domingo, 18 de agosto de 2013

The Bic C: Segunda Temporada




Laura Linney retorna para a segunda temporada dessa série parar dar vida novamente a simpática, engraçada e divertida Cathy, uma professora que descobre ter um cancêr em estágio terminal. E a partir dessa notícia, entra numa verdadeira busca louca por tentar viver a vida, ao mesmo tempo que tenta enfrentar a verdade sobre sua doença.

Cathy é uma professora que possui uma vida bem pacata, casada com Paul (Oliver Platt), ela tem um filho adolescente que vive dando trabalho a ela, Adam (Gabriel Basso) e um irmão ainda mais problemático, Sean (John Benjamin Hickey). Além dessa família disfuncional, há também Andréa (Gabourey Sidibe), uma aluna do colégio que se tornará o seu objetivo de vida.

Na primeira temporada, a vida dessa professora dá um giro de 360º ao descobrir o diagnóstico dessa doença. Sempre muito correta e tentando fazer o que é certo na vida, se vê diante de uma realidade pela qual não estava preparada. Diante disso, ela se nega, se nega ao tratamento, se nega a revelar essa verdade para sua família. Negação, é sobre isso que se dá toda primeira tempoda. Após inúmeras confusões, temos um final sensível e tocante. Um belo fechamento de temporada. 

Já a segunda temporada começa com Cathy fugindo ainda da morte, agora representada por Marlene (Phyllis Somerville). Mas agora, ao contrário de apenas correr, ela tenta bater de frente com a morte, ou sua doença e busca um tratamento. Um experimento realizado por um médico que vem dado ótimos resultados nos pacientes.Cathy coloca toda sua esperança nesse tratamento e ele começa a dar certo. Nesse momento ela sente a vida novamente pulsando em suas mãos. 

Mas não é apenas os dramas dessa professora que a série vai abordar. Outros personagens ganham mais presença neste segundo ano.Sean, ao se descobrir na possibilidade de ser pai, vai tentar ser o cara mais normal possível e Rebecca (Cintia Nixon) uma boa mãe. A relação dos dois será um dos alicerces mais engraçados da série. Afinal, The Bic C trabalha um tema forte, ligada ao drama, nesse sentido, alguns momentos de descontração virão de outros núcleos da série, e um destes será deste casal louco, porém, apaixonados.

Outra personagem que ganha peso é Andrea. Ela é direta e forte, na dela, sabe o que quer e não aceita ser feita de boba. Mas nem em todos os momentos somos assim, invencíveis. E com ela não será diferente. Ela vai conhecer um rapaz, um amigo do trabalho de Paul. Ele se interesserá por ela e Andrea vai responder a esse interesse. Porém, diante de tanta felicidade, nem tudo será flores. É interessante o modo como ela será incluída na trama e dentro da familia de Cathy. 

Adam é outro que irá viver muitas experiências, sendo estas boas e más ao mesmo tempo. A entrada de Popy em sua vida mostrará alguns elementos novos em sua vida e o retorno de sua namorada ao final da temporada, o fechamendo de um ciclo. 


Mas de todas as tramas, a de Cathy se sobressai.  Durante os experimentos, ela conhece Lee (Hugh Dancy). Ele, assim como ela, também possui um cancêr em estágio terminal. Porém, diferentemente dela, ele já aceitou sua vida, seu destino e sua morte. O que ele faz é apenas viver, viver o máximo que pode e esperar. Aceitação, esse é um processo dificil pelo qual essa professora terá que passar ainda. 

O momento de Cathy nesse instante é de raiva. Raiva porque redescobriu o prazer pela vida e é justamente nessa fase que ela terá que lutar pela sua saude. A busca por esses experimentos é uma das poucas chances que ela tem. Se não, a única. Ela tem pouco tempo de vida, e o tratamento sendo positivo para ela, será um sinal que há chances, que ela pode escapar dessa com vida. Raiva, é ela que guiará Cathy a buscar ajudar Lee, a Sean e Andrea. Sua vida está presa a ela e ela a quer manter junto dela o máximo possível.

The Bic C entregou uma segunda temporada ainda mais deliciosa e divertida. O que se percebe nesse segundo ano é que o drama  ganhou mais presença e a morte também. Seja pelo cancêr, por Lee ou pelo bebê de Rebecca. Para se ter a vida, se há a morte. Estes dois elementos caminham lado a lado. A morte é dolorosa, nos causa receio, medo e angústia. Por mais que venhamos viver, ainda sim, nunca estaremos preparados para ela de fato. 

