quarta-feira, 8 de abril de 2015

Sobre Homens, Mulheres e Filhos



Sobre homens, mulheres e filhos. Sobre amores, dores e superação. Sobre erros e acertos. Sobre confiança e proteção. Jason Reitman em seu mais novo filme traz uma trama envolta de vários personagens onde todos se cruzam entre si, mergulhados em suas vidas, perdidos e conectados a diversas redes sociais. Dialogam com o mundo que os cerca, mas se calam com as pessoas mais próximas às suas vidas. Um longa tocante e terno que consegue exprimir toda dramaticidade, complexidade e contrariedade existente na sociedade no momento.

Don Truby (Adam Sandler) e Rachel Truby (Rosemarie DeWitt) são casados há anos. Perderam entre si aquela paixão e calor na cama. vivem, se falam e transam meio que obrigatoriamente, numa relação quase robótica e agendada. Ele passa seus dias no quarto se masturbando vendo vídeos pornôs, ela procurando amantes pela internet.

Eles são pai de Chris (Traves Topi), um adolescente que joga no principal time de futebol da escola. Na flor da adolescência, está descobrindo seu corpo e assim como o pai, se perde nos vídeos eróticos da vida. Ele tem uma atração e um desejo por Hannah Clint (Olivia Crocicchia) (garota cantora popular que conseguiu a fama por meio de sua “beleza” e se perdeu em sua “maturidade”?), uma adolescente que se sente atraente, acima da sua idade e acha que sua beleza a levará a conquistar o que deseja nessa vida. Gosta de seduzir Chris e mostra-se sempre para suas amigas mais como uma mulher do que uma adolescente.

A mãe de Hannah, Joan (Judy Greer), tem um comportamento com a filha mais de amiga do que de mãe.  Sempre permissível, deseja com que a filha tente alcançar o que tanto deseja, ser uma estrela do cinema. E para isso, sempre estará tirando fotos de sua filha, fotos que em certos momentos chegam a serem fortes e ousadas. Na opinião dela, ela dando esse apoio e suporte para a filha, a ajudará em sua vida.



Joan num encontro sobre como criar os filhos, conheceu um homem, Kent (Dean Norris). Os dois se interessam um pelo outro e iniciam um relacionamento. Ele é calado e desde que sua esposa o abandonara não se envolveu com mais ninguém. Não sente desejo, vontade ou prazer. Apenas vive calado, amargurado, em silêncio. Nesse novo relacionamento, ele vê possibilidades e sente-se vivo como antes. 

Ele tem um filho, Tim (Ansel Elgort), que assim como ele, desde que sua mãe partiu, se fechou em seu mundo. Saiu do time de futebol, fato esse que ainda sempre é criticado por todos do colégio, inclusive pelos professores. Perdeu amigos e conhecidos e encontrou nos jogos online em rede um conforto e abrigo.

Ele se interessa por Brandy (Kaitlyn Dever), uma garota que assim como ele é reservada e calada. Não tem amigos com quem possa conversar. Os dois se olham, conversam e iniciam um relacionamento calmo, lento e comovente. Ela também possui seus problemas, sua mãe no caso, Patricia Beltmeyer (Jennifer Garner), uma mãe extremamente protetora e controladora. 

Ainda por fora há Alisson (Elena Kampouris), uma adolescente que não come, é apaixonada por um garoto do colégio mais velho e acha que alcançando um certo padrão de beleza vai conquista-lo.


Esse é o mosaico construído por Reitman em seu mais novo filme e no centro da trama estão ainda as relações sociais. Há todo momento vemos telas e conversas, elas representam as inúmeras conversas que todos os personagens têm em seus aparelhos e computadores. Todos mergulhados em redes sociais, mas que permanecem calados em suas vidas. Chega a ser engraçado algumas cenas em que três amigas conversam entre si enquanto duas delas mantém uma conversa em off por meio do celular debochando da amiga.

Nesse drama, o que o diretor faz é uma abordagem dessa sociedade tão contraditória entre si. Ao mesmo tempo em que temos contatos, mantemos amizades e conversamos com pessoas que estão tão distante de nós, não conversamos ou dialogamos mais com pessoas próximas de nós ou mais importantes. Todos conversam com todos, menos com as pessoas que realmente precisam conversar ou que precisam manter um elo de relação. Pais e filhos, maridos e esposas, amigos.

