura – parte 2. O primeiro, pela homenagem que Buffy recebe de todos do colégio, dando a entender que eles sempre souberam de tudo o que acontecia na escola e que ela os protegia e o segundo pelo confronto final entre a caçadora com a ajuda de todos os alunos do colégio contra o prefeito.




São com histórias simples como essa que Buffy obteve seu lugar ao sol como uma das séries mais queridas da década de noventa, sem apelar para grandes roteiros ou questões emblemáticas. Por meio de seus personagens são carismáticos, o seriado brincou com os rótulos e clichês do gênero, transformando o terror em algo cômico, em certos aspectos lógico, mas o grande destaque fica pela forma como o diretor consegui abordar questões como rito de passagem, sexualidade e tantos outros temas envolvendo os adolescentes daquela década utilizando de histórias vampirescas e sobrenaturais.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Hedwig – rock, amor e traição

Ousado, diferente, sensível, delicado

Um musical bem transgressor. A história de um transexual que para escapar da Alemanha oriental com um sargento americano, realiza um cirurgia que não sai completamente perfeita e vai para a América. Lá, é deixada pelo marido à mercê sem saber fazer nada. Apaixonada por rock, conhece um jovem, filho de casal para quem trabalhava como babá. Junto dele, desenvolve ótimas canções e cria um superstar, mas é deixada de lado e traída por esse jovem, passando então a se apresentar em pequenas lanchonetes, bares e lugares mais toscos possíveis tentando obter um reconhecimento mais do que justo pela sua carreira.

É com força e delicadeza que somos apresentados a essa personagem tao marcante e vibrante. Uma figura que não teve sorte na vida, mas mesmo diante de todos os empecilhos continuou. Seus olhos expressam sofrimento, sua voz cansaço, porém suas canções revelam desejo, raiva e vida.

Fazia tempo que não via um musical tão vibrante e gostoso e um longa tão ousado e terno como esse.. Tendo como protagonista um transexual, esse drama não é para todos. Da mesma forma que esse filme é diferente, estranho, difícil, trash, ele consegue ser delicado, sensível e comovente. Sua protagonista ou seu protagonista, como melhor achar, somente pelo seu olhar nos revela um sujeito marcado pela dor. São por meio de suas canções, cantadas nos lugares mais esquisitos, que conhecemos sua história, do ponto em que ela era apenas um garoto vivendo numa Alemanha oriental marcada pelas dificuldades e restrições até a fase atual em que ele se encontra. Quando criança adorava ouvir rock americano progressivo, mas sua mãe não permitia, na juventude conheceu um sargento americano que estava disposto a casar com ele e levá-lo para a América, porém para isso, teria que deixar algo para traz. Topou fazer uma cirurgia de mudança de sexo, mas ela não foi bem sucedida. O pior de ter que passar por isso foi ver que anos mais tarde o muro fora derrubado e tanto sacrifício tinha sido em vão, era só ter esperado um pouco mais no caso. Entretanto sua sorte tinha muito a que piorar.

A segunda pessoa que conheceu e se apaixonou perdidamente foi um jovem que ela passou todo o seu conhecimento sobre a música, sendo que conjuntamente dele compôs suas melhores canções, no caso, todas eram de sua autoria praticamente, mas ele a traiu também, ficando famoso a renegando e a obrigando a trilhar outro caminho não tão bom assim. Dessa forma, chega-se onde está no momento: fazendo shows hilários por todo os Estados Unidos em bares, lanchonetes, em que muitas das vezes não são ouvidos ou respeitados. O pior para ela é saber que ainda ama aquela jovem e a dor da traição ainda a consome.

É com essa história pra lá de diferente que o longa nos conquista. As canções são também outro show a parte. Ótimas letras, melodias mais do que gostosas, algumas são realmente muito belas, outras engraçadas e divertidas como a que conta a historia da cirurgia fracassada da cantora, enfim todas as letras da músicas são autobiográficas. Dificilmente num musical, todo o repertório musical tenha me conquistado, mas com esse filme isso aconteceu, A origem do amor é a melhor. Outro ponto bacana são as ilustrações em meio as músicas, foram bem bacanas, poéticas e bem trabalhados.


No elenco está John Camreon Mitchell, é dele também a direção e roteiro do filme e Stephen Tras ficou a cargos das letras das músicas. E esse diretor obteve uma raridade, conseguiu uma atuação magistral no papel dessa transexual, uma direção impecável e segura fazendo um filme terno e muito bem construído e um roteiro ótimo. Alias, esse filme é uma adaptação de um show da Broadway criado por ele. Com o sucesso e o apoio de algumas produtoras, ele desenvolveu essa história para o cinema, tendo como base as canções já criadas e apresentadas durante os shows. O figuro do filme com suas cores vibrantes, aquela peruca loira e suas expressões faciais durante as músicas são ótimas. Momento ternos: vários, mas o final mostrando ela andando num beco escuro nu é a melhor.

Ousadia, esse é o termo que melhor pode exemplificar esse filme, mas não é algo que soe forte ou cafona. Há todo um cuidado em compor esse personagem e mostrar seus sentimentos e isso se dá de forma muito bela e comovente. Um longa que me impressionou, tanto pela direção, quanto pela entrega do seu ator, em todos os sentidos. É de Mitchell também a direção do filme bem comentado, Shortbus e do intenso Reencontrando a felicidade, com Nicole Kidman no elenco.