E é nesse ponto que a série soube abordar. The Big C é uma comédia, é um drama, é a história sobre a vida de uma professora comum como a todos nós. Ela possui erros, falhas e acertos. Ela está com medo, medo do que lhe pode acontecer. Medo de não estar sempre presente. Todos nós temos medo, o medo nos move e a trama em seus doze episódios, soube abordar esse temor, sempre nunca esquecer o lado engraçado da vida.

Com um ótimo roteiro, e um belo uso da trilha sonora que nessa segunda temporada é muito bem usada, a série só teve ótimos momentos. The Bic C encanta, diverti e comove. Trabalha um tema espinhoso com respeito e dignidade. Mostra que a vida está aí. Que viver não é fácil, que a morte pode chegar a qualquer momento e que nada podemos fazer para mudar isso. Não podemos controlar o universo. Não podemos prever o amanhã, podemos apenas viver o hoje. 




sábado, 27 de julho de 2013

Eu e Tu




Lorenzo (Jacopo Olmo Antinori) tem 14 anos. É um garoto solitário e sem amigos, sempre calado e sussegado. Não encara a solidão como algo horrível, na verdade, ele nem liga muito para tudo isso. Acaba as aulas no colégio, ele se retira pra um canto do corredor e lá permanece apenas escutando músicas. Seus olhos viajam em sua solidão. Nada prende sua atenção.

Quando a escola está com planos de levar toda turma a umas férias para esquiar, Lorenzo mente para a mãe dizendo que irá, mas pega o dinheiro da viagem e gasta em matimentos. Sua ideia é passar essa semana inteira no sotão da casa sozinho, sem ninguém para o importunar. Esse é o seu desejo, uma semana longe de tudo, amigos, familia, professores ou qualquer ideia que possa se relacionar numa convivência com o "outro".

Tudo sai conforme o planejado até que Olivia (Tea Falco), sua meia-irmã por parte do pai, resolve aparecer pedindo ajuda. Ela está em processo de abstinência e precisa de um local para ficar. Os dois não tem uma convivência, na verdade, nem se conhecem. É nesse embate que de certa forma se entenderão. 

"Eu e Tu" é simples em sua estrutura. A história de dois jovens num local e que fazem desde alojamento todo o universo que eles precisam naquele momento. Essa retirada significa para ambos um refúgio, um esconderijo, um lugar de paz e sossego. Porém a presença do "outro" faz com que eles encarem à suas próprias falhas e medos. 
Nesse drama, apesar de reinar a simplicidade, alguns elementos fazem toda diferença. A figura do pai, apesar de ser sempre comentada, nunca se faz presente. Ora, um símbolo de autoritarismo, limites e imposição. Essa imagem não está ali, sua ideia sim, mas sua materialização não. Nesse sentido, estes dois jovens sempre ficam preso a esse pai que não está presente na vida deles, um medo real mas invisível. 

Essa fígura do pai despertará em cada um sentimentos diferentes, seja em Lorenso, partindo para uma admiração ou Olívia por uma renúncia. Cada um deles tem uma história diferente para com esse sujeito e cada um tem uma barreira em sua vida que precisa ser quebrada e enfrentada. Em Lorezenso é a incapacidade de se relacionar e o medo de viver, em Olivia são as droga e tudo o que ela pode representar. 

A figura da mãe de Lorenzo aparece pouco em cena, mas ela nos transmite uma ideia de superproteção, ao mesmo tempo que sugere elementos sexuais, isso se percebe pela conversa do filho para com a mãe. Por qual motivo esse assunto e esse diálogo foi inserido, fica a dúvida. Se bem que, o drama possui algumas falhas no roteiro, como o próprio personagem desse garoto. No começo do longa, numa conversa com um homem, algo fica meio que oculto sobre algo que aconteceu a Lorenzo, mas em nenhum momento da trama isso é revelado. 

Bernardo Bertolucci nos mostra aqui os dramas de uma juventude marcada ou pelo excesso de amor, ou pelo excesso de um autoritarismo e uma ausência. As mudanças que a vida pede, que ela exige eles a temem e fogem dela, seja pela solidão, ou pelas drogas. Lorenzo diante da irmã em processo de abstinência percebe a vida diante dos seus olhos. Olivia, diante do irmão, percebe uma chance para recomeçar. 