Em todos os relacionamentos entre estes personagens, o que se tem é um silêncio estarrecedor. O único casal que mais possui diálogo entre si, Tim e Brandy, são considerados os mais estranhos do colégio. Torna-se engraçado, os mais sociáveis, que não se perdem em redes e vivenciam suas vidas com mais intensidade e realidade, são colocados no filme como os mais estranhos. 

É interessante notar também o pôster do longa em que a figura de todos os personagens se perdem no espaço e não há como de fato visualizá-los, entretanto os personagens de deste dois jovens são mostrados ao centro, mais nítidos, mais claro, com mais cor, mais vida e mais intimidade e relação.



Seguindo a mesma linha de Crash, “Homens, mulheres e filhos” constrói seu drama em cima de vários personagens. Vários arcos em que nunca há um protagonista de fato. Neste drama todas as tramas se entrelaçam e o mais interessante, todas se destacam em suas particularidades. No começo, somos apresentados a todos os personagens, seus dramas e seus medos. Aos poucos vemos suas histórias e seus problemas ganharem forma ou sendo percebidos por eles mesmos e ao final, cada um vai tendo seu desfecho. Um fim marcado pela ternura, dor, maturidade e redenção.

Uma voz une a todos e essa voz é a de Emma Thompson. Ela retrata a vida de todos e os intercala com um fato, a grandeza do Universo. Quanto mais percebemos como o universo é infinito, mais percebemos que nossos problemas são pequenos diante da grandeza da vida. Entretanto, quanto mais vemos nosso problema, mais o achamos imensurável. 

Perceber a vida, a sua finitude, a sua grandeza e compreender que fazemos parte de um todo, nos ajuda a perceber o quão nossos problemas são pequenos diante de nós. Estes já podem serem suportados e aceitos. Os personagens deste drama caminham para essa verdade, para essa aceitação, para esse conflito e ao final, se deparam com suas dores e suas verdades.

Nesse sentindo, “Sobre Homens Mulheres e filhos” aborda um tema caro a sociedade, sua solidão e carência e como nos afastamos de quem devíamos estar próximos e como as relações reais vem perdendo força mediante as redes sociais que tem como objetivo fundamental tornar as relações mais vivas. Por fora, o longa ainda toca em temas como aceitação, dor, verdades e traumas do passado com muita delicadeza e ternura, nunca aprofundamento um tema em especifico, entretanto nunca o tratando com superficialidade.




sábado, 4 de abril de 2015

Caminhos da Floresta



Sombrio, envolvente e divertido. Em “Caminhos da floresta” uma gama de personagens se cruzam na busca de realizarem seus desejos e mostram as consequências destes. Em sua mais nova investidura no cinema, os estúdios da Disney relança seu mais novo olhar sobre os famosos contos de fadas.

Numa pequena vila há um padeiro (James Corden) e sua esposa (Emily Blunt) que desejam ter um filho, mas não podem. Neste caminho ainda há uma garotinha que precisa ir visitar sua vó na floresta, mas deseja viver novas aventuras. Uma jovem chamada Cinderela (Anna Kendrick) que deseja ir ao baile do príncipe (Chris Pine), entretanto não possui as condições e sua madrasta (Christine Baranski) não permite e um garoto, João (Daniel Huttlestone) que deseja uma melhor condição de vida, sem precisar vender a vaca que tanto ama.

Em meio a tantos desejos, uma bruxa (Meryl Streep) tenta realizar os desejos destes personagens, mas para isso precisará de certos objetos. Uma capa mais vermelha que o sangue, a vaca mais branca do que o leite, os cabelos mais louros que o milho e os sapatos mais puros do que o ouro.

Na busca destes desejos, estes personagens irão se cruzar, em meio a um musical que fala sobre desejos e consequências e sobre como somos os únicos responsáveis por nossas atitudes.



Os contos de fadas dos Irmãos Grimm, sempre foram lançados aos cinemas pela Disney com uma áurea mágica e inocente. Sendo tratadas como contos de fadas, valores como amor, ternura, força e garra foram abordados e sempre valorizados. O bem sempre vencia ao final da história e o mal e suas ações sempre eram castigados. Havia uma clara distinção entre o herói e o vilão.