Após uma década, desde seu último trabalho, "Os Sonhadores", Bertolucci retorna aqui com uma produção mais simples, mas ainda sim, com seus olhos voltados aos jovens. Mas aqui não há mais as questões envolvendo política, jovens com posturas fortes e ousadas. Aqui há uma juventude com medo, receio, presa em seu mundo buscando uma ideia, uma pergunta, uma luta, enfim, uma vida. Tanto Lorenzo, quanto Olivia estão resguardados, com medo da vida, querendo, mas não sabendo como se exprimirem, por conta disso, se voltam para si em seus mundos criados por eles mesmo. Lorenzo em seu silêncio, onde não há vozes ou sujeitos e Olivia nas drogas, onde não há sensação ou medo. 

Com uma trilha sonora bem trabalhada, o longa tem uma boa edição e bem movimentado nas ações. A trama obedece aquela linha de estranhamento entre os dois sujeitos, um certo entrosamento e partindo para uma forte ligação. Alguns elementos poderiam ser trabalhados melhor no drama, como a relação do pai e como cada um se sente diante dele, ou como a vida de cada um seguiu e tomou rumos diferentes. 

Apesar disso, o diretor resolveu focar apenas no lado mais terno da relação entre estes dois irmãos que não se conhecem direito, mas que vê nessa possibilidade uma chance de se descobrirem e descobrirem o outro e perceber que em meio a tanta diferenças, entre eles há muitas semelhanças.



domingo, 30 de junho de 2013

A festa da Menina Morta


A fé nos cega ou somos nós que nos deixamos cegar por ela?

O “Festival da Menina Morta” se aproxima e todos estão envolvidos nesse evento. Uma comemoração religiosa marcada por mitos, fé, rituais e cantigas. Estamos numa região do Brasil afastada dos grandes centros. Uma região onde a pobreza tem forte presença, assim como a crença.

Neste pequeno vilarejo em que a pesca está como única fonte de renda, há Santinho (Daniel de Oliveira), um jovem que se diz santo e que é capaz de ouvir a voz da pequena menina morta. Essa voz é o espírito dessa garota que está a proteger a todos e que segundo os moradores locais, é capaz de realizar milagres, por meio de Santinho. Prestes a ser realizada a 20ª Festa da Menina Morta, ânimos serão exaltados, dúvidas serão postas e a dor da perda que se faz presente será vivenciada ao extremo.

Com direção de Matheus Nachtergaele, “A festa da menina morta”, tem um Daniel de Oliveira que encarna com profundidade, sinceridade e beleza o personagem Santinho, um jovem que diz ouvir a voz de uma menina há muito tempo morta e que se tornou santa após esse fato.

A partir dele, conheceremos um grupo de personagens marcados pela fé, pobreza, dor e amargura. Homens e mulheres que teem na expressão da religião, uma forma de se manterem vivos e intactos diante de tantas dificuldades.

Nesse drama sobre a religião, Nachtergaele nos apresenta um mundo onde a fé cega, mas a todo tempo ficamos a nos perguntar se todos esses personagens realmente estão cegos por ela, ou fingem acreditar em todos esses milagres. A figura do próprio Santinho representa e materializa essa dúvida, ele realmente acredita naquilo que fala ou não?



“Santinho” não tem carisma, é mimado, autoritário, perde a paciência fácil, é exigente e não pensa nos sentimentos dos outros. Sendo extremamente egoísta, tem tudo a que deseja. Seu pai, (Jackson Antunes) vive bêbado e a custas do filho. O rapaz vê as atitudes dele, porém não o cobra, pois tem uma admiração por ele que chega a ser um desejo sexual. A todo momento podemos perceber os olhos de Santinho sobre seu pai, e o mesmo retorno dele para com o jovem. Há uma forte relação marcada pelo incesto que faz com que Santinho perca sua própria indenidade, não sabendo o que realmente deseja e criando sobre o pai um ciúme que irá beirar uma possessão. Ele perde essa sua identidade de filho.

Apesar de toda aldeia perceber essa relação de pai e filho, todos o respeitam, exceto Tadeu (Juliano Cazaré). Ele é o irmão da menina morta em questão e ele ainda sente a dor da perda, e sofre ainda mais pela forma como ela é usada por muitos para obter proveito e regalias. Ele tem consciência que não há milagres, ou espírito ou vozes e se revolta diante de tanta crença. Percebe a mentira que acontece à frente dos seus olhos, mas nada pode fazer para mudar isso.

Durante todo o filme, questões envolvendo fé, desejo, incesto e pobreza serão mostradas. Alguns temas ficarão de forma clara, outros serão trabalhas indiretamente.  Mas diante de todos os temas, a fé é que chama mais a atenção. A visão que fica é a de dúvida, dúvida sobre Santinho, sobre o Festival, sobre todos?  A fé sobre Santinho é sempre mostrada, mas nunca duvidada, nada se confirma, porém, nada se nega. Isso nos faz questionar: ele realmente é santo ou fingi ser? Se não é, ele sabe o que está fazendo ou de tanto mentir para todos, acabou sendo enganado por ele mesmo? E todos que o conhecem, realmente são enganados de fato ou fingem que são para que a dor da verdade os assombre menos?


Dor, no fundo esse drama fala sobre a dor. Quando ela não vivida, não é vista de frente, todos precisam de uma forma de ocultá-la. Deixá-la ali no canto, não sendo vivenciada. É nesse momento que entra a fé, ela materializa essa dor não colocada de frente. Eles se fecham em seus “milagres” e se calam diante da vida. O único personagem a sentir e chorar é Tadeu. Ele representa esse enfrentamento. Porém, próximo ao final, Santinho também irá se deparar com uma verdade, uma dor particular, ligada ao abandono, a sua situação de filho e a sua condição de um rapaz comum. É nesse momento que se encontra o ápice deste drama, marcado por fortes diálogos, cenas e metáforas. No fim, Santinho fala sobre a dor, a dor que precisa ser vivida, vivenciada e expurgada, como um rio que flui e deve correr adiante.

Nesse drama, Nachtergaele aborda com ternura esses personagens. As imagens revelam todos esses homens em seus dilemas e medos. A câmera os mostra em suas intimidades. Os expõem em meio a dor, numa imagem crua, nua e voraz. Todos são expostos, não há beleza, há apenas a vida. Uma vida marcada pela dificuldade, pela pobreza e falta de perspectiva. Uma comunidade simples que tem na fé a força motriz da vida. 

Uma força que ora os guia para a verdade, ora os mantém presos a cegueira. A fé cega, a verdade nos liberta e a dor no move.



domingo, 9 de junho de 2013

Touch - 1º Temporada

 

Em Touch, Kiefer Sutherland é Martin, um homem viúvo que tem dificuldades em criar seu filho, Jake (David Mazous). Jake é uma criança especial. Com 11 anos de idade, nunca disse uma única palavra. Desde que a esposa de Martim morreu nos atentados 11 de setembro, ele tem a função de educar, sustentar e tentar criar laços  com seu filho, mas essa função tem sido cada vez mais difícil.

Trabalhando antigamente como jornalista, sempre estava em viagem e por conta disso, se sente culpado por não ter tido uma forte presença na vida de seu filho e por não ter passado mais tempo com a esposa. Essa é culpa que sente e que o faz pensar que Jake não se relacione com ele da forma como ele desejava. 

Mudando de emprego em emprego, nunca conseguiu ter uma relação boa com seu filho. Muito ligado a números, Jake sempre está a escrever sequências numéricas. Martin sempre via essa obsessão do filho, mas nunca pensou que nada de especial pudesse existir sobre esse fato. Porém, existe. 

Jake é um garoto especial, ele tem capacidade de perceber pelos números que nos cercam toda a conexão que rege a vida. Tudo está conectado. Esse é o lema da série. Pessoas das mais diversas, vivendo em lugares dos mais distintos estão todos interligados. Todos estão a espera de serem tocadas, de terem suas dores aliviadas e suas vidas mudadas, mas precisam de um fator determinante, uma ação de um "outro" que poderá modificar suas vidas. 

Jake tem essa capacidade de conectar a todos, de interligar e ele fará isso. Sua função é aliviar a dor das pessoas e concertar as falhas do universo. E terá na pessoa do seu pai, o sujeito que fará fisicamente essa mudança, essa ligação. 