Nessa nova abordagem os personagens perdem essas particularidades e a distinção entre o bem e o mal se esvai. Baseado na peça de teatro da  Broadway muito bem recebida pela crítica, “Caminhos da floresta” tenta capturar a essência dos contos de fadas dos irmãos Grimm,. Histórias mais sombrias, macabras, dotadas de complexidade, dramaticidade e onde o elemento do horror prevalece.

Neste novo drama, a Disney tenta manter essa dramaticidade. Apesar do elemento terror não prevalecer com grande força, ele ainda se encontra no filme, pelas suposições, pelos não ditos, pelos detalhes, silêncios e diálogos. A fotografia sempre é escura, a trilha possui em sua melodia tom pesados, seguidos por um musical gracioso e penetrante.

O longa começa bem, com uma boa desenvoltura entre todos os personagens. Os principais fatores das tramas dos contos são mantidos. Entretanto, nada com muitos detalhes. As histórias tem como elo de ligação a bruxa, o padeiro e sua esposa. São eles que guiam o filme, dando dramaticidade e alivio cômico também. Cada personagem nesse caminho tem algo a desejar e são por estes desejos que serão movidos.




Passado algum tempo de projeção, o longa meio que se perde em sua trama. Quando todos conseguem o tão final feliz, a impressão que temos é que algo está errado e não há mais para onde caminhar. É neste instante que o longa modifica toda sua estrutura e mostra sua verdadeira face. 

“Caminhos da floresta” aposta num belo musical para mostrar homens e mulheres em suas vidas e suas dores. Esqueça os finais felizes, ou o príncipe encantado dotado de qualidades. Neste drama/comédia, os estereótipos se desfazem e vemos o bem e o mal com a mesma proporção.

O príncipe encantando não é tão encantado assim, a bruxa que ameaça a todos, não é tão vilã assim. Enfim, o que o roteiro faz com estes personagens é humaniza-los, ou seja, dar mais pecados e falhas a estes homens e mulheres e mediar as perfeições, afinal, somos humanos, marcados e moldados tanto pelo bem, quanto pelo mal. Cada personagem deseja algo em particular e estes serão realizados, tais desejos provocará toda uma cadeia de acontecimentos que promoverão desfechos marcados pela dor, sofrimento e morte.



Em se tratando de características cinematográficas, o longa possui muitas qualidades. Com uma desenvoltura ágil, o drama intercala as tramas e personagens de forma gostosa e divertida. A fotografia é marcada por tonalidades escuras em que o preto e o azul prevalecem. As sombras ganham destaque e um tom sombrio decai sobre todos os personagens.

O musical é outro destaque. Sem ter números musicais de fato, os personagens apenas cantam suas falas numa melodia gostosa. O elenco está muito bem afinado, cantando e atuando em grande estilo. James Corden e Emily Blunt, assim acompanhado por Meryl Streep Anna Kendricklevam se destacam.

“Caminhos da floresta” é isso, é um divertido musical que agrega em seu roteiro toda essência das histórias dos Irmãos Grimm,. Um longa em que temos a possibilidade de rever essas tramas, impregnadas por essas primeiras características.


O longa possui um tom de moralismo, isso é fato, mas, ainda assim, esse moralismo não se sobressai sobre o drama e ao final, só temos uma certeza: “finais felizes” nem nos contos de fadas. 


quinta-feira, 12 de março de 2015

Cake - Uma razão para Viver



Em “Cake” drama constrói com honestidade e sinceridade o difícil caminho de uma mulher que está imersa em suas dores, mergulhada em seus traumas, adormecida pela vida e que não vê mais em sua existência uma razão para viver.

Jennifer Aniston neste drama dá vida a Claire Simmons, uma mulher amargurada pela vida. O motivo, nós não sabemos. Ela participa de um grupo de ajuda para pessoas com depressão. Mas neste grupo sempre esta a ironizar todas as participantes. Ela é viciada em medicamentos para dor, se relaciona sexualmente com homens que não conhece e não se ajuda em nenhum momento, seja no grupo de apoio, ou na fisioterapia ou em sua vida. Sua rotina é acordar, tomar seus medicamentos, reclamar, dormir e viver pelos cantos. 