A ideia é grande e ousada. Afinal, uma série que tem como lema uma conexão entre diversas pessoas, pelos motivos mais imperceptíveis é algo grande. Se o seriado começa bem, impactando e causando surpresas, sua continuidade perde força, expressão e torna-se normal. 

Mas ainda sim, suas histórias nos encantam, nos surpreendem, seja pela sua carga dramática, sensibilidade ou honestidade com que seus personagens e suas tramas são tratadas. Diversos personagens são interligados, sujeitos marcados pela vida, pela dor, pelo presente e que estão espalhados por vários cantos do mundo. Palestina, Israel, Iraque, Europa, Brasil.

No primeiro episódio conhecemos Jake e Martin. Ele tentando criar seu filho e seu filho tentando lhe dizer algo por meio dos números. Entra em cena Clea (Gugu Mbatha-Raw), uma assistente social que terá como objetivo avaliar a educação dada por Martin ao seu filho e se ele tem a capacidade de prover todos os cuidados necessários para a criação de Jake.

Conforme a trama vai avançado, tanto Martin quanto Clea percebem o dom de Jake e como ele consegue perceber os padrões que unem a todos e como por meio destes, ele se interage com o passado e o futuro.  De certa forma, tudo está coordenado a ser realizado, porém, algo dá errado e a vida não segue o seu curso corretamente, então Jake entra em cena para refazer o fluxo da vida. A teoria que rege essa série está ligada a vários campos, que vão de religião a mais pura astrologia. 




Aos 12 episódios, conheceremos pessoas que voltarão ou não à trama. Pessoas simples, marcantes, dotadas de sensibilidade. Algumas tramas nos encantam, outras não chegam a impressionar, porém outras nos surpreendem. A cada episódio conhecemos mais sobre a mitologia da série e sobre quem de fato é Jake e qual a sua função nessa terra. Assim como também conhecemos uma possível organização que vai ganhando força e presença e se torna a principal vilã desta história. 

Quem são? Não sabemos corretamente, só é revelado algo, eles teem conhecimento dos dons de Jake e o querem e para isso, farão de tudo. O episódio final não tem a força do seu piloto, mas encanta, e nos entrega um fim de temporada marcado pela sensibilidade. 

Touch, com criação de Tim Kring, e direção executiva de Kiefer Sutherland, aposta nos dramas humanos, nas histórias de pessoas desconhecidas, e por meio de Jake, podemos conhecer melhor suas tramas. Talvez o mais interessante aqui não é de fato o dom desse pequeno garoto e sua missão de aliviar a dor do mundo, mas estas pessoas em si. O bombeiro que se sente culpado por não conseguir salvar uma mulher. Um jovem executivo que após sofrer um acidente, se sente na obrigação de realizar algo, ainda que esse “algo” ele não saiba. A garota que sofre uma desilusão amorosa, mas que por meio da internet promove uma total união entre pessoas do mundo todo, pela tentativa de juntar dois jovens que se amam. Um pai que busca constantemente uma celular, que trafega por vários cantos do mundo. Seu desejo é rever as poucas fotos que restam de sua filha, que há anos morrera. 

Estas pessoas que trafegam por essa trama são pessoas, homens e mulheres dotados do mais puro sentimento e que se tornam protagonistas nesse seriado. Com o avançar da trama, Jake ganha destaque, assim como Martin e Clea e suas dores e seu passado também ganham presença. 

Ao fim da temporada, uma nova personagem entra em cena, outros saem e a busca por compreender essa missão ao qual Jake está incumbido, continua. A série, infelizmente, devido a baixa audiência, foi cancelada ainda em sua segunda temporada. Uma pena, porém ainda sim, é uma série rica, com suas falhas, mas também, com seus acertos.
 Uma trama envolvida nas probabilidades, nas sequências numéricas, nos padrões e que revelam homens, simplesmente as pessoas em suas vidas, tentando viver seus medos e seus sonhos.  

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Canções de Amor




"Canções de Amor" é sobre o amor, sobre a dor, sobre a perda e um possíuvel começo. 

Este drama francês é repleto de canções que retratam o amor, simplesmente o amor. Um musical simples, terno e tocante que nos conquista pela sua simplicidade. Uma melodia percorre todo o drama, uma amargura profunda está sobre todos os personagens, porém, o ato de cantar os deixam mais leves. Esse filme é sobre o amor, não sobre ideias, movimentos, mas sobre esse sentimento tão puro e inocente.