Quando Nina (Anna Kendrick), uma das moças do grupo de auto-ajuda, comete suicídio, ela se vê interessada pelo caso, em compreender quem era essa mulher e quem ela deixara nessa vida. O motivo que a leva a conhecer essa moça, nem ela sabe.

E dessa forma vai até o local onde ela se matou e depois entra em contato com o viúvo de Nina, Roy (Sam Worthington). Ele tem um pequeno filho que tenta criar da melhor forma possível, mas ele ainda sente a falta da esposa. Claire então mergulha na vida destes dois sujeitos e a partir destes desconhecidos, se depara com sua própria vida e existência.

Calire tem levantes, seguidas por recaídas, mas ainda sim, não aceita a dor. Ela possui um rosto com sérias cicatrizes, anda com dificuldades, está sempre a sentir dores. A única forma que encontra para viver é abusar dos medicamentos que compra ilegalmente. Enfim, a dor que possui ela não quer sentir, mas ao mesmo tempo, não quer se levantar de sua posição de vítima de toda sua vida.

A todo o momento, ela é assombrada pelo fantasma da falecida. Essa mulher que a assusta tenta convencê-la a também a se matar questionando sobre quais os motivos que a fazem viver. São com estas indagações e em não aceitar o fim de fato que Claire irá lutar e tentar se levantar do seu próprio descaso.




“Cake” é um drama sincero que não está interessado em manipular sentimentos ou trazer a redenção a sua protagonista, mas analisar como a dor nos consome e como sair desse cenário de morte em vida é um trabalho árduo e trabalhoso.

Claire é uma personagem que não conhecemos, mas aos poucos percebemos suas dores e  compreendemos por qual motivo ela está assim, mas nada nunca é falado de fato. Esse distanciamento do fato faz com que venhamos vê-las pelos olhos do presente, não pelo passado.

A dor nos fere, nos consome e nos mata e Claire encontra-se neste estado. Nada muda em sua vida, nada. Mas o contato com essa mulher que se matou, abre os olhos dela para a sua vida. Não há milagres ou um grande amor. Apenas a percepção da dor e da vida.

Dizem que toda dor deve ser sentida. Numa sociedade marcada pelo alívio da dor mediante a todos os tipos de medicamentos, ficamos dopados e anestesiados com relação a vida. Ficamos desligados do mundo, quando na verdade, deveríamos sentir a ferida sangrar e o luto nos mover.



Em “Cake” essa mudança se dá aos poucos, pois afinal toda mudança é lenta e gradual. Nada brusco. Mas ate ela chegar a essa verdade, essa aceitação, muitas lágrimas serão derramadas, muito do seu passado será revelado.

Com uma direção segura e consistente, “Cake” nos banha com toda profundidade de Jennifer Aniston em sua melhor atuação até o presente momento. Sempre presa as comédias românticas, aqui Jennifer deixa sua zona de conforto e surpreende numa atuação dramática e intensa. Deixa de lado toda beleza e sensualidade e dá a vida a uma mulher com um olhar perdido, solitário e triste.


“Cake” não teve a menção ou o destaque merecido, pois o filme possui um belo roteiro que consegue estabelecer sinceridade, honestidade e dignidade a sua personagem. Jennifer não obteve a merecida indicação ao Oscar, porém mostrou sua força como atriz e isso que vale a pena. 


Para Sempre Alice



“Para sempre Alice” aborda com sinceridade e honestidade um tema pouco abordado no cinema, o Mal Alzheimere. Por meio desta trama, o longa nos convida a mergulhar nas profundezas de um mar sem fim de uma mulher diagnosticada com essa doença que vê se  presa a uma verdade a qual não terá como escapar.

Alice (Julianne Moore) tem cinquenta anos, é uma professora da área da linguística muito respeita no meio acadêmico e está sempre ministrando aula, conferências e palestras. Com o avançar da idade, ela percebe alguns detalhes que lhe confere um mal estar, esquece algumas palavras, datas e lugares.

Quando numa palestra ela simplesmente esquece sobre o assunto que irá falar no meio do evento, ela resolve procurar ajuda médica. Faz inúmeros exames. O médico, sempre com muita cautela, pede para refazer alguns até chegar ao diagnóstico que a deixa sem reação. Ela está desenvolvendo o Mal Alzheimere

Após comunicar a família, começa uma verdadeira descida a um mundo desconhecido. Alice teme o seu futuro, é afastada da universidade e tenta a todo custo espantar o medo dessa doença, seja com palavras cruzadas, olhar diversas vezes o álbum de fotos ou tentar a todo custo relembrar datas, nomes e pessoas.

Numa estratégia de puro medo diante do mal que se chegará a ela, Alice deixa um vídeo com instruções para ela mesma, explicando o que fazer caso a doença atinja um grau elevado.

Sua família não sabe como se comportar diante da doença. O marido, John (Alec Baldwin), se afasta e a filha, Anna (Kate Bosworth) que tanto passava horas conversando ela, cada vez mais fica distante. Entretanto, diante desse fato, Lydia (Kristen Stewart), a filha que era objeto de desgosto de Alice por não ter uma carreira acadêmica, se aproxima da mãe lhe dando apoio, tentando compreender suas dores, medos e temores e tomando uma decisão ao final do filme que marcará fortemente sua vida.




“Para sempre Alice” mostra um lado dessa doença ainda pouco compreendida atualmente. “Longe dela”, longa com direção de Sara Polley focava no mesmo tema, porém com um olhar mais intimista. Aqui, neste drama, a direção resolve trazer para as telas do cinema toda a sensação de medo que pode se estabelecer numa pessoa que possui essa doença.

Vemos o medo de Alice, suas tentativas impróprias de lutar contra a doença. Sua fissura em acertar as palavras das palavras cruzadas. Sua busca visceral em compreender a doença, em olhar, visitar e revisitar os álbuns da família, em guiar a si mesma, para que no dia seguinte, ela venha lembra de quem é ou o que possui em sua vida. Mas para Alice, a verdade é essa e não há outro caminho, o da aceitação enquanto tiver tal consciência que se pode aceitar essa doença.

Pouco a pouco Alice perde suas lembranças, a noção de coisas simples. Seu olhar perdido que tenta achar uma luz no fim do túnel é comovente e doloroso. Vemos, por meio dessa personagem, uma verdadeira morte em vida, não apenas dela, mas de todos os que estão a sua volta.



O filme não possui grandes realizações, é apenas correto em suas ações e deixa para a protagonista Julianne Moore todo trabalho e beleza do longa.  Julianne, por esse drama, recebeu seu tão merecido Oscar de melhor atriz. Houve papeis mais profundos dessa atriz em sua carreira de cinema, longas como “Pecados Inocentes”, “Ensaio sobre cegueira” ou até mesmo “As Horas” e “Um homem solteiro” em que atuava como coadjuvante, possui mais profundidade dela como atriz. 

Aqui, em “Para sempre Alice”, ela dá vida, contexto, olhar, ternura, voz e voracidade a essa mulher, a esse mal, a essa luta. Seu olhar perdido, sua expressão de medo e suas lágrimas ao perceber que não possui um futuro de certezas promovem comoção e nos arrebata.

O Mal Alzheimer ainda é uma doença pouco estudada e compreendida. Ela arranca não apenas as lembranças das pessoas, mas também toda sua referência de vida, consciência e existência. Se os familiares sofrem diante deste mal, os acometidos por essa doença também sofrem ao saber que irão chegar em tal condição.


Diante dessa verdade inevitável, o que ela pode fazer é tentar viver da melhor forma que pode, sempre lutando, sempre vivendo cada momento, pois serão estes que farão a diferença em sua vida, apenas seu presente. Não mais apenas o passado ou o ontem, mas apenas o hoje e o presente. 



terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Boyhood - da infância a juventude



Com direção de Richard Linklater, “Boyhood” mergulha profundo na vida de um garoto, da sua infância a juventude e por este caminho passa pelas suas dores, dúvidas, silêncios, mudanças e transformações.

O longa seria convencional, se não possuísse uma característica em particular: ele foi rodado durante doze anos com os mesmos atores, acompanhando as mudanças de seus personagens, seus medos, receios e perspectivas.