Ismael (Louis Garrel) possui um relacionamento de anos com Julie (Ludivine Sagnier). Ele a ama e constantemente diz isso a ela. Porém Julie não tem a mesma certeza desse sentimento. Eles tem uma relação a três e o terceiro elemento desse namoro é Alice (Clotilde Hesme), amiga de Ismael. Esse triãngulo passou a existir há poucas semanas, mas já consome uma boa preocupação de Ismael, já que nesse triângulo, tudo transparece que é ele quem ficará de fora, apesar de Alice se sentir como uma ponte entre os dois e os manter unidos ainda. 

O filme é divido em três partes: Separação, Ausência e o Regresso. Cada parte estará relacionada intimamente a Ismael. Mostrará suas ações e atitudes, sejam elas movidas pelo medo, pela dor ou pelo amor.

Em "Canções de Amor", Christophe Honoré aposta no musical, mas não é aquele em os atores soltam suas vozes, numa desmontração que realmente sabem cantar, mas seu elenco apenas susurra palavras rimadas, envolvidas em belas melodias. Essas canções representam seus sentimentos, medos e receios. Elas completam uma frase, uma palavra não dita e são usadas como diálogos. Talvez aí que esteja a beleza desse filme, canções simples, perfomaces mais simples ainda, porém com o mais puro sentimento, em que todos se entregam totalmente às suas canções.




Na primeira parte vemos esse triângulo amoroso, mas já podemos perceber que eles já estão desgastados. Um casal em crise que tem como eixo de sustentação um terceiro elemento que é Alice. Ela trabalha com Ismael, divide momentos com Alice, mas sabe qual é o seu lugar nessa relação, sendo que se coloca como tal.

Com uma perda ainda no começo, os caminhos de Alice e Ismael tomam rumos diferentes, outros elementos ganham a vida e a dor se instala. Nesse momento, a tristeza é trabalhada com muita ternura, mas de forma delicada e as músicas aqui nesse momento entram para amenizar essa dor e mostrar o quanto todos estão perdidos. O interessante nesse drama é que vemos a dor de forma tão suave que nos esquecemos que a morte está ali tão presente e tão forte. Ismael sente a ausência de Julie, e não sabe como se comportar, mas precisa tomar um atitude. O que ele precisa na verdade é vivenciar essa dor.

Mas ao final, novos ares reaparecem, a chuva cessa um pouco e essa Paris mostra como o amor ainda é forte e intenso, mas é um "amor" não preso a rótulos, mas apenas a um puro e verdadeiro sentimento. É nesse momento que entra o personagem de Brendom. Essa relação é construída de forma natural e é um dos melhores momentos do longa, conjuntamente da presença de Alice que é encatadora e dá brilho em todas as cenas em que aparece.

"Canções de Amor" quer mostrar que seus personagens são reais. Apesar de toda cantoria, o que eles querem expressar por meio dessas melodias são seus sentimentos, sejam eles de prazer, duvidas ou medos. Em muitos momentos, nos faltam palavras e sempre alguma música se coloca como verdadeira declaração. E estas são feitas nesse filme justamente para que estes personagens declarem o que sentem. Essas músicas nascem de momentos mais intímos ou simples, seja numa cozinha, num parque ou mesmo nas ruas desta Paris.

Por ser um musical, sua trilha sonora é excelente. Belas letras envolvidas numa melodia triste e amarga, mas que em alguns momentos ganha tons mais intensos e alegres. É simplesmente prazeroso ouvi-las. Em todo o filme, um clima meio pesado prevalece no longa, mas seu desfecho tem uma pitada de alegria e claro, uma declaração de amor: "Me ame menos, mas me ama um pouco mais". 

O elenco é otimo, a direção de Honoré consegue trazer humanidade aos seus personagens, revelando como estes são frágeis, sentimentais e acima de tudo, humanos. Louis Garrel e Clotilde Hesme são os que se destacam. As cenas envolvendos estes dois são cheia de carisma, graciosidade e ternura.

"Cancões de Amor" é repleto de sentimentos, verdadeiros e profundos, repletos de canções de dor ao amor. Um filme que se vê e constantemente deseja revê-lo. Um drama que aborda o amor e um recomeço, por meio de melodias que retratam a vida em seus mais diversos momentos. 