Por ser um trabalho ousado e diferente do que se vê no cinema, o longa tem conquistado ótimas criticas. Entretanto, todos os elogios são bem vindos, pois o longa possui uma trilha sonora muito gostosa, comovente e nada manipuladora. Possui uma edição e montagem muito perspicaz que consegue amarrar a trama em seus mais diversos pulos no tempo. Além disso, o elenco está muito afinado, os quatro atores principais que fazem parte da trama possuem uma afinidade entre eles muito forte. A direção de Richard confere graciosidade, profundidade e beleza ao drama, ao mesmo tempo em que há toda uma simplicidade guiando os personagens.

O filme começa com Mason (Ellar Coltrane) ainda pequeno, com seus doze anos. Ele mora com sua irmã e sua mãe. Os pais são separados, por conta disso, a figura do pai sempre é ausente na história. Por mais que o pai os visite, se mostre presente e tente se manter presente, ele não está. Quem sempre está ali, em cena e com sua presença forte é Olivia (Patricia Arquette), a mãe.

Olivia, apesar de possuir dois pequenos filhos, ainda tenta reestruturar sua vida, porém seus filhos sempre estão a frente de tudo e de certa forma, isso se torna algo difícil, conciliar um possível namoro com sua vida de mãe e provedora do lar torna-se numa missão impossível.

Devido a dificuldades ela resolve voltar a morar coma mãe e a estudar, para tentar dar uma condição de vida melhor a seus filhos. E assim a vida segue e vemos, fase por fase, momento por momento da vida de Mason e em consequência disso, da vida de todos os personagens ao seu redor também.




Richard é um diretor que consegue exprimir muitos sentimentos com fortes silêncios, entretanto também com diálogos. Seus trabalhos mais conhecidos e bem recebidos pela crítica “Antes que o dia termine”, “Antes do por do sol” e “Antes da meia noite” concentram essas qualidades e neste drama essas características também se fazem presente, porém com mais sutileza.

O drama é belamente guiado por uma gostosa trilha sonora, um som não pesado, ora moldado por músicas, ora moldado por um sútil instrumental. A montagem do filme recebe uma qualidade especial, pois o filme foi gravado durante doze anos, captando toda a mudança do personagem ao longo da vida. É incrível perceber como esta criança se tornou num jovem. Essa mudança é tão delicada que somente notamos essa transformação de um estágio primário a outro mais bem avançado.

O problema que percorre a vida deste garoto está ligado a problemas comuns, pais separados, dificuldade em compreender a vida, as mudanças pelo qual ele passa. Ele é um jovem muito calado, os diálogos em torno dele são poucos. A personagem de Olivia, apesar de estar dentro do elenco de apoio, é a que possui mais diálogos neste drama.

Sobre o elenco, também é interessante notar a força dos atores. Ellar Coltrane é novo no cinema, porém Patricia Arquette e Ethan Hawke completam o time, dando dramaticidade e força na atuação. Patricia é a que mais se destaca, com uma atuação forte, singela, delicada e soberana, ela se mostra presente do começo ao final.



De todas estas qualidades, o principal elemento deste drama está ligado a sua execução. Um trabalho pessoal e ousado do diretor. Todo ano, durante doze anos, por cerca de algumas semanas, ele e esse grupo de atores se reuniam para rodar estas cenas. Se desprendiam de seus trabalhos e se uniam a este filme. E mesmo diante desta dificuldade, o drama consegue manter uma coesão na história do começo ao fim.

Como de costume nos trabalhos deste diretor, ao final do longa os diálogos vão se tornando mais fortes, ríspidos e ousados. Toda verdade ou sofrimento são lançados sobre os quatro ventos. Toda dor guardada e silenciada é bradada. E esta dor envolve Olivia e o tempo, o tempo que passou por ela, moldou aos seus filhos e a colocou numa posição de medo e receio. Neste momento vemos toda beleza e profundidade do filme. Mason era uma criança, agora ele cresceu e assim como a mãe dele, vai viver, ter suas vivências, sofrimentos e depois o que irá lhe restar? A morte, o fim. Tudo é um caminho, um processo e receber a verdade pode ser dolorosa.

E é nesta profundidade e graciosidade que o longa caminha e entrega uma bela obra do cinema, um grande filme moldado pelo tempo e tendo este tempo como elemento fundamental para este drama. Ao final, a cena que fica é um olhar, um sorriso, um silêncio, seguida por uma sonoridade que nos remete ao começo do longa. Um ciclo sem fim.