 

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Deixe a luz acesa, ...


 Em “Deixe a luz acesa”, drama expõe homossexualismo e dependência em drogas, mas também o vazio de uma geração, de uma sociedade. Sentimentos de medo e de solidão, a não realização, a busca por algo que nos complete e que nos faça sentir mais seguro com relação a tudo o que nos cerca estão nesse drama, estão sobre esses personagens. 

Uma bela canção começa, quadros expressionistas de nu masculino são jogados à tela. Imagem e música se casam numa junção perfeita. Nos sentimos bem, o som toca, a melodia é agradável. Após isso vemos Erick no telefone num bate papo buscando sexo fácil. Estamos em 1997, nesse primeiro encontro, conhece Paul (Zachary Booth) que após o sexo afirma possuir uma namorada.

Os dias decorrem e Erik (Thure Lindhardt) ainda está nessa busca por satisfazer seus desejos.  Paul retorna e nasce entre eles um sentimento mútuo. Cada um possui seus segredos, enquanto Erick tem queda pela busca do prazer, Paul (Zachary Booth) tem as drogas em sua vida.

A cada ano, o relacionamento deles fica mais forte, assim como os defeitos de ambos se mostram claros. Enquanto Erick está profundamente mergulhado na produção de um documentário, Paul está se lançando cada vez mais nas drogas. E é assim que acompanhamos esse relacionamento do momento em que surgi em 1997 até 2008. 


“Deixe a luz acesa” trabalha com humanidade e sinceridade a busca de todos por algo que os faça sentir completos. Seus personagens estão em busca, numa procura contínua, seja por um filho, a realização de um documentário, ou a necessidade de matar o desejo de um vício.

Mas nem tudo dá certo nesse filme, assim como nem tudo dá certo na vida. Nessa trama, o homossexualismo é abordado com muita naturalidade, isso é bom, ok, mas o preconceito e as dificuldades imposta a estes que aceitam vivenciar essa vida não. Paul e Erick vivem, moram juntos, tem uma relação juntos, mas a discriminação e as reprovações não aparecem, é como se estes vivessem numa redoma de vidro, numa bolha onde tudo é perfeito. Mas em meio a essa perfeição, a imperfeição ainda está presente, materializada pelo vazio que todos temos em nossas vidas.

Quando estes dois jovens começam a se relacionar, outros problemas aparecem e nesse ponto, “Deixe a luz acesa” acerta o tom e trabalha com o medo da traição, das drogas e da doença.  Um medo que não se compreende e que não se entende ou explica, mas que se sente. Guardamos para nós.

Nesse momento, o longa acerta o tom. Erick sofre, sofre muito ao longo desse relacionamento. Mas quando tudo indica que bons ares virão sobre a vida deles, percebe que nada é como pensou ser e aquele sentimento que o movia não o move mais, então, o que fazer diante disso? Quando o fim chega, um novo começo pode dar as cartas. Quando um problema nos surge e é resolvido, outro aparece. Nunca estamos bem com nós mesmos. 


 

Li em certa crítica que em alguns momentos o homossexualismo é mostrado ligado a promiscuidade, principalmente em seu começo. A meu ver, isso não se revela dessa forma. Nesse drama há jovens em busca de algo, ora e o que é o sexo se não uma satisfação momentânea que apaga o medo da vida, para em seguida surgir ainda mais implacável.

Banhado por boas canções, retratando a intimidade de seus personagens, se mantendo distante e perto, “Deixe ...” mostra apenas personagens, sejam estes homossexuais ou não. Sujeitos que tentam, mesmo diante de tudo na vida. Ao final, problemas que cercam a todos, os cercam também. O fim vem, envolto de um sentimento e uma sensação que tudo valeu a pena, ou que ainda valerá.

O elenco é razoável, a direção acerta, a trilha é muito boa e as intenções sobre esse longa são ótimas. É um prazer saber que filmes direcionados a um público fechado ganham mais espaço juntos a outras produções. Isso nos mostra que o diferente torna-se próximo e o que era “diferente”, se revele nem tanto assim.

O tempo muda, valores se manteem, novos são construídos e essa busca por compreender o que nos move contínua. 