A Imigrante



“A imigrante” drama com direção de James Gray percorre uma ciranda de sentimentos e vidas. Ewa (Marion Cottilard) é uma imigrante polonesa que chega aos Estados Unidos com a irmã, Magda (Angela Sarafyan), na esperança de conseguir uma nova vida e esquecer os horrores da guerra.

Chegando ao país, Magda é barrada ao seu estado de saúde e é levada “presa”. Ewa segue adiante com o intuito de tentar retirar a irmã de lá, entretanto seu visto é negado e ela segue para deportação.

Sem a quem recorrer, pois seus únicos parentes não estavam a sua espera, ela confia sua vida a Bruno (Joaquim Phoefenix), um sujeito sedutor. Entretanto Bruno tem outros interesses para ela e acaba a colocando numa rede de prostituição. Ewa se nega até quando pode, porém quando vê que não há saída, deixa-se  levar por Bruno neste caminho.

Ewa é calada, bela e sedutora. Em pouco tempo atrai a atenção de todos. Bruno é impulsivo e ambíguo. Em pouco tempo percebe-se uma proteção dele para com ela muito forte, beirando a um ciúmes incontrolável. Entretanto, com a chegada de Orlando (Jeremy Renner), primo de Bruno, os ânimos de exaltam. Orlando se interessa por Ewa provocando a ira de Bruno e em consequência uma grande tragédia.




James Gray com este drama constrói um triângulo amoroso marcado pela exploração, ciúmes e uma severa dificuldade em expor sentimentos. O personagem de Bruno se num primeiro momento aparece como uma figura emblemática revela-se dotados de sentimentos, do amor ao ódio, da exploração e insensibilidade à proteção. Suas garotas são mais que garotas, são seu investimento, entretanto ainda sim, ele as tem como pessoas com sentimentos e fragilidades que necessitam de proteção.

Orlando é um personagem que nunca sabemos o que realmente deseja. Sua história com Bruno é marcada por atritos que não são revelados de fatos, mas com o desenrolar da trama, este mágico se revela também uma figura não muito confiável.

O que o diretor promove nesse drama é uma inversão de valores e sentimentos. Mesmo Bruno sendo áspero e egocêntrico, mostra-se como alguém que se necessita ser salvo. Com isso, torna-se fácil uma certa torcida para que ao final deste drama, ele realmente conquiste a admiração de Ewa.

Mas como em toda película de Gray, o caminho que estes personagens percorrem sempre é calcado em situações complexas e o tão esperado “felizes para sempre” não aparece, mas apenas o desfecho respaldado pela dura realidade da vida.




James Gray reconstrói com beleza e charme um Estados Unidos em inicio de desenvolvimento. Uma América vista ainda como local onde todos os sonhos podem se realizar, mas que na verdade, esconde em seu interior pobreza, dificuldades e empecilhos. Em todos os cenários, vemos uma Nova York marcada pela miséria, pessoas sem estruturas, famílias ou bases, presas a prostituição ou a exploração para conseguirem se manterem vivas. Ou seja, o sonho americano em Gray mais está para um verdadeiro pesadelo.

Nessa América, corpos se entregam por dinheiro e dinheiro é entregue no lugar de corpos. Bruno apenas é mais um que usa e também é usado nessa relação de trocas e desejos. Ele cede proteção, clientes, moradia e dinheiro. Elas cedem seus corpos, prazeres, sorrisos e prazeres. Nessa dura realidade, cada pessoa tem seus motivos e Ewa apenas materializa um destes. O motivo que a levou a este mundo de prostituição está ligado ao desejo de tentar reencontrar a irmã e assim como ela, há outras mulheres com tantos outros motivos. Nesse sentindo, Gray dá humanidade a estas mulheres e assim como dá humanidade a elas, também concede sentimentos à Bruno, o explorador desta trama.

Ao final, o diálogo contraria os atos e revela muito mais do que as palavras podem dizer. Assim também foi em “Dois Amores”. “A imigrante” revela o melhor e o pior do homem de forma sútil e delicada. Com uma fotografia gélida, cores opacas e um figurino impecável, esse drama é denso e profundo. Sua profundidade encontra-se em camadas que só se percebe ao olhar bem atentamente para esse longa, assim como olhamos atentamente para estes personagens.


No elenco Marion Cottilard, Joaquim Phoefenix e Jeremy Renneer entregam atuações esplêndidas, dando destaque para Marion e Phoefenix. Ela com seu olhar fechado, semblante frio e uma pureza que desperta encantos. Ele por seu jeito reservado, instável, espontâneo e sedutor. 


terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Uma Vida Comum


John May (Eddie Marsan) trabalha no conselho de um pequeno distrito da Inglaterra. A função dele é achar familiares de falecidos, ditos como desconhecidos e promover um enterro digno a eles.

Cuidadosamente ele colhe informações dos falecidos, seus gostos e modo de ser. Tenta traçar a vida de cada um deles, seus valores e medos, tudo com um olhar cuidado e atento sobre os objetos do morto. Após fazer isso faz uma busca minuciosa sobre os possíveis parentes e tenta acioná-los, mas quase nunca consegue. Ou estes parentes se recusam a ir ao funeral, ou simplesmente não recebem a May. Os motivos para isso são vários.

Então, nesse sentindo, ele mesmo realiza todos os procedimentos do funeral, escolhe as músicas fúnebres, escreve o discurso, as honrarias e se faz presente no funeral. Quase sempre todos os velórios que ele promove, sempre são as mesmas pessoas: o defunto, John e o padre.
May é calado, reservado, solitário. Vive sozinho, sua vida é seu trabalho. Todo o dia realiza todos os passos, todas as ações, sempre do mesmo modo, sempre no mesmo ritual. Ao receber a notícia que o conselho em que trabalha irá fazer cortes de gastos e que ele será demitido, ele fica primeiramente sem reação, entretanto calado. O que se pode fazer? Nada.

Após um ataque de fúria, ele então pede para realizar seu último trabalho. Um homem, vizinho seu, falecera e não há familiares que possam velá-lo. May se dispõe então a realizar este último trabalho e depois deixar o conselho.

É nessa busca, em tentar compreender quem foi esse falecido em vida que esse homem irá mergulhar em sua própria existência. Pouco a pouco May percebe que sua vida muito se assemelha a destes mortos: homens e mulheres solitários, sozinhos, sem ninguém. Uma vida vazia, uma vida solitária, uma vida calada.

Ele vai até o passado e descobre um antigo amor deste falecido, uma filha, antigos amigos e a cada descoberta, seu envolvimento com este homem torna-se claro. Aqui o trabalho não se trata apenas em achar algum parente que queira participar das últimas homenagens a este homem que morreu, mas é achar a si mesmo, é buscar razões em sua própria existência. Perder o emprego é perder toda referência de sua vida. May não tem amigos, familiares ou algo que o faça sentir vivo, apenas seu emprego.




“Uma vida comum” é um grande achado do cinema inglês. Um drama seco, porém comovente, áspero, entretanto cheio de vida. Cores opacas, trilha sonora quase imperceptível e um protagonista que mesmo sem expressão facial, nos conquista.

John May persegue e percorre por lugares e em seu último trabalho, como se fosse os últimos momentos de sua vida, percorre os labirintos de seus sentimentos. Nesse drama, não há manipulação de sentimentos. Tudo é tratado com tanta simplicidade, veracidade e ternura.

A cada ação, somos envolvidos por este homem e já nem importa mais quem seja este falecido, mas importa saber o que acontecerá depois a este homem tão calado e tão solitário chamado John May. Queremos saber quais são seus medos, desejos e sonhos. Ele é um homem simples que não possui uma grande vida ou algo extraordinário, entretanto mesmo assim, ele vive, de forma simples ele vive.

Ao final do longa, o diretor não se deixa levar pelo caminho fácil e nos entrega um drama sóbrio. A cena final é cheia de vida, ternura e nos revela um homem que mesmo calado, mesmo não tendo tido grandes realizações em sua vida, viveu da melhor forma que pôde. É interessante perceber como o longa constrói essa questão de “viver a vida”. May em seu último trabalho realiza as mesmas tarefas, as mesmas ações, não muda sua rotina, não muda seus planos.


É como se no decorrer desta jornada ele percebesse quem é nessa vida e mais importante de perceber quem é, é compreender quem não é. Uma vida simples, uma comum, uma vida calcada em pequenas realizações, em pequenos feitos.