Um rapaz do Sul


 

Amor, desejo e violência. Uma dose de racismo, misturada a um forte preconceito, sob um sol escaldante. Esse é o cenário que irá prevalecer sobre esse “Um rapaz do sul”. 

Ward (Matthew McConaughey) é um jornalista que retorna à sua cidade natal com o objetivo de investigar as acusações de assassinato que estão sobre o preso Wetter (John Cusack). Ele está condenado e prestes a receber a pena de morte por ter matado um policial. Mas Ward vê nessa prisão graves falhas na forma como todo o caso foi guiado. Com essa reportagem ele pode obter o prestígio que tanto deseja.

Junto de Ward está Yardley (David Oyelowd), um jornalista negro que está obtendo fama em sua carreira. Seu intuito é ter o respeito que merece na profissão. Sendo negro, sente o racismo de perto, seja na carreira ou na vida. Chegando ao sul do país, vai se deparar com um estado onde o negro não tem lugar e terá que se impor com autoridade para não ser humilhado pela sua cor.

Charlotte (Nicole Kidman) é uma mulher perto dos seus quarenta anos que diz estar apaixonada por Wetter. Os dois trocam inúmeras cartas de amor, sexo e desejos. Ela tem total certeza que ele é inocente e vai ajudar Ward nessa empreitada. Jack (Zac Efron) é irmão de Ward. Expulso da faculdade após um ato de rebeldia voltou a morar com o pai. Trabalha pra ele entregando os jornais, muito ligado ao irmão, topou ajudá-lo na busca de descobrir a verdade sobre esse crime. Esse grupo de personagens irá trafegar por uma história densa, marcada por segredos, brutalidade e violência. 


“Um rapaz do Sul” tem uma Nicole Kidman extremamente sensual, um McConaughey numa atuação vigorante e uma direção que não peca e abusa das cenas fortes onde a crueza da vida dá o seu destaque. 

Com direção de Lee Daniels, esse drama abusa das imagens bizarras. Um filme cru, forte e viril. Um sul quente e injusto onde uma minoria está renegada a não ter uma voz. Em meio a direitos civis que estão começando a serem proclamados, nessa região, as mulheres estão subordinadas a homens violentos, negros a terem que se calar diante da opressão e homossexuais estão sujeitos a serem humilhados e mortos com a mais pura brutalidade.

Com uma fotografia estourada que abusa dos cenários quentes, “Um rapaz do sul” invoca a todo o momento essa região dos Estados Unidos marcado por um forte calor, pobreza, preconceito, violência e racismo. Em meio a pântanos, mato, animais selvagens e rios, enfim, está toda pureza e selvageria da vida humana. Essa imagem está representada, seja por meio das paisagens ou pela postura de seus personagens. Homens e mulheres perdidos na vida, sem expectativas e que buscam em meio a essa brutalidade que é a vida uma forma de se manterem vivos.

Não há como não ver esse longa e se impactar com as cenas. A violência está diante de nossos olhos e estamos fracos diante dela, nada podendo fazer. Ao final, o que resta a estes personagens são lágrimas de dor e revolta em meio a seguinte pergunta: como tudo isso pôde acontecer? 


O melhor desse filme está em seu elenco, onde Nicole Kidman se sobressai como Charlotte, uma mulher intensa e forte, sensual e frágil. Se num começo do longa ela nos transmiti ser extremamente sensual, capaz de levar homens a loucura, com o passar dos minutos, ela se revela doce, delicada e frágil que só deseja ter alguém ao seu lado.

A relação que se cria entre Chalortte e Jack é o que há de melhor. Uma amizade marcada por uma inocência, onde ele se vê perdidamente apaixonado por ela e Chalortte, tendo consciência desse amor, não compreende como ele pode estar a amando, uma mulher que não pode oferecer nada a ele. 

Alem dessa atuação, há um excelente roteiro que abusa das cenas, cenas essas onde tem até uma Nicole Kidman provocando e sensualizando, fazendo com que um John Cusack chegue ao seu orgasmo, sem ao menos tocá-lo. Essa foi uma das cenas mais emblemáticas do longa que rendeu ótimas criticas para a atriz.

“Um rapaz do sul” caminha por um lado intensamente dramático e que mostra uma face violenta do homem. Um lado capaz de matar e sentir prazer em cometer tal ato. Um lado sujo, vulgar, escuro, obscuro e que não queremos aceitar. Um lado que fere, marca e sangra.